Franz Kafka e a figura paterna em Praga
František Kafka ou Franz Kafka nasceu em Praga, 1883 e faleceu em Klosterneuburg em 1924. Klosterneuburg é um município da Áustria localizado no distrito de Wien-Umgebung, no estado de Baixa Áustria. A cidade possui uma população de 24 442 habitantes. Está localizada às margens do Danúbio, imediatamente ao norte de Viena. Caso típico europeu a cidade desenvolveu-se com seu monastério. Ela foi fundada por Carlos Magno. O Monastério de Klosterneuburg foi fundado em 1114 por Leopoldo III e sua esposa, Agnes. Desde 1113, é a sede da Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho. O extraordinário monastério está localizado em uma colina acima das margens do Danúbio. Dentro do complexo, encontra-se o famoso Altar de Klosterneuburg, ou “Altar de Verdun”, construído por Nicolas de Verdun, e uma biblioteca com mais de 30 000 volumes e inúmeros manuscritos.
Kafka foi um dos maiores escritores de ficção da língua alemã do século XX. Nasceu numa família de classe média judia em Praga, Áustria-Hungria, atual República Tcheca e cresceu sob as influências pari passu de três culturas: a judaica, a tcheca e a alemã. O corpo de obras suas escritas – a maioria incompleta e publicadas postumamente – destaca-se entre as mais influentes da literatura ocidental. Seu estilo literário presente em obras como a novela A Metamorfose (1915) e romances, incluindo O Processo (1925) e O Castelo (1926), retrata indivíduos preocupados em um “pesadelo de um mundo impessoal e burocrático”. No romance O Processo, Kafka é tão preciso quanto o fora o sociólogo Max Weber em seus “tipos [ideais] de dominação legítima”, onde o real é irracional enquanto racionalidade do real como forma de dominação legítima.
Entrementes, Kafka solicitara em junho de 1908, e conseguira, ser admitido como auxiliar na companhia de seguros. Conflitos íntimos acompanharam sua entrada na triste esfera da administração: essa ligação epistolar fracassada, uma última mudança e um grande número de hesitações quanto a tudo o que ele poderia esperar de si mesmo nesse futuro já obscurecido a seus olhos. Assim, trabalho o absorve quando começa, a redação de uma “obra” de um gênero completamente diferente, pois seus textos são de reflexão jurídica, sendo o primeiro redigido durante o outono de 1908. Trata-se de um copioso relatório intitulado: “Extensão da obrigação do seguro nas profissões de construção e profissões anexas”. Ele demonstra um raro talento nesse gênero literário, como pode ser visto em O Processo, ao expor considerações sobre um assunto tão ingrato: a clareza da redação e a limpidez de seu etilo o fazem ser muito estimado por seus colegas. De certa forma a armadilha já se fechou à sua volta, pois ele demonstra qualidades raras nessa literatura técnica. E uma longa carta endereçada a Felice Bauer no final de 1912, ele não consegue fazer mais do que se lamentar por levar uma vida dividida entre seu trabalho de escritório e o tempo que se dedica à escrita, com uma ironia mordaz que volta contra si mesmo e que torna as coisas ainda mais amargas.
Praga, em Tcheco: Praha é a capital e a maior cidade da República Tcheca, situada na margem do rio Vltava. Conhecida como “cidade das cem cúpulas”, Praga é um dos mais belos e antigos centros urbanos da Europa, famosa pelo extenso patrimônio arquitetônico e rica vida cultural, como é bem retratado por Milan Kundera no best seller Nesnesitelná lehkost bytí, ou, A Insustentável Leveza do Ser, título em português, é um livro publicado em 1984 por Milan Kundera. O romance se passa na cidade de Praga em 1968. Foi adaptado para o cinema pelo diretor Philip Kaufman sob o nome de The Unbearable Lightness of Being. Praga é importante também como núcleo de transportes e comunicações, é o principal centro econômico e industrial da República Tcheca. Situada na Boêmia central, a cidade de Praga localiza-se sobre colinas, em ambas as margens do rio Vltava, pouco antes de sua confluência com o rio Elba. O curso sinuoso do rio através da cidade, cheia de belas e antigas pontes, contrasta com a presença imponente do grande Castelo de Praga em Hradcany, que domina a capital na margem esquerda (oriental) do Vltava.
Seu pai, Hermann Kafka (1852-1931), foi descrito como um “enorme empresário egoísta e arrogante” e por Kafka se considerava um “verdadeiro Kafka em força, saúde, apetite, a sonoridade da voz, eloquência, a autossatisfação, presença de espírito e o conhecimento da natureza humana”. Hermann era o quarto filho de Jacob Kafka, um abatedor kosher e veio a Praga a partir de Osek, um judeu de língua Tcheca, perto da aldeia Písek no sul da Boêmia. Depois de trabalhar como representante de vendas da viagem, ele se estabeleceu como um varejista independente de homens e mulheres de bens de fantasia e acessórios, que empregam até 15 pessoas e usando uma gralha (Kavka em Tcheco) como seu logotipo nos negócios. A mãe de Kafka, Julie (1856-1934), era filha de Jakob Löwy, um cervejeiro próspero em Poděbrady e foi a mais bem educada.
Franz Kafka nasceu em uma rua onde havia, quando de seu nascimento, vários prostíbulos. E, somente no velho gueto, nada menos que 35 estabelecimentos cairiam sob as enxadas dos demolidores por volta de 1905. Do início do século XX até 1920, data dos fechamentos pelo governo, Praga tinha prostíbulos que gozavam de grande reputação. Leopold B. Kreitner, que conheceu em 1902, fala dos encontros dos jovens intelectuais praguenses no Café Français, no café Louvre, no café Continental e principalmente no café Arco, a que compareciam Bergman, Weltsch, Oskar Pollak e, é claro, Kafka. Ele relembra bem essas reuniões:
“Quando desses encontros diários ou para ser mais preciso, noturnos, os assuntos de conversação nem sempre eram espirituais e intelectuais. Depois de aproveitar o espetáculo da coleção bastante exaustiva dos livros pornográficos do dono, esses amigos, na época ainda celibatários, dirigiam-se seguidamente ao estabelecimento da sra. Goldschmidt na Gemsengasse, onde antes da Primeira Guerra Mundial, podia-se dançar, beber o melhor café da cidade e escolher entre um leque de ´damas` ligeiramente vestidas, que, por um preço fixo de dez coroas austro-húngaras, prestavam alguns serviços profissionais” (apud Lemaire, 2006: 90-91).
Todos os clientes chamavam o local de Gogo: é o mais concorrido da cidade, tendo sido adotado pelos artistas, jornalistas, poetas, e também pelos desocupados que lá vão conversar e jogar. Egon Erwin Kisch, que não tardará em ser um autor famoso, explica os rituais que ali ocorrem:
“A boemia se reunia aqui à noite, depois do fechamento dos cafés. Nem todos tinham o dinheiro necessário para a consumação. O café era servido sobre uma pequena bandeja, com uma bonita cafeteira de prata e uma taça de porcelana, pois não se servia uma taça de café, e sim uma ´porção` (se fosse um grupo de cinco pessoas ou uma só, não fazia diferença, pedia-se uma ´porção` de café, que custava quatro coroas. É por isso que sempre tentávamos encontrar quatro companheiros, esperando na esquina da Eisengasse [Zeletná] ou da Gemsengässchen conhecidos ou passantes desconhecidos com que fazíamos uma associação de interesse comum)”.
Kafka tinha dois irmãos mais novos, Georg e Heinrich, que morreram com a idade de quinze meses e seis meses, respectivamente, antes de Franz completar 7 anos, e três irmãs mais novas: Gabriele (“Elli”) (1889-1944), Valerie (“Valli”) (1890-1944) e Ottilie (“Ottla”) (1892-1943). Em dias úteis, seus pais se encontravam ausentes em casa. A mãe de Franz ajudou a administrar os negócios do marido e trabalhava neles até 12 horas por dia. Durante a Segunda Guerra Mundial (1940-45), as irmãs de Kafka foram enviadas com suas famílias para o Gueto de Lodz e morreram ali em campos de extermínio. Ottla foi enviada para o campo de concentração de Theresienstadt e, em seguida, em 7 de outubro de 1943, para o campo de extermínio de Auschwitz, onde 1.267 crianças e 51 encarregados de educação, incluindo Ottla, “foram asfixiados com gás até a morte” (cf. Arendt, 1989; 1992; 1999).
Contudo, “as crianças foram criadas em grande parte de sua vida por uma série de governantas e funcionários”. A relação de Kafka com seu pai foi gravemente perturbada, conforme explicado em “Carta a meu pai”, em que ele se queixou de ser profundamente afetado pelo exigente caráter autoritário deste. Escrito justamente em formato de carta – mas que nunca chegou a ser entregue ao pai, já que o autor, com o passar dos anos, reviu o valor estético e literário intrínseco de tal empresa -, a obra “é o esparramar-se do coração destruído do filho Kafka”. A Carta ao pai é uma peça fascinante da obra de Franz Kafka. Dificilmente algum filho pôde escrever ao pai carta mais pungente do que esta. Nela o grande escritor realiza um ajuste de contas memorável com o “tirano familiar” Hermann Kafka. O móvel do confronto é uma tentativa de casamento do filho que o pai desaprova, mas o texto abrange toda a relação entre ambos, num ritmo dolorosamente ágil. Como sempre, a capacidade de análise e argumentação do escritor surpreende. Aqui ela transforma uma carta em documento perene da literatura universal.
No fundo, além de pena, no sentido religioso (cf. Kierkegaard), dá certa raiva da imobilidade (cf. Marx) do marasmo e da crítica e resignação (cf. Weber), psicológica (cf. Freud) – quase inumana – de Gregor Samsa, digo, Franz Kafka. Em “A Metamorfose”, numa bela manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa em sua “descritibilidade” poética afirma:
“deu por si na cama transformado num gigantesco inseto. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça, divisou o arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos arqueados, sobre o qual a colcha dificilmente mantinha a posição e estava a ponto de escorregar. Comparadas com o resto do corpo, as inúmeras pernas, que eram miseravelmente finas, agitavam-se desesperadamente diante de seus olhos”.
Dois sentimentos básicos apresentados por Kafka são o medo e culpa no sentido hobbesiano do termo (cf. Hobbes, 1979; Ribeiro, 2003). Medo do pai, da sua persona, da sua presença, da sua figura, dele como um todo. Culpa por não responder às expectativas do pai e por não fazer nada para mudar isso, por se sentir rejeitado e não saber como vencer essa rejeição e, mais ainda, não sentir a menor vontade em fazê-lo. Tratavam-se por inimigos. Senão vejamos:
“Querido pai: perguntaste-me certa vez por que motivo eu afirmava que te temia. Como de hábito, não soube a que te responder, em parte exatamente pelo temor que me infundes […]. E mesmo esta tentativa de responder-te por escrito ficará inconclusa, porque, também ao escrever, o temor e os seus efeitos inibem-me diante de ti”.
Em toda a obra é impressionante a “baixíssima autoestima”, para usarmos expressão em voga, de Kafka diante do pai.
“Éramos tão diferentes, e nesta diferença tão perigosos reciprocamente, que, se se tivesse calculado de antemão a relação que surgiria entre mim, o menino que se desenvolve pouco a pouco, e tu, o homem feito, fora possível admitir que praticamente me destruirias pisoteando-me, que nada restaria de mim. Isto não aconteceu, o que vive não pode ajuizar de si, mas talvez sobreveio algo pior ainda”.
Afirmava ele ainda, “eu dividia o mundo em três partes”: uma, onde eu vivia, o escravo, regido por leis inventadas exclusivamente para mim, às quais, além do mais, e não sei porque não podia adaptar-me completamente; depois, um segundo mundo, infinitamente afastado do meu, no qual vivias tu, ocupado em governar, distribuir ordens e aborrecer-se porque não eram cumpridas; e, por fim, um terceiro mundo, onde vivia o povo livre e alegremente, sem ordens nem obediência. Não é normal que um filho sinta seu pai como um monstro que poderia pisotear e não deixar restar nada do próprio filho. Não é normal um filho pensar que seu pai é um governante feroz e maldoso, que manda e desmanda em seu filho-escravo. Contudo, essa sensação de baixeza diante do pai, de inalcançável amor paterno, pode ter algumas razões: “exatamente como pai era muito forte para mim, sobretudo porque meus irmãos morreram ainda na infância, as irmãs vieram somente muito depois, pelo que eu tive que resistir completamente só o primeiro choque; para isso eu era extremamente fraco”.
Psicologicamente falando (cf. Rappaport, 1984) não deve ser fácil ser o único sobrevivente entre irmãos falecidos ainda na infância. E muito menos ser o único sobrevivente durante anos, até que novas irmãs nasçam e causem uma revolução reicheana estrutural na família. Wilhelm Reich foi um discípulo dissidente de Sigmund Freud, propôs a gênese da neurose como consequência dos conflitos de poder que se estabelecem nas relações sociais e suas implicações emocionais e psicológicas. Para o leitor, no entanto, é terrivelmente profundo acompanhar a confissão de Kafka. Como uma navalha que vai cortando aos poucos toda a pele do corpo, cada frase do autor é uma manifestação da gravidade que as relações familiares podem alcançar. Compreendemos tudo isso, mas não nos parece também normal que Kafka simplesmente assuma toda essa realidade com tal conformidade, como se não houvesse a mínima chance de escapar, como o inseto em que Gregor Samsa se transforma, como o processo do qual K. não consegue encontrar escapatória.
Afirma Kafka ainda: “meus escritos tratavam de ti; neles, lamentava o que não podia lamentar sobre o teu peito. Era uma despedida de ti, voluntariamente dilatada que, embora tu forçasses, ia pelo rumo que eu lhe determinara”. E Kafka assume sua passividade: “tal como sou, represento (excluindo naturalmente os fundamentos e a influência da vida) a consequência da tua educação e da minha obediência”. Justamente é nessa relação entre a educação paterna e a obediência kafkiana que alguma coisa falha. E falha de ambos os lados, mas especialmente na obediência kafkiana: “forças negativas, que descrevi como parte da tua educação, quer dizer, debilidade, falta de confiança em mim mesmo, sentimento de culpabilidade”.
Para ele, a saída ou a chamada “válvula de escape” estava no ato de escrever. Meus escritos, afirma Kafka, tratavam de ti; neles, lamentava o que não podia lamentar sobre o teu peito. Era uma despedida de ti, voluntariamente dilatada que, embora tu forçasses, ia pelo rumo que eu lhe determinara. […] Contudo, devo reconhecer que um filho tão taciturno, insensível, seco e abandonado me seria intolerável; se não tivesse outra alternativa, fugiria dele, emigraria, como tu queria fazer. Emigrar e fugir pelo ato de escrever. Foi essa a atitude – nada corajosa – de Kafka. No fim das contas, é um texto magnífico, de uma profundidade e uma sinceridade que embasbacam. E também de um amor – não existe outra explicação – que inveja. Mas fica aquele sentimento: por que foi tão difícil concretizar esse amor num abraço terno no peito do pai? Era o que Kafka, sem dúvida, mais queria com a “Carta…”: “Tranquilizar-nos um pouco a ambos e fazer-nos mais fáceis o viver e o morrer”. Não chegou a ser um abraço sincero entre pai e filho, mas foi uma libertação catártico-literária do coração kafkiano e uma fresta na represa de sentimentos contidos nas vidas de toda uma legião de leitores que Kafka ajudou a confrontar-se com o seu próprio absurdo humano, familiar e social.
Bibliografia geral consultada
BRAGA, Ubiracy de Souza, “A Ideologia Fascista”. In: Jornal O Povo. Fortaleza, 4 de dezembro de 2004; KAFKA, Franz, Carta ao Pai. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 1997; Idem, O processo. São Paulo: Editora 34, 2002; LEMAIRE, Gérard-Georges, “Iniciação à dor do amor”. In: Kafka. Porto Alegre: L & PM, 2006, pp. 88 e ss; LAPLANCHE, J. & PONTALIS, J. B., Vocabulário da Psicanálise. Lisboa: Martins Fontes, 1970; RAPPAPORT, Regina Clara, Temas Básicos de Psicologia, São Paulo: Ed. E.P.U. Volume VII, 1984; DERRIDA, Jacques. A escritura e a diferença. São Paulo: Perspectiva, 1971; Idem, Positions. Paris: Editións de Minuit, 1972a; Idem, Dissémination. Paris: Éditions du Seuil, 1972b; Idem, Gramatologia. São Paulo: Perspectiva, 1973; Idem, L’Ecriture et la différence. Paris: Éditions du Seuil, 1979; Idem, Acts of literature (ed. Derek Attridge). New York: Routledge, 1992; HOBBES, Thomas, Leviatã ou Matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil. 2ª edição. São Paulo: Abril Cultural, 1979 (coleção Os pensadores); RIBEIRO, Renato Janine, A Marca do Leviatã. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003; FREUD, Sigmund, Obras Completas. Madrid: Editorial Biblioteca Neuva, 1972, 3 Volumes; FOUCAULT, Michel, Arqueologia do Saber. Petrópolis (RJ): Vozes, 1971; Idem, “Genealogia e Poder”. In: Microfísica do Poder. 4ª edição. Rio de Janeiro: Graal, 1984; ARENDT, Hannah, Origens do Totalitarismo. Anti-semitismo, imperialismo, totalitarismo. São Paulo: Cia das Letras, 1989; Idem, Eichmann em Jerusalém. São Paulo: Cia das Letras, 1999; Idem, A Condição Humana. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 2001, entre outros.


