domingo, 5 de fevereiro de 2012

Artigo: Veloso e Velloso?

por Cyro Serpa

Não tenho ídolos. A começar pela principal instância em que eles costumam surgir, a religiosa. Nem mesmo sei denominar minha condição de, simplesmente, não crer em deus algum. Costuma-se chamar isso de ateísmo, mas já soube que o verdadeiro ateu é defensor de uma ideia: a negação de “Deus”. O que não é o meu caso. Por isso, tomo emprestada a explicação de Camus sobre a sua noção filosófica do absurdo: um entendimento que, simplesmente, “não conduz a Deus.”

Mas, religião não é o mote destas linhas. Apenas é uma referência psicologicamente mais elevada, talvez instintiva em nossa cultura católica, para introduzir a noção de idolatria. Que desce o panteão das divindades e recai sobre seres humanos, alguns notáveis sobre quem se cria uma imagem de quase-Perfeição, às vezes enganadora. Por isso, mas também por espontâneo modo de sentir as coisas, não reconheço ou cultuo ídolos. Prefiro, simplesmente, admirar pessoas, algo aparentemente de menor magnitude, porém mais verdadeiro e significativo para mim. E, pela segunda vez, esclareço que ainda não entrei no efetivo assunto deste escrito; mas é que, para iniciá-lo, eu não poderia dispensar o que por aqui digo. Afinal, falarei de alguém que, na sua complexidade como ser humano, é também um ídolo para tantos, e um artista que eu MUITO admiro: Caetano Veloso.
Nos últimos dias, Caetano volta à cena com uma declaração sobre o Presidente Lula. Quando alguém como ele diz algo assim, pode-se julgar que uma gafe foi cometida, “uma infeliz declaração”. Tremenda indulgência. Mas as pessoas não vêm cometendo esse equívoco e se manifestam sobre o inescondível preconceito em suas palavras. Tenho notado, com uma ou outra exceção apaixonada mais para o “lulismo”, muita lucidez na reação de tantos desconhecidos, como eu. E de conhecidos, como o articulista do jornal A Tarde que, na edição deste sábado, perspicazmente amealhou traços do Caetano homem da palavra, autor da libertária letra de “Língua”; traços que tornam absurdo (não mais no sentido camusiano) seu pronunciamento, identificável com as mais reacionárias visões sobre a comunicação.

Também Lula, sua política e seus discursos não são objeto destas já adiantadas linhas. Sua política oferece razões para apoiá-lo ou para criticá-lo, segundo o entendimento de cada um. Quanto aos seus pronunciamentos frente a plateias, as impertinências aqui e ali cometidas até conseguem algo próximo de um consenso entre apoiadores e opositores: como ele fala umas besteiras… Sim, todos sabem que Lula, como diz o baiano, “se passa” algumas vezes, fazendo de triviais discursos, daqueles de rotina no exercício do cargo presidencial, um palanque onde a exaltação verborrágica fere o bom-senso que esse mesmo exercício do cargo lhe exige. Mas, essa incontinência verbal não tem nada a ver com analfabetismo. Aliás, qualidade ou defeito algum nesse homem denuncia qualquer forma de analfabetismo linguístico, social ou, sobretudo político.

Enfim, regressemos, agora de vez, ao foco deste escrito: Caetano. Ao dizer que ele voltara à cena, lembrei-me de quantas vezes ele a adentrou – refiro-me à cena ordinária, não a uma outra mais altiva, onde ele tem assento permanente. E como parece gostar de se manter nela, à sua maneira.

Caetano ganhou o Brasil pelo seu brilhantismo único como compositor, letrista, músico. Um dos poucos criadores, entre todos os de qualquer vertente artística, que se puseram a visitar as mais variadas (e, não raro, sutilíssimas) temáticas, penetrando cada uma delas como um íntimo conhecedor. O que seria pretensão para muitos tornou-se um dos traços fundamentais de seu riquíssimo cancioneiro autoral, no qual melodia e harmonia acompanham, em mesma escala de êxito criativo, o conteúdo e a estética de sua palavra.

Como toda inteligência rara (no original sentido, oposto à habitual ironia da expressão), a de Caetano o moveu sempre a um comportamento transgressor, questionador. Não numa rasa dimensão meramente iconoclasta, mas, na de alguém que sempre teve algo a edificar, a oferecer de novo e surpreendente. Isso sempre se viu na sua obra, como em sua atitude perante o meio circundante: num certo momento, puxou à tona a figura do “brega” Peninha, para revelar a beleza da canção Sonhos, ignorada por um preconceituoso “bom-gosto”. Quando notou que a intelectualidade, a mesma que apreciava a sua música, patrulhava a “futilidade burguesa” de dançar, usou uma linda palavra em Iorubá para exaltar como a liberdade da dança, aquela puramente hedonista, à toa, deixava seu espírito “Odara”. E assim seguiu Caetano, desafiando conceitos equivocados para promover novas e grandiosas possibilidades.

Mas, em algum momento, ele mudou. Sobre o seu próprio modo de agir, passou a cultivar um gostar; um gostar daquele modo agir. Já não havia mais o natural exercício de sua própria sagacidade, que o assemelhava a um descobridor de mares. Em vez de apenas ser quem era, passou a se ver como achava que era: um Midas. Convenceu-se de que, se não o toque, o simples apontar de seu dedo arguto teria o condão de converter capim em orquídeas. E lá veio Peninha de novo, dessa vez, no entanto, em uma peça sem o mesmo “algo mais” da anterior. Mas Caetano, respaldado em sua histórica prospecção de jóias ocultas, tornou a frase “às vezes no silêncio da noite” irritantemente repetida em rádios, festas e rodinhas de violão. Lá pela mesma época, um ou outro pagodeiro banal e sua música igualmente banal eram chamados de “lindos”, virando arautos de alguma musicalidade insondável, d’alguma Atlântida sonora e rítmica que só o visionário Caetano alcançava. Mais recentemente, o mundo começava a notar o modelo tirânico do imperialismo ianque através do seu mais ignóbil e, por isso mesmo, revelador representante: Baby Bush, que, com apoio popular, brincava de homenzinho valente com as vidas humanas do Iraque, assim angariando uma antipatia para o seu país talvez jamais vista. E eis que vem Caetano com mais uma manifestação do tipo “enquanto todos vão cegos numa mesma direção, vejam só o que só eu vejo”. E lança um disquinho insosso, “A Foreign Sound”, musicalmente irrelevante para a sua própria carreira e para todos, baseado em conhecidas canções estadunidenses (como se fossem elas algum elemento carente de percepção). Pareceu-me o mesmo que, num momento em que finalmente houvesse um clamor social sobre a questão do racismo, alguém sair à rua com uma camisa “100% branco”.

Parece que aquele sensível percebedor da realidade foi involuindo, em atitude, para um simplório “do-contra”. Que sempre volta à cena – essa é uma expressão-chave a se repetir – em entrevistas e declarações. Diferente, com o perdão da inevitável comparação, de um reservado Chico Buarque. Que, certa feita, ao lançar um novo trabalho, foi questionado sobre o porquê de tanto tempo sem dar entrevistas, ao que respondeu: “eu não tinha nada a dizer”. Que Caetano seja de outro estilo, e lhe apeteça a comunicação constante com o público, tudo bem, cada um no seu cada um. Mas, passou a haver algo de vicioso nesse pendor para se mostrar “original”, quando não “polêmico”. E a recente declaração sobre Lula talvez seja o ápice desse estranho processo, em que ele chega a contradizer seus próprios valores e ideais. Tá certo, esse homem compôs “O Quereres”; e a contradição, a mais elevada, dos barrocos, faz parte de sua sublime natureza. Seríamos simplórios ao lhe cobramos uma “coerência” ordinária, baseada numa linearidade que seu espírito inquieto, realmente, não há de ter. Só que, por mais que a sua grandeza de artista possa tornar natural o incompreensível, há de haver algumas balizas; não limites, mas, um referenciamento mínimo do que cada um é, afinal, como pessoa. Sem o quê, toda a complexidade da qual sobressai a identidade de um ser, com todas as suas contradições, pulverizar-se-ia no caos. Neste caso: um homem com tamanha capacidade de entender e expressar o próprio homem, um profundo opositor de preconceitos e outras maneiras tacanhas e maldosas de assassinar possibilidades humanas, vir a público rebaixar alguém por seu suposto (e – pior – inexistente) analfabetismo… Aí é dose.

Já que iniciei o escrito num tom meio confessional, sobre perspectivas religiosas, eu o encerrarei de modo semelhante, numa outra dimensão: o futebol. De que eu gosto tanto, mas onde também não erijo ídolos. Mas nosso país tem alguém que é o maior de todos, o incomparável Pelé. Curioso é que muitos, sem necessariamente perder a admiração (ou idolatria) por ele, apontam comportamentos feiosos do Rei do Futebol fora do mundo da bola, que inspiraram uma conhecida frase: “é preciso separar ‘Pelé’ (jogador) de ‘Edson’” (Arantes do Nacimento, cidadão). Por razões outras, temo também ter de distinguir o iluminado Caetano Veloso (com uma só “L”, nome artístico) de um certo Caetano Emanuel Viana Teles Velloso.