Aécio, Serra, a oposição e os karmas. Por Charles Carmo
“Eu sou mestiço, como vou participar de uma chapa puro-sangue?”, disse Aécio Neves ontem em Belo Horizonte, inutilizando todo esforço a que se referiu o deputado ACM Neto.
Quando perguntado se seria responsabilizado por não aceitar ser vice de Serra, em uma chapa puramente tucana, o governador mineiro completou:
“Eu serei responsabilizado pelo governo que nós estamos fazendo em Minas e tomara que seja uma bela responsabilidade. Cada um de nós é responsável pelo que constrói, pelo que faz”.
Cada um é responsável pelo que constrói, pelo que faz, concordamos todos, exceto talvez aqueles que acreditam em Karmas e os espíritas de toda gama.
Mas sou sujeito desconfiado e vi, também ali, um recado para Serra.
Como ser responsabilizado se eu quis ser candidato e nem o direito às prévias me foi dado? A culpa por empurrar o PSDB para um beco sem saída é de Serra, que não deixa ninguém ser candidato, nem a si próprio… Eis, sinceramente, a leitura que fiz do que disse Aécio ao pretenso-quase-candidato José Serra.
Entretanto, além de não acreditar em Karmas, também não possuo dons paranormais, portanto, esta é somente uma interpretação pessoal.
Então voltarei aos fatos mundanos.
Não é segredo de ninguém que as relações entre José Serra e Aécio Neves são extritamente políticas, sem a menor margem para confiança ou qualquer grau de cumplicidade. Aécio não fará nenhum acordo com Serra que envolva promessas de poder a longo prazo.
José Serra amarrou o destino da oposição ao seu próprio destino.
Aécio, que deixou de ser candidato para “segurar as rédeas do seu próprio destino”, acabou por ser o homem a dar o nó que ligou a oposição ao seu desejo de ver Serra presidente. Aécio amarrou o Serra no pescoço da oposição, diria sabiamente o Paulo Henrique Amorim.
Aécio passou então, dialeticamente, a ser o senhor do destino de Serra. E senhor da oposição que não o aceitou como candidato, negando-lhe uma simples consulta às bases partidárias.
Ao negar-se a ser vice de Serra, Aécio joga toda a responsabilidade pelo fracasso ou sucesso da oposição para o dono da bola, o governador José Serra.
Se Serra não for candidato agora, perderá toda a liderança que construiu, ao longo de diversas inimizades, no PSDB.
Caso Serra ganhe sem Aécio, ficaria provado que o mineiro tinha razão em não ser vice. Serra poderia ganhar sem ele.
Caso Serra mantenha a candidatura e perca, a culpa será somente e de sua inacreditável capacidade de ignorar os conselhos e apelos de seus aliados.
Caso desista, Aécio poderá emergir como a salvação nacional dos tucanos e glorioso redentor das hostes democratas.
O caso agora é simples: ninguém cometerá haraquiri por conta da indecisão de Serra.
Ou Serra é candidato ou desocupa a moita.
Aécio pode não aceitar ser vice, mas recusaria ser presidente ou, na pior das hipóteses, a nova liderança nacional da oposição?
Como se vê, o que o governador José Serra está fazendo com a oposição não se explica na ciência política.
Há que se estudar os Karmas para compreender o drama que vive a oposição brasileira.
Por Charles Carmo


