Planejamento: exercício de poder. Por Edson Valadares
Só existe prática formativa com planejamento. Refiro-me, às práticas que possuem intencionalidade política. Práticas essas concebidas e desenvolvidas em relação aos projetos e seus objetivos estratégicos. O desafio é o de desenvolver e aplicar instrumentos que facilitem a leitura da realidade e ajudem à tomada de decisões organizativas mais adequadas aos dirigentes e governantes.
O planejamento por si próprio não garante o sucesso da ação. Ele é um instrumento de otimização e não uma vara de condão, podendo vir a fracassar por vários motivos: por uma equação equivocada entre o que se pretende e as possibilidades, por falta de condições de implementar o que foi decidido e por não possuir ferramentas eficientes para gerenciar o plano de ação.
Primeiro há que resolver o antigo dilema da relação entre “ o tamanho dos passos e das pernas “ de quem planeja, sendo necessário conjugar o deve ser com o pode ser. Por outro lado é importante conhecer a governabilidade de quem planeja, pois não adianta ter boas intenções se não existe poder de fato, ao final só se pode decidir e agir sobre aquilo que se pode intervir. Por fim o sucesso de uma ação planejada depende da capacidade e rigor metódico do gerenciamento.
Planejamento, na prática, nada mais é do que um exercício de preparação (preparar a ação) definindo e organizando previamente o que será feito e como.
O exercício sistemático de um planejamento começa quando quem planeja declara sua intenção de atingir uma meta, um objetivo ou um resultado. As organizações planejam para fazer frente às improvisações em contextos cada vez mais complexos de situações complicadas e conflituosas exigindo recursos metodológicos e procedimentos que facilitem o conhecimento da realidade permitindo a tomada de decisões com o menor risco possível.
Estes conhecimentos são instrumentos de poder. Por isso, planejamento é um instrumento político que qualifica a ação.
Os diversos métodos e técnicas de planejamento identificam várias concepções de conhecimento e poder que os sustentam. A concepção normativa pensa a realidade social como uma coisa inerte, regida por normas, leis ou regras que garantem a sua perfeita harmonia, tendo por trás dessa visão uma forte influencia positivista da ordem e do progresso numa compreensão funcionalista da sociedade. Concepção esta que reforçar a dicotomia entre saber e poder.
Outra concepção é a estratégica que entende a realidade de maneira dinâmica, em permanente conflito ou disputa, onde não existe possibilidade dos oponentes conviverem no mesmo espaço, um terá que vencer eliminando o outro. Práticas iniciadas pelos militares no âmbito da guerra, depois incorporada no mundo empresarial a fim de garantir sucesso na disputa do mercado. Esta noção é hoje utilizada nas mais diversas situações que pressupõem embate entre adversários, sendo comum sua observação dentro do mundo esportivo a fim de garantir a vitória por meio da exploração das limitações e erros do oponente.
Uma outra concepção é a participativa que também analisa a realidade como dinâmica na sua globalidade, onde o todo se compõe na interação das partes. Esta compreensão tenta resgatar o sentido político da interação reforçando a soma de esforços na construção coletiva do conhecimento sobre um determinado contexto.
Na tentativa de fazer uma síntese das concepções anteriores a noção de planejamento estratégico situacional entende a realidade em permanente movimento, portanto, com conflitos e mudanças em um universo onde os diversos atores sociais com as mais diversas leituras e intenções de ação constroem seus planos coletivamente na diferença e co-responsabilidade nas decisões. Os métodos de planejamento orientados por esta concepção buscam rigorosamente estabelecer uma correta relação entre saber e poder, o individuo e o coletivo, o igual e o diferente.
Esta última concepção de planejamento foi desenvolvida pelo professor chileno Carlos Matus no final da década de 70, com o objetivo de superar a dicotomia entre os conhecimentos dos técnicos e as decisões dos dirigentes. Não se trata apenas de colocar em relação saber e poder, mas também de estabelecer a relação mais adequada entre saber, decisão e ação.
Este tipo de planejamento é o mais exigente exercício de democracia. A noção de ator reforça o aspecto coletivo (não existe um único indivíduo com a leitura correta), a participação na diferença (não há coletivo homogêneo) e igualdade de opinar e decidir. Isto significa que a democracia se faz na diferença e na disputa. Democracia nem sempre significa consenso.
Como vimos o planejamento tem tudo a ver com saber e poder e devem andar juntos. É um atributo eminentemente humano dotado de racionalidade, mas o suficientemente flexível para adequar a dinâmica da sociedade, que não se subordina à realidade planejada.

