terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Governo Wagner e PT se assemelham à ACM, diz Geddel

Ontem (10/11) entrevistei por telefone o ministro Geddel Vieira Lima. Na entrevista, o ministro falou de vários temas, entre eles a polêmica charge de Cau Gomez, a termelétrica de Sapeaçu, usina nuclear, políticas afirmativas, governo Wagner e o apoio do PDT ao governador. O ministro Geddel comparou as atitudes do PT baiano àquelas tomadas por Antônio Carlos Magalhães. E fez uma série de críticas à administração petista na Bahia. Por Charles Carmo

geddel-entrevista
O Recôncavo: Ministro Geddel Vieira Lima, recentemente o presidente do PT baiano, Jonas Paulo, criticou uma charge do artista Cau Gomez, publicada no jornal A Tarde, aonde o presidente Lula é retratado como um ursinho de pelúcia, ao lado dos presidendes Chávez e Zelaya. O senhor também considerou a charge ofensiva à imagem do presidente?

Geddel: Eu acho que nem eu, nem o Presidente da República. Quem verdadeiramente pratica a democracia e entende estas questões tem que entender charge como uma manifestação de inteligência que é próprio de nossa cultura, eu não creio que o presidente da república possa ter se sentido ofendido com a visão de um chargista. Eu acho que a crítica, seja de que forma que vier, ela tem que ser aceita, salvo se for uma injusta crítica sobre a honra, você tem os mecanismos legais. Acho até que este governo e o partido têm se enveredado por um caminho que se assemelha muito ao que era o esquema de Antônio Carlos. Esta crítica, a história da intervenção no PDT, o controle absoluto sobre a Assembléia Legislativa, é agora o TCE em questionamento e uma série de questões que nos assustam um pouco por ver a diferença entre o discurso e a prática. Não concordo com a crítica ao chargista, não tem sentido e o próprio Presidente da República tem sido caracterizado, e todos nós aí, em várias charges e entende isso como uma demonstração do humor e da criatividade do chargista em si.

O Recôncavo: Ministro, a Bahia é o estado que tem a segunda pior proporção entre alunos matriculados em universidades federais para cada mil habitantes. Durante o governo Lula a Bahia ganhou a UFRB e a UNIVASF, que o estado divide com Pernambuco e Piauí. Mesmo assim, a Bahia continua na penúltima colocação nacional. A classe política baiana ainda não despertou para este problema?

Geddel: Nem para este nem para outros. Acho que a educação tá muito maltratada por este governo. Você veja agora o que está acontecendo com as nossas universidades estaduais, todas as avaliações que tem os cursos das quatro universidades estaduais estão muito mal posicionados. E o que é mais grave: não há uma prioridade nesta questão da educação. O governo do estado tem apenas um único projeto, único, que é o TOPA, que é um bom projeto de alfabetização de adultos. Mas a meu ver não está dando, por exemplo, a assistência que deve ser dada à educação fundamental, à educação básica. Quantas creches foram construídas neste governo? Como está o investimento nos cursos técnicos? Se você prepara o estudante com qualificação, com qualidade, durante o ensino básico, fundamental, você não vai precisar de programas como o TOPA, por que você vai reduzir, cá na base, o padrão de analfabetismo que é muito grande na Bahia. Então eu estou achando é que está faltando projeto, está faltando prioridade, o governo está no rumo, a meu ver, absolutamente equivocado, nesta área e em outras áreas importantes, como na segurança pública.

O Recôncavo: A revista Istoé afirmou que o apoio do PDT ao governador Wagner teve a participação do presidente Lula. Com a intervenção do Diretório Nacional do PDT na Bahia, o partido acabou fechando uma aliança com o governador e o deputado Severiano Alves saiu do PDT para apoiar a sua candidatura ao governo do estado. A decisão do PDT, em apoiar Wagner teve a chancela do presidente Lula, de fato, como afirmou a revista Istoé?

Geddel: Não posso lhe afirmar, aí só o Presidente da República. Mas o que fica caracterizado é uma intervenção. O que mostra que a vontade do partido, da base partidária, não é ir nesta direção. Não foi só o Severiano Alves, o deputado Sérgio Brito também e outras lideranças importantes da base partidária, prefeitos e outras lideranças importantes da base partidária, prefeitos e tantas outras que estão conosco nesta jornada porque acham que a Bahia está no rumo equivocado e que a nós temos condições de falar uma proposta claramente definida, não sobre o passado, não sobre a volta do passado, não sobre a volta do passado, dos que querem voltar, que foram derrotados mas não deixaram saudades. Não sobre este presente que frustra, que decepciona quem nele acreditou né? Mas falar sobre o futuro, falar sobre esperança, sobre a convicção que a Bahia quer mais, a Bahia pode ter mais e a Bahia pode ter mais nas diversas áreas da administração e da política.

O Recôncavo: Sapeaçu pode ter uma termelétrica movida a óleo pesado. Esta termelétrica está recebendo incentivos fiscais, aprovados pela SUDENE. Muita gente na região é contra o empreendimento por seu potencial poluidor. O senhor esta semana falou, na rádio metrópole, sobre a questão ambiental na Bahia. O senhor aprova a construção de uma termelétrica, movida a óleo pesado, em Sapeaçu?

Geddel: No comentário à Metrópole, quando eu falo que o grande desafio da nossa geração é compatibilizar o desenvolvimento que os nossos filhos cobram em nome dos empregos, com a preservação ambiental que os nossos netos haverão de cobrar, o tempo não permitiu para complementar o que os coloco, que é o seguinte: o grande desafio nosso não é proibir de fazer, é dizer como fazer. Você hoje tem as condicionantes ambientais que permitem claramente estabelecer quais as compensações para que empreendimentos, sejam eles quais forem ele, possam ser instalados. Eu tenho visto este movimento de várias entidades de Sapeaçu contra a instalação da termelétrica. O que eu creio é que este debate tem que avançar para se falar com a sociedade, de forma clara, que garantias, que condicionantes ambientais, que compensações ambientais serão oferecidas para que esta termelétrica seja instalada, portanto, eu estou pronto para participar com muita clareza deste processo, ainda que esta não seja uma iniciativa de meu ministério, dentro de uma política global de incentivos fiscais a Bahia acaba sendo beneficiada, porque eu não posso prejudicá-la agora vamos discutir isso com clareza para que a opinião da sociedade seja respeitada.

O Recôncavo: E o que o senhor acha da possível implantação de uma usina nuclear na Bahia?

Geddel: Você tem hoje, do ponto de vista de segurança, um avanço tecnológico muito grande nas questões das usinas nucleares, eu não sou contra nada que venha para nosso estado, desde que seja preservado os interesses da sociedade, agora acho que evidentemente esta não é a prioridade para nós estarmos lutando, do ponto de vista dos investimentos estruturantes na Bahia. Você tem aí a falta clara de uma política de atração de empregos que gerem empregos permanentemente, que gerem renda. Você falou dos incentivos fiscais o que nos temos hoje na Bahia são ampliações de investimentos que foram feitos no passado em empresas, são modernizações feitas fundamentalmente com os incentivos fiscais que nós estamos lutando, viabilizando via SUDENE, lá no Ministério da Integração Nacional pra preservar e aumentar o padrão de empregos na Bahia. Mas qual, foi me lembre qual foi, meu caro Charles, vocês aí do O Recôncavo, qual foi o grande empreendimento que a política industrial deste governo trouxe para cá? Esta foi uma das razões de nos afastarmos, de buscarmos oferecer uma alternativa. Levamos ao governador um documento mostrando que a Secretaria de Indústria e Comércio estava sem instrumentos de política para a atração de investimentos produtivos e o que ouvimos foi dizer que não teve tempo de ler nossas sugestões, não ouvia mais, era um pequeno grupo que definia, não podíamos aceitar isso, portanto, não dá para contrariar investimentos que venham para o estado, mas evidentemente eu não creio que esta fosse a grande prioridade para estar se lutando.

O Recôncavo: O dia 20 de novembro é o dia da consciência negra. Portanto, este mês é um mês importante na conquistas de avanços relativos à diversidade e as ações afirmativas. Qual a sua posição a respeito dos projetos de Lei em tramitação no congresso nacional que dizem respeito a esta temática, mais precisamente o Estatuto da Igualdade Racial e o projeto que regulamenta as cotas na universidade?

Geddel: Olha, eu tenho absoluto apreço e afirmação de apoio por todas estas ações afirmativas, sobretudo a qualquer combate de discriminação. Este país é um país de absolutamente todos, onde nós todos somos irmãos, independente de origem, portanto temos que avançar sempre nestas ações afirmativas, com o cuidado de fazer com que ações afirmativas, como cotas, não sejam a reafirmação de determinados preconceitos, é o que eu tenho dito de forma muito clara. E tenho tido uma participação efetiva. Você fala do dia 20, dia 20 o ministro Edson (Edson Santos – Ministro da Igualdade Racial) vai estar na Bahia, o presidente Lula vai estar na Bahia, eu vou estar aqui porque temos, por exemplo, naquele projeto do Baixo Sul da Bahia, da Fundação Odebrecht, uma participação de parceria nossa no oferecimento de condições aos quilombolas, então é uma demonstração muito clara nossa a estas questões que dizem respeito aos movimentos que contam sempre, é claro, com o meu apoio.

O Recôncavo: Por último ministro, eu gostaria que o senhor deixasse uma mensagem para os ouvintes da Santa Cruz FM e os leitores do site O Recôncavo.

Geddel: Olha, primeiro eu quero cumprimentar os responsáveis pelo O Recôncavo. Sempre que nasce, sempre que surge um mecanismo, um meio de comunicação, é algo fundamental. Uma sociedade informada, uma sociedade participante, uma sociedade no pleno exercício de cidadania e isso é muito importante. Uma sociedade politizada é uma sociedade mais forte. Portanto eu quero cumprimentar e deixar uma mensagem de otimismo, eu tenho muita fé no futuro, na nossa capacidade de juntos, construirmos uma Bahia para os nossos filhos e para os filhos de nossos filhos. Eu tenho certeza que a Bahia quer mais e nós podemos oferecer mais à Bahia. Um grande abraça a todos e até o nosso próximo encontro.