terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A guerra de espadas em Cruz das Almas: quem tem medo de bicho papão?

Até as crianças perderam o medo: em Cruz das Almas é tabu.

Um clima tensão ronda o município de Cruz das Almas, no Recôncavo Baiano. Nas barbearias, na feira, nas esquinas e bares, um assunto polêmico, inevitavelmente aparecerá: a repressão ao armazenamento clandestino e queima das espadas, artefato pirotécnico feito com pólvora socada com barro, em pedaços de bambu, amarrados em barbante.

A guerra de espada é uma das mais antigas e sedimentadas tradições do São João em Cruz das Almas. Com preços que variam de 50 a 100 reais a dúzia, a fabricação de espadas passou a ser uma alternativa de renda para centenas de pessoas no município, e um problema a ser administrado pelo poder público.

O Ministério Público e a justiça resolveram intervir e a apreensão de espadas e repressão aos “espadeiros” (como são chamados os fabricantes de espadas) gerou uma série de confrontos entre a polícia e estes que são os mantenedores desta tradição secular.

Há poucos dias, um lamentável episódio de violência foi deflagrado na Praça Senador Temístocles, no centro da cidade, quando espadeiros atiraram espadas contra um efetivo da Polícia Militar. Os policiais reagiram e acabou sobrando pancadas até para quem não tinha nada a ver com o episódio, em um excesso de vigor por parte da Polícia Militar imperdoável em uma democracia. 

Se é verdade que a tradição da guerra de espadas é parte importante da cultura local e deve, por isso mesmo, ser preservada, é indiscutível que o Poder Público tenha a obrigação, e não somente a prerrogativa, de intervir e promover, sob pena de omissão, a regulamentação e o controle da fabricação, do armazenamento e da queima dos artefatos.

Guerra de espadas: um espetáculo belo e perigoso. Foto: Google

A ninguém é dado o direto de, sob o pretexto de manter a tradição, colocar a vida e a saúde de outras pessoas em risco. Esta é uma verdade que os espadeiros precisam assimilar para que este debate prospere. Ainda este ano, somente na guerra posterior ao “Casamento do CEAT”, em um prenúncio do que virá no São João, 46 pessoas ficaram feridas, entre elas uma senhora de 84 anos, que sofreu um corte profundo, quando andava perto de sua casa. Com a Copa do Mundo coincidindo com a festa de São João, o número é 50% maior que o registrado pela Santa Casa de Misericórdia no ano passado.

O Estado de Direito não pode tolerar que um indivíduo estoque duzentas espadas em sua casa e tenha como certo que o seu vizinho não tem nada ver com isso. O caso é que tem. E muito. Basta nos lembrarmos da tragédia que foi a explosão da fábrica de fogos de artifício, em Santo Antônio de Jesus. A gigantesca explosão gerou um espetáculo de horror e produziu imagens dantescas de sofrimento e morte.

O São João de Cruz das Almas, por conta de tradicional guerra de espadas, é destaque, ano após ano, nas manchetes do Jornal Nacional e em toda imprensa. O fato é que os números da Secretaria de Saúde comprovam que muitas mortes e queimaduras graves ocorrem para que estas imagens sejam produzidas e tragédias ainda maiores podem ocorrer. Este é o verdadeiro debate a ser feito.

Em Cruz das Almas, pequenas tragédias estão sendo estocadas, em diversos bairros, ano a ano. Tudo se passa de forma absolutamente descontrolada. Há medo, sobretudo na classe política, de enfrentar este debate. As espadas viraram o bicho papão da política local.

Queixam-se os espadeiros, que a apreensão das espadas, às vésperas do São João, é uma injustiça. Eles contam com o dinheiro da venda das espadas para reaver o investimento empreendido. Não posso deixar de acreditar que um amplo processo de debates, com ao menos um ano de antecedência, evitaria tal embate. Isso, se o debate produzisse a efetivação de alternativas viáveis ao problema.

A regulamentação da guerra de espadas, e de toda a cadeia produtiva, não é antagônica à preservação da tradição material e imaterial que esta manifestação cultural representa. Uma falsa premissa foi incutida na sociedade cruzalmense: isso sempre foi assim, portanto, não pode ser mudado. Ao contrário de representar respeito às tradições, esta premissa acaba por aviltar a inteligência do homem do Recôncavo.

Aonde há crise, há oportunidade. Se esta cadeia produtiva fosse regulamentada, capacitada e organizada, a renda obtida por cada fabricante poderia ser maior e mais empregos seriam gerados, com segurança e direitos trabalhistas assegurados. Noticiamos aqui, a implantação de cursos técnicos de Pirotecnia, uma das opções disponibilizadas no Centro Territorial de Educação Profissional do Recôncavo (Cetep), recentemente inaugurado em Santo Antônio de Jesus, cidade vizinha.

Arenas poderiam ser projetadas para abrigar os duelos. Equipes poderiam ser formadas, com os equipamentos de segurança necessários, para duelar. Prêmios poderiam ser distribuídos, incentivando a migração para os espaços adequados. Um memorial pode ser construído, para ensinar a história das espadas, mostrar como são feitas, vender lembranças e artesanato. Tudo isso é possível, mas preferimos chamar de sonho. Ou pior: de fato imutável.

Os espadeiros não podem ser demonizados neste processo. O caso é de organizar e regulamentar a atividade, para que estes artífices saiam da informalidade e sejam realmente valorizados, que apreendam sobre as origens históricas da tradição, se capacitem profissionalmente, transmitam às novas gerações este conhecimento e preserve a nossa cultua.

Entretanto, os espadeiros precisam lembrar que eles são uma minoria em relação à totalidade e não podem manter a maioria da população refém, trancada em sua casa, com medo das espadas.

O problema para ser solucionado, tem que ser admitido enquanto tal. Este é o primeiro passo. Com diálogo, em mesas de negociação, até as guerras verdadeiras acabam. É preciso quebrar este tabu. Espada é assunto da conta de todo mundo.

A guerra de espadas em Cruz das Almas é, antes de tudo, uma questão de cidadania. E da sociedade de Cruz das Almas ter ou não ter medo de bicho papão.

Por Charles Carmo