Babalu: o mais genuinamente popular dos artistas plásticos baianos
Tive o grande privilégio de ter convivido com o artista Babalu, em sua casa na Boca do Rio, em Salvador. Além de guia espiritual de centenas de pessoas, Babalu era, sobretudo, uma bom baiano. E um artista de enorme talento. Sobre ele, a crítica de arte Matilde Augusta de Matos dizia: “Nunca encontrei artista que personificasse o humor e o jeito de ser do povo baiano, como Babalu. A arte, para ele, era decorrência da sua vida, que acontecia naturalmente, como tudo mais que fazia”.
Babalu costumava “sacanear” seus amigos mais queridos inserindo seus nomes em pichações de muros ou nos nomes dos bares, barracas de festas de largo ou ainda nos bordéis que pintava, sempre de forma a captar, hora o cotidiano do povo de Salvador, hora os elementos das religiões afro-brasileiras, mas sempre com enorme talento e uma marca mais que peculiar em seus traços.
Babalu era de um humor sarcástico e ferino e jamais deixou passar uma oportunidade para dizer o que pensava. Seus amigos se acostumavam com isso, e, na verdade, era uma das coisas que mais gostavam nele.
Certa feita comprei umas plantas para presenteá-lo. Quando chequei com o presente, ele, diante de seu rico jardim, segurou-as e daquele jeito ferino responder “Oh, que original!”.
Na verdade, não era. Planta era o que mais tinha na sua casa e ele não deixaria a oportunidade de me alfinetar. Não me importei, esta cortada ferina não era um privilégio meu, mas de todos os amigos. Na verdade, me senti parte da patota.
Suas pinturas rodaram o mundo, inclusive por meio de documentário da BBC, de autoria de Jana Bokova e na prestigiada International Rewiew of African American Art.
Na juventude, Babalu ajudou na produção de espetáculos, o que lhe rendeu histórias hilárias, que adorava contar, sentado no sofá de sua casa. Histórias muitas vezes proibidas aos menores de idade e que, por este mesmo motivo, não posso revelar neste espaço.
O professor Hélio Campos, professor de física da UFBA e um grande amigo em comum, lembra que foi ele quem criou a lavagem das escadarias da Praça Castro Alves, na segunda-feira de carnaval. O evento virou ponto de encontro dos foliões gays de Salvador.
“Baba”, como era também chamado, foi Babalu e, antes disso, Sinval Cunha, seu nome de batismo. Com todos estes nomes, foi digno, íntegro, criativo e, sobretudo, um ser iluminado por um sentimento de amor à humanidade e uma admiração verdadeira pelas manifestações mais populares de nosso povo.
Os peixes, cuja simbologia espiritual é comum em várias culturas, ele reservava às telas, nunca ao seu prato. Por ser filho de pescador, dizia que comeu tantos peixes na infância que enjoara da iguaria para sempre.
Seu corpo nos deixou em 6 de janeiro de 2008. Já morava em Cruz das Almas mas fui, junto com minha esposa, prestar minhas homenagens ao querido amigo.
Na volta, coloquei um CD de música brega para ouvir no carro. Queria homenageá-lo mais uma vez. É que Babalu amava o povo simples do Brasil.
Gente como ele, que sabe ser grande, sem, entretanto, diminuir ninguém para agigantar-se.
Hoje, posso dizer que uma das experiências mais gratificantes de minha vida foi ter desfrutado de seu convívio e presenciado este artista em pleno processo de criação.
Salve Babalu!
Por Charles Carmo

