terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Aqui tudo parece construção e já é ruína? Por Marcelo Rocha

america-latinaA América Latina nasceu enraizada no signo da modernidade ocidental – empreender-construir-destruir-empreender…e nas fronteiras do Antigo Regime: absolutismo, catolicismo, escravismo, aristocratismo. Desse campo de tensão entre conservar o velho e construir o novo, brotaram as forças que engendraram as nações latino-americanas, percorrendo um caminho cheio de contradições, constituindo uma espécie de “Modernização-Conservadora”. Esse signo da contradição foi potencializado pelo espírito barroco e católico da Ibéria.

O Brasil evoluiu a partir dessa realidade, somos uma realidade transmutando-se no tempo, a partir das tensões intrínsecas e extrínsecas dadas pela história ocidental moderna. Somos uma identidade em construção frenética, visto que não somos velhos; somos mistura de várias matrizes e todas elas, por sua vez, polissêmicas e polivalentes. Além disso, na composição daquilo que chamamos História com “H maiúsculo”, colocamo-nos no mundo a partir de uma relação, a um só tempo, filial e antagônica ao pólo culturalmente dominante no Ocidente, que é a Europa e tudo o que ela representa de origem lingüística e intelectual.

Encontrar um caminho de auto-referência é o maior desafio para nossa cultura polissêmica e ressentida de seu passado colonial. Todas as palavras e boa parte das teorias das Ciências Sociais e da História enquanto Ciência parece refletir, em última instância, um olhar europeu, “de fora”, sobre nós. Talvez a epopéia que tenhamos de realizar seja a de nos reinventarmos, de maneira teórica, nas esferas das Ciências, das Instituições Públicas, na Educação, nos Discursos e na Audição para, assim, fundarmos um mito potente de nação mestiça e vitoriosa dentro dos escombros da Modernidade. Aliás, já nos anos 20 e depois com a geração de 40 e 50 do Século XX, ilustres pensadores esforçaram-se para construir um pensamento genuinamente brasileiro, a partir de rompimentos com as influências estéticas e intelectuais européias e através de um olhar menos elitista. Essa tradição um tanto relegada às gavetas empoeiradas da memória nacional pode servir como referência para um novo pensamento brasileiro, agora, depurado de equívocos e desvios.Ou seja, o caminho da potência do Brasil é a inclusão do que se define por Povo na idéia de grandeza que buscamos. Contudo, isso implicaria romper com uma tradição profundamente arraigada em nossa cultura – o autoritarismo elitista das classes proprietárias, dos chamados Donos do Poder, como bem definiu o saudoso Raimundo Faoro. Mas, como fazê-lo?

Esse projeto seria levado a cabo por dois caminhos distintos e essa distinção é de caráter conceitual e ideológico. Um caminho seria a revolução popular, o outro, a reforma do Estado. Essas posições servem para disputar o poder e os caminhos que o país deve trilhar na sua construção presente e futura. Mas ambas parecem não se realizar por conta de suas miopias em relação à complexidade de nossas realidades cultural e social. Quando se materializam em forma de discurso e ação política, ambas são arrogantes, retóricas, donas da verdade, salvacionistas e messiânicas. Por isso são moralistas e tratam o povo, no caso da direita, como vítima e massa de manobra, como gente que tem de suportar o darwinismo social dos donos do poder mundial ou, no caso da esquerda mais tradicional, caminhar como cordeiros para uma salvação, seguindo os pastores-profetas da utopia igualitária. Desse extremismo ideológico e do egoísmo exacerbado das elites nasce a inviabilidade da reforma democrática da sociedade e do Estado.

Em certa medida, o discurso que acusa as classes dirigentes de serem as responsáveis por nossas desgraças sociais procede. Afinal, são as elites econômicas e política que comandam o Estado e a economia e geram a ideologia hegemônica do conservadorismo. Há aí uma explicação histórica para esse comportamento. Desde o início da formação da colônia, as classes proprietárias foram constituídas para explorar a terra e os povos trabalhadores aqui cativos e para mandar a maior parte da riqueza para fora. Essa elite pioneira não poderia jamais estabelecer sentimento de pertencimento ao lugar e à gente do lugar, sem contradições. A gente do lugar e os escravos africanos importados eram o os outroso, os estranhos e os exóticos e o exótico, tratados como coisas ou animais de carga, vistos como inferiores em cultura, religião, técnica, língua e beleza. A identidade dessa elite, portanto, era marcada por sua origem européia, branca, cristã e, naquelas circunstâncias, dominante. Assim, os proprietários das terras e das gentes, quando se tornaram proprietários do Estado, seguiram seu instinto de classe e mantiveram a esfera do poder como propriedade, por direito, privada. As idéias liberais de direitos iguais, de justiça como esfera separada do poder de mando e de respeito ao outro menos favorecido economicamente sempre foram estranhas a eles, afinal tratava-se de uma aristocracia latifundiária, católica e escravista e não de uma burguesia iluminista, protestante, disposta a romper com as bases do Estado patrimonialista e do mercantilismo. Assim é que, ao longo de nossa história nacional, fomos nos modernizando economicamente, em termos de infra-estrutura, de instituições, de educação, de valores etc, mas conservando em todas as esferas um autoritarismo e uma discriminação social tão arraigados, que não conseguimos, ainda, nos desvencilhar desse traço cultural, mesmo quando temos plena consciência de sua existência. Como esse foi o comportamento das elites, portanto, dominante nas esferas públicas, econômicas e culturais, tornou-se um traço social geral, que diz respeito aos ricos, aos médios e aos pobres.

Outra análise possível desse contexto é a de que condenar somente as elites pelo nosso atraso político e social é uma maneira simplista de pensar o país. Há uma modernização-conservadora no conjunto social brasileiro, das Igrejas ao Estado, das escolas às famílias, dos estudantes aos professores, da direita à esquerda. Um dos traços desse conservadorismo modernizante, ou dessa modernização conservadora é o hábito do dualismo barroco. As grandes e as pequenas questões que dizem respeito ao nosso universo político-social são quase sempre tratadas de maneira maniqueísta e catastrófica. Ou é o tudo ou é o nada. Se não se consegue o sonhado ou planejado, resta a ruína, pois para o Barroco o melhor lugar é o do lamento, do sofrimento insolúvel e não exatamente a via do meio, do possível. Tudo, então, que se vai fazendo, conquistando, avançando, parece sempre com a derrota, a negação, o desvio, o fracasso de nós mesmos. Outro aspecto de modernização-conservadora é a vitimia. Diante do fracasso permanente, resta o consolo da “moral escrava”. Somos quase sempre a vítima de nós mesmos. E tratamos as relações sociais como verdadeiras batalhas entre os ricos malvados e os pobres bonzinhos, entre nós de índole doce nos trópicos e os nortistas imperialistas de índole má. Entre um povo bom e cordial e um governo perverso e insensível. Nesse jogo, vamos sofisticando as culpas e as dores de tal modo, que nossa cultura política se define por um jogo de acusações e ovações muito pouco esclarecedor das reais posições dos interlocutores e por certa incompetência gerencial, por falta de um pragmatismo eficiente. Fica difícil, portanto, encontrarmos o ponto mais centrado para nos posicionarmos como cidadãos, como trabalhadores, intelectuais, professores, estudantes, artistas, mulheres, negros, índios etc..

Sem definições mais pragmáticas, esticamos as reclamações e os lamentos a uma extensão acima do provável, tornando-os nossa maneira de estar no mundo, uma maneira ressentida e pouco ativa. Daí o moralismo acusatório da política, a dissimulação do racismo, a falta de ética generalizada, mas sempre denunciada apenas nas esferas do poder, servindo como combustível para nossa vitimia. Daí a exacerbação de acusações e reclamações e a escassez de atitudes cidadãs; a admiração dos heróis populares do passado nas aulas de História e a condenação das lideranças populares nas lutas sociais cotidianas (herói bom é herói morto). Daí a idéia de nação do futuro, sempre postergando a nossa grandeza para um além que, em última instância é o paraíso cristão e católico. Daí a dificuldade de se separar “o joio do trigo” e a idéia nefasta de que “todo político é ladrão”. É a eterna dualidade entre o Bem e o Mal como categorias absolutas ou conflitantes a ponto da inviabilidade da síntese como caminho de construção. Ao lado desse dilema, porém, ostentamos o nosso lado fulgurante. Somos tentados a nos conceber, ao mesmo tempo, como um povo feliz, alegre e festivo, cheio de potencial para realizar o inusitado, o criativo e o grandioso. É o Brasil do futebol, do samba, da mestiçagem sensual, das artes, da música… Esse aspecto de grandiosidade, contudo, traduz-se como um contraponto, uma espécie de consolo ou de alívio promissor de futuro grandioso, nunca como elemento em curso, mesclado com as pequenezas de nossa alma nacional. Vem sempre como o céu que nos chama, que nos mantém acordados para o que podemos ser um dia, como um paraíso cristão que existe nesse mundo como promessa, como redenção e não como vida e natureza humana, antropológica.

Acima e abaixo dessas contradições de nossa sociologia, de nossa antropologia, flui o mundo das coisas e vamos sendo um Brasil que caminha antagônico e paradoxal para situações cada vez mais sintéticas e sincréticas, afirmando-se na matéria do vário, das diferenças, respondendo a seus dilemas com mais matéria crua de violência e sonhos, de trabalho e corrupção, de beleza e bizarrice. Seja como for, é algo muito vivo e pulsante, capaz de levantar esperanças positivas quanto a uma realização civilizatória potente, desenvolvida em alma e matéria, em gesto e pensamento. É uma guerra sem fim no fim do mundo, marchando para fronteiras mais largas, onde uma visão de Brasil seja aquela que enxergue o poder político como algo mestiço e benéfico, como instrumento de construção e manutenção de uma democracia multirreferencial, permanentemente em alerta e em luta contra a ruína que habita em nós, velhos homens humanos.