sexta-feira, 18 de maio de 2012

A queda de Berlusconi e o desejo do “mercado”

Por Elena Llorente  no Página/12 via Carta Maior

Depois de sofrer um duro revés na Câmara de Deputados e de um encontro com o presidente da República, Giorgio Napolitano, o primeiro ministro italiano Silvio Berlusconi prometeu renunciar depois que os novos ajustes econômicos prometidos à União Europeia sejam aprovados pelo Parlamento. Assim informou um comunicado oficial da presidência da República que não indicou, porém, quanto tempo se exigirá para a aprovação dessas medidas que ainda não foram discutidas pela Câmara de Deputados e que, segundo os analistas, deverão ser reformadas e ampliadas.

O conturbado dia de Berlusconi começou com reuniões desde a noite anterior e na manhã de terça com seus aliados da Liga do Norte e seus colaboradores mais próximos. Todos o aconselharam a dar um passo atrás porque sua aliança de governo não tinha a maioria na Câmara de Deputados e era difícil reconstituir as fissuras. O próprio Umberto Bossi, líder da Liga Norte, pediu que ele deixasse o lugar para outro homem de sua confiança, como o secretário do Popolo della Libertà (PDL), seu protegido Angelino Alfano. Mas sua resposta foi sempre “não”, apesar de saber que vários parlamentares de seu partido já tinham o abandonado. “Se devo morrer, prefiro que seja na Câmara”, teria dito. Ele queria, aparentemente, ver com seus próprios olhos o que aconteceria no Parlamento e olhar de frente, como disse, “os traidores”.

E assim foi. Durante a sessão na Cãmara de Deputados que devia aprovar o Balanço do Estado 2010, o governo de Silvio Berlusconi perdeu a maioria pela primeira vez desde que foi eleito em 2008. Mas tudo adquiriu uma forma estranha, para muitos confusa, porque não foi uma votação simples e clara de tantos “Sim” contra tantos “Não”. Ontem, os partidos da oposição, desde a esquerda concentrada no Partido Democrático, até os ex-democrata-cristãos da União de Centro, a direita democrática de Futuro e Liberdade, os radicaios e os “duros” (e dissidentes) do PDL, decidiram estar presentes na sessão da votação, mas não emitir o voto para não obstaculizar a aprovação do balanço. O resultado foi que o balanço acabou sendo aprovado por 308 votos favoráveis dos deputados do PDL e da Liga Norte. Mas os não votantes e presentes foram 320, quatro acima da maioria absoluta, que na Câmara é de 316, e oito acima dos votos “Sim” conseguidos para aprovar o balanço.

Com isso, a oposição quis demonstrar que Berlusconi não tem mais a maioria no Parlamento e que, por conseguinte, não pode governar, segundo estabelecem as leis do país. A práxis habitual nestes casos indica que o primeiro ministro deve se apresentar ante o presidente da República para renunciar.

Na Câmara, os representantes da oposição assinalaram mais uma vez a necessidade de Berlusconi renunciar para permitir que a Itália saia da crise econômica e supere a crise de credibilidade internacional. “Em outro país, mas também em outro momento histórico de nosso país, um verdadeiro líder político já teria se afastado e permitido que outros seguissem com o governo”, disse o deputado do Partido Democrático, Dario Franceschini.

Após a votação, Berlusconi se mostrou verdadeiramente preocupado. Parecia não poder acreditar ou não queria acreditar. Serio, com a testa franzida, tomava notas em uma folha. Pediu o informe dos votantes para ver quem não tinha votado, com nome e obrenome. “Aqui temos um problema de números. Agora precisamos refletir sobre o que fazer. Sinto-me traído”, teria dito a seus colaboradores, convocando-os para uma reunião urgente. A agência Ansa publicou uma foto na qual se viam as anotações feitas por Berlusconi e nelas se destacavam duas palavras: “oito traidores”.

Após a reunião com seus colaboradores, ele se apresentou no Quirinal, sede da presidência da República, e conversou com o presidente Giorgio Napolitano durante uma hora. “Depois da votação – disse em declarações à RAI – considerei que era necessário priorizar as preocupações com a situação do país e, por isso, apresentei ao presidente da República a urgência da aprovação das medidas solicitadas pela Europa. Depois da minha renúncia, o presidente começará a habitual rodada de consultas. Mas prevejo que não seja possível formar outro governo, a não ser via eleições”.

E, respondendo aos opositores que querem a formação de um governo de unidade nacional do qual participem todos os principais partidos políticos ou um governo técnico que se preocupe sobretudo com a economia, Berlusconi afirmou: “Não posso aceitar que, em uma democracia, assumam o governo aqueles que perderam as eleições”. Mas as eleições nacionais foram há mais de três anos e, neste lapso, muitas coisas mudaram.

As pessoas se perguntam o que ocorrerá agora: mudará a imagem da Itália depois de tantos meses de pouca credibildiade? Os mercados se estabilizarão e a economia italiana retomará fôlego? O banco de negócios Goldman Sachs, de Nova York, já lançou sua própria hipótese: um governo de centro-direita com amplo apoio de outros partidos poderia estabilizar os mercados.

Tradução: Katarina Peixoto