Serra Irrita: Cinismo Popularesco na Cultura Política Brasileira
Por Ubiracy de Souza Braga
“O único meio de controlar o modo como você é visto é sendo honesto o tempo todo”.
Tom Hanks
O Cinismo existe enquanto uma corrente filosófica fundada por um discípulo de Sócrates, chamado Antístenes, e cujo maior nome foi Diógenes de Sínope, por volta de 400 a.C., que pregava essencialmente o desapego aos bens materiais e externos. O termo passou à posteridade como caraterização pejorativa de pessoas sem pudor, indiferentes ao sofrimento alheio que em nada se assemelha a origem filosófica da palavra. A palavra deriva do grego kynismós, chegando até o presente pelo latim cynismu. A origem do termo, porém, é incerta. Alguns autores afirmam que o nome originou-se do local onde Antístenes teria fundado sua Escola, o Ginásio Cinosarge, ao passo que outros afirmam ser um termo derivado da palavra grega para cachorro: kŷőn, kynós, numa analogia com o fato de os cínicos pregarem uma vida como a dos cães, na ótica das pessoas contemporâneas na cultura política. O político José Serra consegue ser um parlapatão tanto quanto um cínico na política. O que foi noticiado pela imprensa em sua caminhada em campanha no Rio de Janeiro é irrefutável, senão vejamos.
O pré-candidato “tucano” à Presidência da República, José Serra, se irritou na sexta-feira próxima passada com um jornalista, durante entrevista coletiva na Associação do Comércio do Rio de Janeiro. O jornalista perguntou se o Banco do Brasil, a instituição financeira mais antiga do país, a Caixa Econômica Federal e a Petrobrás, a “menina dos olhos do governo Lula”, estariam livres de privatizações, em caso de uma eventual vitória tucana na corrida ao Planalto. Serra respondeu irritado. Ele perguntou onde o jornalista tinha ouvido falar sobre aquilo e disse que as instituições estavam, sim, livres de privatizações. Ainda irritado, José Serra perguntou a qual jornal o repórter pertencia. Ao ouvir a resposta de que o jornalista trabalhava na Radiobrás, atual Empresa Brasil de Comunicação, uma espécie de agência de notícias do governo federal, o tucano retrucou e disse que o jornalista levasse aos patrões dele a notícia de que não haveria privatizações no caso dos bancos e da Petrobras, em caso de vitória do PSDB na “corrida presidencial”.
Ele também ficou irritado ainda e discutiu com jornalistas durante a “13ª Marcha dos Municípios”. Um repórter da Rádio Nacional, emissora estatal, perguntou se o tucano acabaria com o programa Bolsa Família. Serra reagiu de forma ríspida: – “Por que a pergunta? Porque disseram para você que eu vou acabar? Então eu gostaria de saber a fonte. Isso é uma mentira total”, afirmou. No debate com os prefeitos, o tucano manteve o bom humor, mas mudou o tom na entrevista coletiva após o ato. Em outro momento de irritação, Serra não quis detalhar sua posição referente à divisão dos royalties do pré-sal. “Não vou ficar repetindo.” Assessores de Serra procuraram repórteres para pedir desculpas pelo tom do tucano, que chegou ao evento com 40 minutos de atraso. No último dia 10, Serra também discutiu com a jornalista Míriam Leitão, especialista em Economia, em entrevista à rádio CBN, depois de ser questionado sobre interferência no Banco Central. No início do ano, ele também se irritou com um jornalista da TV Brasil, outra estatal, ao falar sobre combate às enchentes em São Paulo. Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PV) mantiveram o bom humor nas entrevistas. A petista prometeu dançar o “Rebolation” se for eleita, ou seja, ele: “Rebolation é bom! Bom”!
Igualmente, do ponto de vista da política externa no continente latino-americano, sua declaração desastrosa de que “a Bolívia é cúmplice do tráfico de drogas no Brasil”, desconhecendo a própria questão indígena, estudada por José Carlos Mariátegui (1959), em que os índios mascam a coca devido à altitude da Cordilheira dos Andes etc. repercutiu negativamente na Bolívia. Segundo o que foi divulgado pelo jornal Folha de S. Paulo nestes dias, o ministro da Presidência de Evo Morales, mas curiosamente, psicanaliticamente ou do ângulo do método indiciário (cf. Ginzburg, 1979) de nome Oscar Coca, disse que “se ele (Serra) sabe algo, que diga o que sabe e siga os trâmites legais para fazer a denúncia. Se não fizer, [o fizer] ele que é o cúmplice”. Em entrevista à Rádio Globo, no Rio de Janeiro, o tucano disse que o governo da Bolívia é “cúmplice pelo narcotráfico no Brasil” (…) “Quando a gente vê que cerca de 80% a 90% da cocaína da Bolívia vem parar no Brasil, pode dizer que o governo boliviano fez, pelo menos, corpo mole”, criticou.
No Brasil, a declaração de Serra repercutiu no Twitter, que socialmente tem como representação “um serviço para amigos, familiares e colegas de trabalho comunicar-se e manterem contato através da troca de respostas rápidas para uma simples pergunta: O que você está fazendo?” Entre os usuários, o pré-candidato do PT ao governo do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, escreveu que “durante anos, o Departamento Antidrogas dos EUA atuou na Bolívia e teve resultados limitados. Parceria da nossa PF e do governo de Morales é mais eficiente”. Entre os “tweets” sobre o tema, havia quem concordasse com o tucano: “Serra se enganou. O governo da Bolívia não é cúmplice dos traficantes, é coautor. Aquilo ali é um absurdo”, disse um usuário da rede mundial de computadores – internet. O deputado federal Dr. Rosinha (PT-PR) também comentou, em seu Twitter: “Alguém que há tempos quer ser presidente precisaria, no mínimo, aprender a respeitar governos e povos dos demais países. Serra ainda não aprendeu”.
Além disso, o candidato teve um final agitado na jornada de campanha em Araraquara, na região de Ribeirão Preto (SP). Fez uma carreata de 15 minutos e um minicomício para militantes na região central da cidade, isso tudo já com um ferimento no topo da cabeça, provocado por batida no suporte do vídeo da van que o transportou de São Carlos ao município. Para encerrar, participou rapidamente da celebração de uma missa, na Igreja Nossa Senhora de Aparecida, na Vila Xavier, onde vários católicos não gostaram da mistura de religião & política. Ali, recebeu a bênção do padre e retornou para São Paulo.
Sobre as críticas de alguns católicos, que manifestaram indignação pelo ato do padre com os políticos, além de outros que esboçaram uma vaia, o candidato tucano procurou se esquivar. “Não sei quem criticou, fui convidado e vim”, limitou-se a responder o candidato na saída. A igreja estava aparentemente lotada (pelo menos 1 mil pessoas estavam no local). Alckmin não viu problema. “Vou à missa todo domingo, em dia santo, pra mim é normal”, disse o candidato ao governo paulista. O convite para a ida à missa foi do deputado federal do partido popular socialista (PPS) araraquarense Dimas Ramalho: – “Viemos para ver a missa, não para ver político”, disse Maria Fernandes, chateada. “A casa de Deus é aberta para todos”, retrucou a amiga Maria Luísa Villa Leal. “Onde se viu o padre falar que estava diante do presidente do Brasil e do governador de São Paulo, é uma falta de respeito”, disse o representante Paulo Sérgio Neves, proferindo alguns palavrões ao lado da sacristia. “É ridículo misturar política com religião”, comentou Luciana, que preferiu só citar o prenome. O marido dela, Marcos, também não gostou. Outros devotos saíram rapidamente da igreja quando os políticos subiram ao altar para receber a bênção do padre. “Isso é uma palhaçada”, vociferou um dos que abandonaram a paróquia.
O candidato a presidente da República pelo PSDB, teve um final agitado na jornada de campanha, em Araraquara, na região de Ribeirão Preto. Fez uma carreata de 15 minutos e um minicomício para militantes na região central da cidade, isso tudo já com um ferimento no topo da cabeça, provocado por batida no suporte do vídeo da van que o transportou de São Carlos ao município. Para encerrar, participou rapidamente da celebração de uma missa, na Igreja Nossa Senhora de Aparecida, na Vila Xavier, onde vários católicos não gostaram da mistura de religião com política. Ali, recebeu a bênção do padre e retornou para São Paulo. Sobre as críticas de alguns católicos, que manifestaram indignação pelo ato do padre com os políticos, Geraldo Alckmin, candidato tucano ao governo de São Paulo também estava presente, além de outros que esboçaram uma vaia, Serra procurou se esquivar. “Não sei quem criticou, fui convidado e vim”, limitou-se a responder o candidato tucano, na saída.
A igreja estava lotada, pois se admitiu que pelo menos 1 mil pessoas estivesse no local. Alckmin não viu problema. “Vou à missa todo domingo, em dia santo, pra mim é normal”, disse o candidato ao governo paulista. O convite para a ida à missa foi do deputado federal araraquarense Dimas Ramalho (PPS): – “Viemos para ver a missa, não para ver político”, disse Maria Fernandes, chateada. “A casa de Deus é aberta para todos”, retrucou a amiga Maria Luísa Villa Leal. “Onde se viu o padre falar que estava diante do presidente do Brasil e do governador de São Paulo, é uma falta de respeito”, disse o representante Paulo Sérgio Neves, proferindo alguns palavrões ao lado da sacristia. “É ridículo misturar política com religião”, comentou Luciana, que preferiu só citar o prenome. O marido dela, Marcos, também não gostou. Outros devotos saíram rapidamente da igreja quando os políticos subiram ao altar para receber a bênção do padre. “Isso é uma palhaçada”, vociferou um dos que abandonaram a paróquia.
Desnecessário dizer que a recorrência histórica do ponto de vista teórico, prático e afetivo da política como “self service normativo” (Cerqueira Filho, 2002) data do protecionismo alfandegário (1844/46) quando a linguagem de condescendência passara a figurar mais especificamente nos programas de governo. Seria definido assim por seu ministro dos Estrangeiros: ‘A nossa política é a política da conciliação, a qual nunca rejeitamos; pelo contrário, fomos nós os primeiros que a iniciamos por fatos e não por palavras; é a política da conciliação, mas não dessa conciliação dos princípios, da conciliação que se firma por atos legislativos e administrativos ‘(Apud Mercadante,1965:138).
Historicamente falando no plano político, caberia a Justiniano José da Rocha a elaboração de uma teoria do movimento batizado por conciliação. A apologética da época e de sua política fundava-se no princípio que o ideólogo tornava axiomático e que dizia inspirar-se no estudo da História. Na luta da autoridade com a liberdade, sucediam-se, segundo ele, períodos de ação, de reação e, por fim, de transação. Neste último, o progresso do espírito humano realiza-se, e se firma a conquista da civilização. O justo equilíbrio seria a conciliação dos contrários, do radicalismo, atuante e dinâmico, com a reação que procurava deter-lhe a marcha, firmando o princípio da autoridade. A fase da transação era a que exigia mais prudência, “mais tino, mais devoção nos estadistas a quem é confiada a força governamental e a alta direção dos negócios públicos; pois se a não sabem ou não querem reconhecer, se não querem ou não sabem facilitar, se ainda mais a contrariam, provocam calamidade a que depois não há sabedoria que possa acudir’” (Mercadante,1965:145).
Vejamos alguns exemplos que compreendem o mandato de FHC durante as negociações para o Congresso aprovar a Emenda Constitucional que garantiu a possibilidade de reeleição para presidente, governadores e prefeitos. Uma gravação “clandestina” provocou uma crise no governo revelando que o então deputado Ronivon Santiago (PFL-AC) sugeria ter recebido R$ 200 mil do ministro das Comunicações, Sérgio Motta (falecido em abril de 1998) para aprovar a emenda. As negociações para a aprovação da privatização do Sistema Telebrás, em julho de 1998, teriam propiciado também práticas fisiológicas entre governo e aliados que se dirigiam até a famosa Academia de Tênis, em Brasília, e lá acertavam com figuras influentes do Planalto valores em troca do apoio.
Para aumentar o valor do salário mínimo em 2000, o governo também teria privilegiado deputados com a liberação de recursos das emendas apresentadas por eles ao Orçamento da União. O governo mais uma vez saiu vitorioso. O artigo “Em Fortaleza, brinca-se de 2002 com verba do FGTS” (cf. Folha de S. Paulo, 3.09.2000) esclarece mais uma transação envolvendo vultosa quantia de dinheiro do FGTS via CEF, com destino ao BNDES, graças a autorização de FHC. Ao permitir que seu governo estendesse a mão a Juracy Magalhães, FHC conseguiu estreitar as relações de inimizade que o separavam de Ciro Gomes e de Tasso Jereissati. É que, elegendo-se Tasso Jereissati em 1986 pelo PMDB, nas eleições de 1990, 1994 e 1998 (já no PSDB), firmou-se de forma incontrastável o domínio político do seu grupo. Mas, entre as últimas eleições e a quadra atual, a ocorrência de alguns fatos dá um novo tom à política cearense. Antes, porém, a tarefa de FHC e seus aliados significaria uma “operação de guerra” envolvendo liberação de dinheiro, o bastante para demover alguns deputados da ideia de assinar o pedido da CPI de corrupção em seu governo. Fato que o levou a ter chamado os defensores da CPI da corrupção de “irresponsáveis”. Assim, se sociologicamente entendemos que o conservadorismo é primordialmente o tradicionalismo tornado consciente, podemos dizer que no Brasil, o autoritarismo é primordialmente o conservadorismo tornado consciente (cf. Braga, 2002)..
José Serra, do PSDB, caldeou a imagem de “bom administrador” quando no Ministério da Saúde. Sofre resistências regionais. No Rio de Janeiro, com a opção pela vice, uma mulher, dizem: “Serra (i) Rita”. Talvez o trocadilho tenha funcionado pela dificuldade de desvincular seu nome com o de FHC. Além disso, ele chegou a afirmar como um político preconceituoso “que o Nordeste coronelista só gastava dinheiro”, quando a região tem aproximadamente 27% dos votos do país. No próprio PSDB não se configura como uma liderança, o que levou à frase de FHC (para tentar empurrar a campanha): “se Serra não for para o segundo turno, voto no Lula”!
Finalmente, o governo federal nestas eleições tem-se utilizado do que em sociologia se entende como a dimensão política do discurso econômico, ou, “a reprodução econômica ideológica”, de acordo com Albuquerque (1980). Este aspecto político do discurso econômico tem aparecido nas tecnocracias do Ministério da Fazenda, em sua progênie com o prócer Pedro Malan (ou malânico, como o chama Frei Betto) e no Banco Central, com Armino Fraga (quando assumiu o cargo no governo comentavam: “deram a chave do galinheiro para a raposa”). Com a proximidade das eleições eles têm aparecido sobejamente nas emissoras de TV, seja para dar “esclarecimentos” a população, seja para “participar” de debates públicos. Queremos dizer com isso, que não estamos apenas diante do “efeito de mercado” que contamina os mais distintos campos de produção cultural, porque devem provar-se sedutores e “vendáveis” como produto. Intelectuais, analistas, artistas, economistas e especialistas dos mais diversos campos de conhecimentos não raro, para serem aceitos pela mídia, utilizam um discurso mais adequado às expectativas do mercado eleitoral, mas, sobretudo com uma dimensão política do discurso econômico.
Guardadas as proporções, lembramos que o receio de uma vitória da oposição em 1978 levou a ditadura militar a fechar o Congresso Nacional, modificar a legislação eleitoral e introduzir a estapafúrdia figura do senador “biônico”, eleito pela Assembleia Legislativa. E ainda, como na ditadura político-militar com o Decreto-lei, a Medida Provisória- MP ocupou um lugar cativo no cenário político brasileiro pós-ditadura. A MP foi utilizada no governo Sarney, e incorporada à Constituinte de 1988. O Plano Real, por exemplo, nasceu de uma MP. Outra medida permitiu que o Plano prosseguisse até os dias de hoje. FHC como político projetou-se dessa forma pelos braços de Itamar Franco. E agora ele, o Ministro da Economia e o presidente do Banco Central pretendem manter a dimensão política do discurso econômico para o próximo governo enquanto um ato de obediência a ingerência externa do FMI. Isto é grave porque o discurso midiático empurra nesta direção.
Finalmente, uma mulher primus inter pares que pretende afirmar ter o direito de colocar “a mão no leme da história” nas eleições políticas para a presidência do Brasil, precisa ter três qualidades destacadas, além de um “senso de poder”: paixão, senso de responsabilidade e senso de proporções. A paixão significa a dedicação apaixonada a uma causa, senso de responsabilidade significa perseguir essa causa de forma sensata, e senso de proporções significa ter a capacidade de enfrentar as realidades com concentração e calma e, assim, manter distância em relação às questões e aos homens. O senso de proporções é uma qualidade que, eminentemente, caracteriza apenas aquele (a) que acredita em uma ética de responsabilidade. Veillons.
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