Covas, a Constituição e o discurso de Serra para os milicos: o PSDB acabou?
por Rodrigo Vianna no Escrevinhador

O DNA de Covas, que ajudou a escrever uma Constituição avançada, é o mesmo que agora bate à porta dos quartéis?
Como faz todas as manhãs, meu filho de quase 2 anos entrou no meu quarto, subiu na cama e tentou acender o frágil abajur que se equilibra na escrivaninha, bem ao lado da cabeceira. É o desafio de todos os dias. Hoje, antes de acender a luz, ele apontou para a escrivaninha e disse: “papai, gol!”.
Ainda sonolento, imaginei que ele tivesse visto uma bola em cima da escrivaninha. Sabe como é: casa com criança vira uma bagunça. Não! O que ele avistou foi a capa da Constituição de 88, que guardo por ali. É um velho exemplar, já meio amarrotado, com a dedicatória de meu pai e de Plinio de Arruda Sampaio. A capa tem a bandeira do Brasil, e meu filho associa a bandeira ao futebol, por causa da recente Copa do Mundo…
Francisco folheou a Constituição, mas não se interessou muito – o que me trouxe algum alívio, afastando desde já a hipótese de que se transforme num bacharel. Eu é que peguei a Constituição e passei a ler alguns trechos:
- artigo 220 – “Os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio”;
- artigo 5, XXIII – ” A propriedade atenderá a sua função social”.
São princípios apenas. Falta colocar em prática, eu sei. E a dificuldade para colocá-los em prática indica, claramente, como foi difícil inscrever esses princípios na Carta do país. Como se explica que o Brasil tenha conseguido aprovar uma Constituição tão avançada, num Congresso dominado por forças conservadoras (o PT, na época, tinha menos de 20 deputados)? O mérito deve-se, em boa parte, à turma que logo depois fundaria o PSDB.
Durante a Constituinte, eles se reuniam no chamado “PMDB progressista”. Sob comando de Covas, essa turma dominou a Comissão de Sistematização, escreveu um projeto avançado, e fez a maioria conservadora do “Centrão” engolir um texto muito melhor do que seria de se esperar, diante daquela “correlação de forças” (essa expressão era típica daquela época!).
Aliás, o PT cometeu um erro incrível, recusando-se a aprovar o texto final de 88. Os petistas consideravam que ficara muito aquém das necessidades do país. Decisão obtusa, porque o texto era avançadíssimo para a época, uma vitória tremenda conquistada apesar das trapalhadas da esquerda (outra trapalhada do PT fora recusar-se a votar em Tancredo no Colégio Eleitoral, em 85, para derrotar Maluf e encerrar a ditadura).
Vocês vejam que meu filho levou-me à Constituição, que me levou a Covas, que me fez lembrar da época em que PSDB/PMDB progressista faziam o país avançar em alguns temas. Aquilo tudo foi fundamental para o Brasil.
Penso nisso e lembro imediatamente do discurso lamentável de Serra no Clube da Aeronáutica, semana passada. Discurso quase golpista, conservador, a flertar com os fantasmas de 64.
Onde foi parar aquele PSDB democrático dos anos 80? Ok, os tucanos já haviam abandonado o programa social-democrata, já haviam feito as privatizações, já haviam se rendido à ideologia liberal durante o governo do FHC. Mas o PSDB – nisso eu ainda acreditava – seguia a ser um fiador dos avanços democráticos conquistados em 88. Ou não?
Lembro-me de José Gergori a comandar a pasta da Justiça no governo FHC – iniciando a discussão sobre o pagamento de indenizações para os perseguidos pela ditadura. Lembro, mais recentemente, de Aloysio Nunes Ferreira empenhando-se para imprimir o guia sobre Mortos e Desaparecidos durante a ditadura. Uma amiga que trabalha nesse tema contou-me que Aloysio, secretário de Serra no governo do Estado, empenhou-se pessoalmente nisso.
O que explica que essa turma, agora, aceite o papel triste de bater à porta dos quartéis e brincar com o fogo do autoritarismo?
O PT – ao abrir mão do programa socialista – transformou-se no grande partido social-democrata brasileiro. Uma máquina eleitoral, com fortes vínculos com sindicatos e movimentos sociais. Essa é a história da social-democracia na Europa. O PT, nessa trajetória, bloqueou o espaço dos tucanos no centro. Sobrou a avenida da direita.
Esse pessoal que vem do covismo tem vocação para fazer o papel de UDN? Estou certo que muitos deles não têm. Entre outras coisas, isso explica o fracasso de Serra na campanha: tenta ser o que não é.
Mas o que Serra e o PSDB são a essa altura? Não sei. Acho que nem os tucanos mais sabem. Sobrou apenas desespero e destempero.
Isso não é só triste. É perigoso para o Brasil!

