Sinólogo: Brasil deve se estruturar com dinheiro da China
Por Eliano Jorge no Terra Magazine
A crise econômica mostrou quem são os parceiros com que se pode realmente contar. No caso do Brasil, o principal deles, com trocas comerciais de 36 bilhões de dólares por ano, permanece firme. “Os chineses estão com excesso de dinheiro, com 2,3 trilhões de dólares. Os americanos estão quebrados, os europeus também estão caindo pelas paredes”, avaliou para Terra Magazine o assessor de comércio exterior da Confederação Nacional do Comércio, Carlos Tavares de Oliveira, especialista em China.
Os últimos dois meses deixaram claro isso por aqui. A empresa estatal State Grid, uma gigante do setor elétrico, anunciou, neste domingo, 16, o maior investimento da China no Brasil, comprando sete concessionárias energéticas por R$ 3 bilhões. Derrubou, assim, o recorde estabelecido em março, quando a também pública ECE adquiriu a mineradora da Itaminas por 1,2 bilhão de dólares.
- Eu sempre aconselhei a China, sempre disse aos dirigentes e diplomatas chineses, que eles tinham que investir na infraestrutura, ajudar o Brasil. Não é só a exportação pra cá, mas também investir. Nas comunicações, nos portos, nas ferrovias, nas rodovias – afirmou o sinólogo Carlos Tavares.
Os próximos passos do Dragão Vermelho encaminham-se para o petróleo e o trem de alta velocidade entre Rio de Janeiro e São Paulo. “Eles já têm o gasoduto da Bahia para cá. Já compraram algumas minas de minérios. Estão comprando agora áreas de exploração do petróleo. Devem ganhar o trem-bala. Além de o know-how deles ser fantástico – têm a maior rede de trem-bala -, estão com dinheiro. Acho excelente para o Brasil”, opinou o também membro fundador do Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia Pacífico.
O mais extenso país do mundo, “maior potência de comércio internacional desde 2008″, agora torna-se um investidor crucial. “Eles tinham separado 200 bilhões (de dólares) para os países emergentes. O primeiro investimento no Brasil era de 5 bilhões, mas eles já puseram 10 bilhões na Petrobrás. Podem chegar a muito mais”, avaliou Tavares, autor de sete livros sobre a China.
Porém, o ritmo de investimentos não seguirá necessariamente como o das últimas semanas. “Os chineses não têm pressa pra nada”, avisou. “Perguntaram ao (ex-líder) Den Xiaoping qual era a influência da Revolução Francesa no progresso da Revolução Chinesa. Ele respondeu que era muito cedo para avaliar, são 200 anos”, ilustrou.
Portos
A América do Sul tem recebido atenção especial dos chineses. “Estão investindo nos portos do Peru, do Equador e do Chile, melhorando-os para o intercâmbio com a China. Deveriam fazer isso também no Brasil, se não vão acabar exportando por aqueles países, mandando (as cargas brasileiras) pelas estradas de rodagem. Nossos portos, então, serão prejudicados: Paranaguá, Rio Grande, Santos”, comentou Carlos Tavares, também estudioso de questões portuárias.
Os portos representam um setor estratégico para os outros investimentos chineses. “Ele estão com dificuldades no transporte, no Brasil. Estão tentando importar soja do Mato Grosso através de portos do Peru e do Equador porque é mais fácil do que vir para Paraná e São Paulo, é muito maior a distância. Mato Grosso do Sul já tem uma comunicação com Peru e Equador, através do Acre”, contou Tavares.
A solução, insiste o sinólogo, viria da mesmíssima China. “O Brasil precisa cuidar dos acessos rodoviários e ferroviários para seus portos, inclusive com próprio financiamento chinês. Porque são ruins, é um grave problema”. Espalhadas pelo litoral, há sobrecargas e falta de condições. “Apenas 3% da safra de algodão da Bahia sai por Salvador, por exemplo. Anda 1.700 quilômetros até Santos”, exemplificou.
Com 67 anos de experiência em comércio exterior, ele analisa o momento da potência global: “A China é o único país com dinheiro disponível para aplicar. O Brasil tem que aceitar isso, e não criar nenhum preconceito antidumping, de obstáculos contra produtos baratos. Produtos baratos acabam com a inflação. Como foi nos Estados Unidos”.
Apaixonado pela milenar cultura chinesa, Carlos Tavares adverte sobre temores em relação aos asiáticos. “Isso é disputa comercial. O que acontece é preconceito contra a China. Você vê esse camarada de São Paulo, Paulo Li, que fez contrabando, foi preso. Por causa de um, falam em máfia chinesa, como se houvesse uma organização, mas não falam em máfia italiana, máfia boliviana com o problema do tráfico”.

