CARNAVAL, CARNAVAIS, E AINDA EXISTE VIDA. Por Sérgio Guerra
Nesta época do ano não se pode deixar de falar no carnaval, independentemente do gosto ou das preferências pessoais. Entretanto para nós, os super-sex (sexagenários, bem entendidos, como bem já disse Carlinhos Brown) existe uma grande tendência ao saudosismo, nos levando a ver tudo como uma mesmice, pornográfica e mercantilista. Não pretendo entrar nesta, pois após levar 50 anos cantando “Aláh! Lá. Ô! Ô!Ô!Ô!” ou mesmo “Ô jardineira por que estás tão triste? ”, não me sinto muito autorizado em falar de mesmice. Nem muito menos de criticar a juventude de imoral, erotizada, nem pornográfica, pois me lembro muito bem do velho Seu Ramos, pontificando, para o neto Quarentinha, meu parceiro e irmão: “Vocês estão confundindo liberdade com libertinagem!”.
O fato é que, à primeira vista, o carnaval de Salvador parece condenado a viver cada vez mais entre apertos, cordas e camarotes, sendo dividido claramente em ricos e pobres, formando verdadeiros guetos, separando brancos de negros, por seguranças, à vezes, quase sempre também negros, como bem descreveu Caetano, no seu Haiti, cada vez mais aqui. Destarte, acima de tudo, também existem parafernálias tri-elétrico-eletrônicas sufocando a música popular e explodindo em novos pobres ouvidos, em volumes estratosféricos e decibéis infernais, inviabilizando qualquer convivência social ou possibilidade criativa dos pequenos grupos.
Complementando, os abadás padronizados, diariamente para assegurar o faturamento das empresas do entretenimento, as mega-estruturas montadas para atender a clientela, o mundo dos “apoios”, “cordeiros” e “seguranças”, sem nem sequer correr o cisco de ter um pequeno contato com a população e a cultura baiana, viabilizam que dos vôos charters se embarquem, em carros próprios, para os hotéis, dos hotéis para os blocos e dos blocos para os hotéis e aviões.
Mas nem tudo está perdido, para quem busca ver o movimento do se recriar e do eterno renascer da cultura popular. Assim, o “Pipoca” ganha espaços e “trios independentes”, patrocinados pelo poder público e até pela iniciativa privada. Vi com imensa alegria, a comunidade e os moradores de Itapuã bancarem a sua “lavagem” sem o apoio do poder público. Vivi a festa dos 71 anos do “Bando do Lero-Lero”, e desfilei junto com seu imortal fundador Cacau, pelas ruas do Rio Vermelho, anunciando um carnaval que está pronto para acontecer com a vontade manifesta do “Para ano sai melhor”, “O povo pediu” e o “Chegando bonito”, do poeta e realizador Valtinho Queiroz, sonhando com o imortal Jacu voltando às ruas.
Por outro lado, observo, com imensa felicidade, a intensa força da ”Mudança do Garcia”, superando a burrice e a “jeguice” das autoridades. Este ano ainda com o “Aconchego”, mas sem a dona Zuzú, que estará nos observando, dançando e abençoando de outro lugar,. E por fim, vejo e bebo com as inúmeras bandinhas, blocos de amigos e moradores, que, a semelhança do Rio de Janeiro, fazem cada vez mais e melhor um carnaval, de bairro, alternativo, mais livre e “sem por cordas no meu bloco”, abandonando a ignorância paquidérmica dos trios, e sem som mecânico ensurdecedor, Observe, só nesta quarta-feira que antecede (?) o carnaval, são já 12 comprometidas com um desfile no bairro da Barra. Além de Moraes Moreira batalhando em busca do quase finado “Encontro de Trios” da praça Castro Alves. Enfim me parece que é um carnaval que se renova, remoça, recomeça e eterniza.
Obs: Para quem fala em “mesmice” do atual carnaval de Salvador, reparem que temos desde o palco do rock ao “carná-forró”. Dos DJs internacionais aos blocos afros. De abadás a “Mascarados”. E no mais vamos brincar na rua “e manda esta gente sem graça pro salão…”, apoio ou camarote!


