sexta-feira, 18 de maio de 2012

O projeto de Luiza Maia e o ministério do “Vai dar Merda”

 

Este homem deprecia as mulheres?

“Fecha essa matraca que isso não nos convém
Vamos acabar com o zumzumzum
Teu falso desdém engana mais a ninguém
És qual um vintém, não tem valor algum
Baixa esse despacho e quebra o teu alguidar
Que o padre cansou de em vão te exorcizar
Te enxágua com sal grosso mal não fez nunca a ninguém
E a ti é que não vai fazer também
Antes que eu te dê com um pé na bunda
Bruaca, chifruda
Nem vem aprontar outro fuzuê
Furdúncio tem hora de terminar
Baranga, penosa te arranca
Teu tempo, juiz apitou
O jogo faz tempo já terminou
Tem muita miçanga nesse seu patuá
Sobra é farinha nesse angu
Tem língua de sogra nesse teu bláblá blá
Não dá pra encarar o teu i love you
Tens um olho gordo que me faz desandar
E até me brochar, mas vais te arrepender
Pois quem engole pedra reza um dito popular
Já sabe depois o que vai sofrer
Antes de armar outra barafunda
Mocreia, escuta
Não és capaz de condescender
Tampouco sou de contemporizar
O galo cantou faz um tempo,
Há tempo ele cocorocou
Levanta que o sol já se levantou
Que a hora de já se mandar passou
Que a hora de pirulitar chegou”

Mulher faladeira, letra de Chico Buarque de Holanda

O Projeto de Lei 19.203/11, de autoria da deputada estadual Luiza Maia (PT/BA), que pretende proibir o Estado da Bahia de financiar artistas que depreciem as mulheres, aprovado ou não, não vai para lugar nenhum.

O fato de ter, particularmente, repulsa por este tipo de música, não me impede de ver que a iniciativa da deputada está, inevitavelmente, fadada ao fracasso. Mais do que isso: ela é perigosa.

Se for aprovado, o projeto cairá no STF, uma vez se tratar de matéria flagrantemente inconstitucional. A livre manifestação do pensamento não será revogada por conta de nossa indignação com a música A ou B.

Alguém pode me dizer que existem graduações de direitos e que uns direitos prevalecem sobre outros. É verdade, mas sempre com critérios objetivos.

Com a melhor das intenções, a iniciativa nada mais é do que a velha censura.

A deputada Luiza Maia é uma boa parlamentar, mas embarcou numa barca furada. Furadíssima.

Tomemos então um exemplo. A música “Mulher faladeira”, de Chico Buarque, deprecia ou não as mulheres?

Alguém aí acha que não? Eu também acho.

O problema todo é que alguém pode dizer que deprecia. Quem terá esta régua mágica, iluminada e infalível?

A proposição da deputada requer uma régua subjetiva que, simplesmente, não pode existir numa democracia. E não existirá.

Como diria o Chico Buarque, é melhor criar o Ministério do “Vai Dar Merda”.

Por Charles Carmo

Aperte o play e ouça Mulher faladeira, letra de Chico Buarque e composição de Mauricio Tapajós e Mauricio Castillio.

Em tempo: quando digo que esta barca é furada, não me refiro ao capital político que a deputada deve agregar com o projeto, mas ao fato de que o precedente é perigoso.