sexta-feira, 3 de setembro de 2010

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Consolidar a ruptura histórica operada pelo PT. Por Leonardo Boff

Mas essa derrota infligida às elites excludentes e anti-povo, deve ser consolidada nesta eleição por uma vitória convincente para que se configure um "não retorno definitivo" e elas percam a vergonha de se sentirem povo brasileiro assim como é e não como gostariam que fosse. Terminou o longo amanhecer. Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor. Autor de, entre outros livros, Depois de 500 anos: que Brasil queremos (Editora Vozes).

Do Adital

Para mim o significado maior desta eleição é consolidar a ruptura que Lula e o PT instauraram na história política brasileira. Derrotaram as elites econômico-financeiras e seu braço ideológico, a grande imprensa comercial. Notoriamente, elas sempre mantiveram o povo à margem da cidadania, feito, na dura linguagem de nosso maior historiador mulato, Capistrano de Abreu, “capado e recapado, sangrado e ressangrado”. Elas estiveram montadas no poder por quase 500 anos. Organizaram o Estado de tal forma que seus privilégios ficassem sempre salvaguradados. Por isso, segundo dados do Banco Mundial, são aquelas que, proporcionalmente, mais acumulam no mundo e se contam, política e socialmente, entre as mais atrasadas e insensíveis. São vinte mil famílias que, mais ou menos, controlam 46% de toda a riqueza nacional, sendo que 1% delas possui 44% de todas as terras. Não admira que estejamos entre os países mais desiguais do mundo, o que equivale dizer, um dos mais injustos e perversos do planeta.

Até a vitória de um filho da pobreza, Lula, a casa grande e a senzala constituíam os gonzos que sustentavam o mundo social das elites. A casa grande não permitia que a senzala descobrisse que a riqueza das elites fora construída com seu trabalho superexplorado, com seu sangue e suas vidas, feitas carvão no processo produtivo. Com alianças espertas, embaralhavam diferentemente as cartas para manter sempre o mesmo jogo e, gozadores, repetiam: “façamos nós a revolução antes que o povo a faça”. E a revolução consistia em mudar um pouco para ficar tudo como antes. Destarte, abortavam a emergência de outro sujeito histórico de poder, capaz de ocupar a cena e inaugurar um tempo moderno e menos excludente. Entretanto, contra sua vontade, irromperam redes de movimentos sociais de resistência e de autonomia. Esse poder social se canalizou em poder político até conquistar o poder de Estado. Leia mais »


Jefferson atira em Serra: barata voa! Por Rodrigo Vianna

Do Escrevinhador

Pintou o “barata voa”* na campanha de Serra. Cada um corre pra um lado tentando se salvar. É debandada geral. Talvez sobre o Ali Kamel (o suposto jornalista, não o ator), Frias Filho e a turma dos Civita. E olhe lá!

Alckmin precisa manter a fortaleza em São Paulo. Beto Richa talvez consiga no Paraná. Tá difícil do Aécio emplacar o Anastasia em Minas – mas ainda tem jeito. E o melhor caminho pra salvar alguma coisa no terreno da oposição parece ser abandonar o Serra.

Serra caminha para repetir o Cristiano Machado, 60 anos mais tarde. Era o candidato do PSD em 1950 – abandonado pelo partido, que preferiu apoiar Vargas. Sobre isso, escrevi aqui.

Quem deu a senha pro barata voa hoje foi o Roberto Jefferson (aquele que detonou o tal “mensalão”). Vejam o que ele andou escrevendo no twitter, segundo o relato do Brizola Neto:

“O twitter de Roberto Jefferson virou um mural de imprecações contra José Serra. Até copiei a tela, para o caso de pressões irresistiveis “destuitarem” o que Jefferson diz.  Alguns pequenos exemplos do elevado nivel de solidariedade moral entre o presidente do (não confundir com o de Vargas) PTB, que há um mês e meio, ilegalmente, cedeu o programa em rede de seu partido para o “coiso”.

1 – Nem conheço o Serra

“Eu apoio Serra a pedido do Geraldo Alckmin. Sou Geraldo, não conheço o Serra. Só de ouvir falar.”

“Eu encontrei com o Serra duas vezes. Uma na convenção do PTB. Outra na casa do Geraldo Alckmin.”

“Quando chego a São Paulo encontro o Sergio Guerra, o Eduardo Jorge e o Marcio Fortes. E para aí. Nunca conversei com o Serra.”

2 – Serra é uma bobagem

“Serra é responsável pela nossa dispersão. Nunca nos reuniu.”

“Se o Gonzalez ouvisse um pouco os políticos, não poria no ar uma favela fake, nem o bobajol do Zé.”

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*Em 1997 eu era um paulista recém chegado ao Rio; tive o prazer de conhecer o cinegrafista (e filósofo popular) Carlos Trinta. Entre outras pérolas do carioquês, ele me ensinou o que era “barata voa” (a expressão, naquele época, ainda era mais usada em alguns nichos do subúrbio, não tinha chegado à zona sul). Foi numa reportagem em que íamos acompanhar a visita do (então) governador Marcelo Allencar à Cidade de Deus. O Trinta vira pra mim e diz: “maluco, quando o Velho Barreiro chegar vai ser uma barata voa do c…” Não deu outra. Marcelo chegou, meio cambaleante, e deu-se o barata voa generalizado. Como agora, na campanha de Serra.


O suicídio da velha mídia. Por Luis Nassif

Uma hora o PIG terá que encarar o beco sem saída em que se meteu. Foto: Google

Em 2006 já falava aqui no suicídio da mídia,quando decidiu transformar a queda (ou derrota) de Lula em guerra santa.

O que houve ontem, no Jornal Nacional, mostra que a insensatez não tem limites. A entrevista de Serra não mudará o panorama eleitoral. Dilma continua favorita.

Mas suponhamos que a armação desse resultados, invertesse o jogo e colocasse Serra como favorito. O que ocorreria com a opinião pública? Haveria apenas críticas, a bonomia do governo, Dilma convidando o casal para jantar? Claro que não: haveria comoção popular, uma guerra sem quartel.

Há muito a velha mídia atravessou o Rubicão da prudência.

O que está em jogo, da parte dela, é a montagem de uma barricada para impedir a invasão estrangeira do setor por empresas de telecomunicações e grupos de mídia.

No começo, havia a estratégia clara (e imprudente) de tentar derrubar Lula – ou fazê-lo sangrar – e apoiar um candidato que viesse lhe comer à mão e ajudasse a barrar a invasão estrangeira.

Apostou e perdeu. Nem com todo apoio, o campeão branco, José Serra, logrará vencer.

Passadas as eleições, a velha mídia terá que encarar seus demônios. E é evidente, depois de ter avançado ainda mais no pântano da interferência política, que o objetivo maior do próximo governo será acabar com os privilégios, com o monopólio da informação. Ou seja, acabando com o último cartório da economia.

E quem vai apoiá-la?

Essa postura arrogante, quase golpista, rompeu qualquer laço de solidariedade com setores nacionais. A velha mídia era temida por muitos setores empresariais da economia real. Hoje é desprezada.

Não haverá apoio de grandes grupos econômicos, porque a guerra não é deles. E são grupos que já aprenderam a montar grandes parcerias com empresas internacionais. Uma coisa é inventar fantasmas de Farcs, Moralez, Fidel, essas bobagens sem fim. Outra é convencer os aliados de hoje que Telefonica, grupos portugueses, Pisa e outros que estão entrando representam interesses do Foro São Paulo.

Das multi? Só faltava as multinacionais, que na Constituinte conseguiram equiparação com as nacionais no setor real da economia, ampararem qualquer tentativa de criar cartórios na mídia.

Para os políticos, há muito a velha mídia é fator de risco. Sabem que elogios ou acusações estão submetidos a jogos de interesses empresariais. Preferem o diabo a uma imprensa cartelizada e exercendo o poder de forma ilimitada, como foi nas últimas duas décadas.

Para o mercado financeiro, nem pensar. No máximo acenam com possibilidades futuras de parcerias, mas de olho em apenas um ativo da velha mídia: o poder de influenciar mercado e governos. E esse ativo está sendo gasto rapidamente com a perda de qualidade e de influência dos jornais, o envolvimento permanente com factóides e o descolamento da parcela majoritária de opinião pública.

Por acaso pensam que investidores técnicos irão investir em setores com baixa governança corporativa e baixa rentabilidade?

As manifestações de Otávio Frias Filho – citando Rupert Murdoch como exemplo -, a associação da Abril com a Napster, mostram que tentou-se aqui, tardiamente, a mesma fórmula empregada em outros países. Trata-se de utilizar o poder político da mídia, antes que acabe, para pavimentar a transição para a nova etapa tecnológica.

A questão é que, com exceção da Globo, nenhum grupo tem condições de ser dominante na nova etapa, porque nenhum grupo pensou estrategicamente na travessia, mas apenas em barrar futuros competidores.

É fácil prever o futuro desses grupos nos próximos anos.

A Folha será salva pela UOL, mas como grupo econômico. Jamais a UOL conseguirá um décimo do poder político que a Folha deteve nos anos 90 e 2000.

A Abril não tem plano de vôo. Queimou a ponte quando abriu mão da BOL e da TVA.

Sabe que seu carro-chefe – a Veja impressa – está em queda livre. O mercado estima uma tiragem real de 780 mil exemplares – contra os 1,1 milhão apregoados pela mídia. Quando os clientes de publicidade exigirem um ajuste nos valores cobrados, proporcional à queda real das vendas, a Abril entra em sinuca.

Para enfrentar os novos tempos, fez investimentos maciços no portal Veja, que é um equívoco sem tamanho. Ora, a editora sempre teve a cultura da publicação semanal, quinzenal ou mensal. Jamais trabalhou sequer com a informação diária. Sei na prática o choque cultural que é passar do padrão semanal para o diário. Agora, ela quer do nada criar um portal com notícias online, sem prática e entrando em um mercado em que já existem serviços online consolidados, como o G1, UOL, Terra, IG. Não será sequer mais um. Será menos um.

A compra do Anglo com recursos pessoais dos Civita mostra claramente que, cada vez mais, deixará a operação midiática para os sul-africanos e se salvará em novos negócios – como os da educação – onde o poder de fogo da revista permita ganhos indiretos junto ao poder público.

O Estadão tem a melhor estratégia multimídia (depois da Globo), mas é um grupo à venda e sem fôlego financeiro, definitivamente preso aos conflitos familiares. Manterá um jornalismo de nicho, bem construído, trabalhando seu público mais conservador e de bom nível. Mas sem grandes vôos e sem influência política.

Nesse quadro, restará apenas a Globo, cercada de inimigos por todos os lados e perdendo a cada dia legitimidade e alianças.

É um pessoal bom de jornalismo. Com exceção do inacreditável O Globo, tem jornalismo de primeira na CBN, na Globonews, no G1 e posição dominante na TV aberta, apesar de toda a parcialidade do grupo de Kamel.

Mas, graças à miopia dos sucessores e às loucuras de Ali Kamel, será cada vez mais alvo das invasões bárbaras, seja da Record, seja grupos de fora, seja de todos os inimigos que acumulou nesses anos de arrogância cega.

O jogo acabou. Agora começam as apostas para o novo jogo que virá pela frente.


Por que persiste a Igreja-poder? Por Leonardo Boff

Instituições autoritárias possuem uma mesma lógica de autoreprodução. Não é diferente com a Igreja-instituição. Este exercício de poder não tem nada de divino. Era o que Jesus exatamente não queria. Ele queria a "hierodulia" (sagrado serviço) e não a "hierarquia" (sagrado poder).

Da Carta Maior

Vou abordar um tema incômodo, mas incontornável: como pode a instituição-Igreja, como a descrevi num artigo anterior, com características autoritárias, absolutistas e excludentes se perpetuar na história? A ideologia dominante responde: “só porque é divina”. Na verdade, este exercício de poder não tem nada de divino. Era o que Jesus exatamente não queria. Ele queria a hierodulia (sagrado serviço) e não a hierarquia(sagrado poder). Mas esta se impôs através dos tempos.

Instituições autoritárias possuem uma mesma lógica de autoreprodução. Não é diferente com a Igreja-instituição. Em primeiro lugar, ela se julga a única verdadeira e tira o título de “igreja” a todas as demais. Em seguida cria-se um rigoroso enquadramento: um pensamento único, uma única dogmática, um único catecismo, um único direito canônico, uma única forma de liturgia. Não se tolera a crítica nem a criatividade, vistas como negação ou denunciadas como criadoras de uma Igreja paralela ou de um outro magistério.

Em segundo lugar, se usa a violência simbólica do controle, da repressão e da punição, não raro à custa dos direitos humanos. Facilmente o questionador é marginalizado, nega-se-lhe o direito de pregar, de escrever e de atuar na comunidade. O então Card. Joseph Ratzinger, Presidente da Congregação para a Doutrina da Fé, em seu mandato, puniu mais de cem teólogos. Nesta mesma lógica, pecados e crimes dos sacerdotes pedófilos ou outros delitos, como os financeiros, são mantidos ocultos para não prejudicar o bom nome da Igreja, sem o menor sentido de justiça para com as vítimas inocentes.

Em terceiro lugar, mitificam-se e quase idolatram-se as autoridades eclesiásticas principalmente o Papa que é o “doce Cristo na Terra”. Penso eu lá com meus botões: que doce Cristo representava o Papa Sérgio (904), assassino de seus dois predecessores ou o Papa João XII (955), eleito com a idade de 20 anos, adúltero e morto pelo marido traído ou, pior, o Papa Bento IX (1033), eleito com 15 anos de idade, um dos mais criminosos e indignos da história do papado, chegando a vender a dignidade papal por 1000 liras de prata?

Em quarto lugar, canonizam-se figuras cujas virtudes se enquadram no sistema, como a obediência cega, a contínua exaltação das autoridades e o “sentir com a Igreja (hierarquia)”, bem no estilo fascista segundo o qual “o chefe (o ducce, o Führer) sempre tem razão”.

Em quinto lugar, há pessoas e cristãos com natureza autoritária, que acima de tudo apreciam a ordem, a lei e o princípio de autoridade em detrimento da lógica complexa da vida que tem surpresas e exige tolerância e adaptações. Estes secundam esse tipo de Igreja bem como regimes políticos autoritários e ditatoriais. Aliás, há uma estreita afinidade entre os regimes ditatoriais e a Igreja-poder como se viu com os ditadores Franco, Salazar, Mussolini, Pinochet e outros. Padres conservadores são facilmente feitos bispos e bispos fidelíssimos a Roma são promovidos, fomentando a subserviência. Esse bloco histórico-social-religioso se cristalizou e garantiu a continuidade a este tipo de Igreja.

Em sexto lugar, a Igreja-poder sabe do valor dos ritos e símbolos pois reforçam identidades conservadoras, pouco zelando por seus conteúdos, contanto que sejam mantidos inalteráveis e estritamente observados.
Em razão desta rigidez dogmática e canônica, a Igreja-instituição não é vivida como lar espiritual. Muitos emigram. Dizem sim ao cristianismo e não à Igreja-poder com a qual não se identificam. Dão-se conta das distorções feitas à herança de Jesus que pregou a liberdade e exaltou o amor incondicional.

Não obstante estas patologias, possuímos figuras como o Papa João XXIII, Dom Helder Câmara, Dom Pedro Casaldáliga, Dom Luiz Flávio Cappio e outros que não reproduzem o estilo autoritário, nem apresentam-se como autoridades eclesiásticas mas como pastores no meio do Povo de Deus. Apesar destas contradições, há um mérito que importa reconhecer: esse tipo autoritário de Igreja nunca deixou de nos legar os evangelhos, mesmo negando-os na prática, e assim permitindo-nos o acesso à mensagem revolucionária do Nazareno. Ela prega a libertação mas geralmente são outros que libertam.

Leonardo Boff é teólogo e escritor.


“Violência Enquadrada”: Lei Maria da Penha? Por Ubiracy de Souza Braga

Ubiracy de Souza Braga é sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em comunicação social (USP) e professor da coordenação do curso de ciências sociais da UECE – Universidade Estadual do Ceará.

Talvez a expressão utilizada por Slavoj Žižek: “violência enquadrada”, seja precisamente porque, “talvez, hoje, Jô seja o herói apropriado: aquele que se recusa a buscar um significado mais profundo” (2008: 452). Em verdade ele quer retratar a “visão em paralaxe”: medida da mudança de posição aparente de um objeto em relação a um segundo plano mais distante, quando esse objeto é visto a partir de ângulos diferentes. Esse fenômeno óptico, relativamente simples, torna-se método e guia para seu livro, The Paralaxe View (2008), uma das mais ousadas aventuras filosófico-psicanalíticas de nosso tempo. E não devemos esquecer que a metáfora do fenômeno óptico surge também como instrumento crítico contra “as falsas formas do universal”, como é o caso do conservadorismo, no campo da política, com a exclusão do espaço político propriamente dito e a redução do potencial subversivo da noção de liberdade, seja individual, seja no plano coletivo das massas rurais e urbanas.

Note bem: o conservadorismo é um fenômeno universal para toda a espécie humana, mas é também um novo produto das condições históricas e sociais desta época, no que podemos dizer que há dois tipos de conservadorismo. Há o tipo que é mais ou menos universal, e outro definitivamente moderno que é produto de circunstâncias históricas e sociais particulares e que tem suas tradições, forma e estrutura próprias e particulares. Poderíamos chamar o primeiro tipo de “conservadorismo natural” e o segundo de “conservadorismo moderno”, se a palavra “natural” não estivesse já carregada de diversos significados e matizes desde o debate eurocêntrico a respeito no âmbito da filosofia como de resto nas ciências sociais em geral. Leia mais »


Serra comprova: a ira é imperialista

Moe Howard, o hilário pateta mau humorado. Na política não teria graça.

Quando a cólera domina o homem, passa a controlar o seu corpo, seus gestos, sua feição, suas palavras, tudo. A ira é imperialista. Pergunto aqui: qual de vocês, leitores sensatos, não reconhece um rosto de um homem com ódio? Quem não detecta uma fala irada?

Não sou especialista no assunto, mais creio que o reconhecimento destes códigos corporais é uma herança atávica, importante para a sobrevivência dos indivíduos e as relações sociais dos grupos. Aprendemos a reconhecê-los e reagimos de acordo com cada um deles, cada código causando uma reação diferente.

Isto posto, imagino os brasileiros que passam a ouvir e assistir, a cada dia, as entrevistas do candidato José Serra. E passam a olhar bem no fundo de seus olhos. E abrem os ouvidos para as palavras que saem da sua boca e, não raro, para o desequilíbrio com que são ditas.

Cada vez mais freqüente, os ataques do candidato José Serra aos profissionais de imprensa misturam-se aos ataques ao PT e são filtrados pelas lentes dos eleitores e vão, ataque a ataque, aumentando a rejeição do tucano.

O brasileiro, na qualidade de membro permanente da espécie humana, sabe reconhecer um candidato desesperado. Gestos públicos de arrogância e descontrole emocional não contribuirão em nada para mudar o quadro eleitoral.

Serra, um homo politicus, deveria saber disso. E sabe, mas a ira é imperialista.

Por Charles Carmo

Este último vídeo é mais antigo, entretanto, é relevante exemplo de quando um político deveria ter calado a boca.


Holanda: História, Política & Futebol. Por Ubiracy de Souza Braga

Ubiracy de Souza Braga é sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em comunicação social (USP) e professor da coordenação do curso de ciências sociais da UECE – Universidade Estadual do Ceará.

Fonte: Diário do Nordeste, Fortaleza - Ceará

Nossa autoestima como nação se apóia, sobretudo, na bola. Não ganhamos nenhum prêmio Nobel; nosso único santo, frei Galvão, ainda é pouco conhecido. Porém, somos o único país do mundo pentacampeão de futebol”.

Frei Betto

1 – História e Política: “capital legal do mudo”.

A gênese do capitalista industrial não se processou de um modo gradual como a do agricultor. É indiscutível para Marx e Engels, que muitos pequenos mestres de corporações e até pequenos artesãos mais independentes, ou mesmo trabalhadores assalariados, se transformaram em pequenos capitalistas e (através da extensão do trabalho assalariado e da correspondente acumulação) em capitalista. Na infância da produção capitalista, as coisas passaram em grande parte como na infância das cidades, onde a questão do saber qual dos servos evadidos devia ser o senhor e qual devia ser o servo foi muitas vezes decidida pela mais recente ou mais tardia de sua fuga. Para ambos, o passo de caracol deste método não correspondia de modo algum às exigências comerciais do novo mercado mundial que as grandes descobertas do fim do século XV tinham criado. Mas a Idade Média tinha deixado por herança duas formas distintas de capital, amadurecidas no interior das mais diversas formações econômicas, e que, antes do modo de produção capitalista, são consideradas de qualquer forma o capital usuário e o capital mercantil.

A descoberta do ouro e da prata na América, a extirpação, escravização e enterramento das populações autóctones nas minas, o começo da conquista e pilhagem nas Índias Orientais, a transformação da África numa espécie de coutada para a caçada comercial à peles-negras assinalavam o despontar da era capitalista. Estes processos idílicos são e representam, pois o ponto mais importante da acumulação primitiva. No seu seguimento, vem a guerra comercial das nações européias, que “tiene como teatro todo el globo terráqueo” (Marx, 1973: 731). Daí ser possível admitir Marx como o precursor da crítica analítica da idéia em sua progênie, hoje comum, da globalização. Ela começa com a revolta da Holanda contra a Espanha, assume dimensões gigantescas com a guerra anti-jacobina da Inglaterra e continua ainda com as guerras do ópio contra a China etc. Marx refere-se noutro lugar que a “razão desta erupção foi indiscutivelmente proporcionada pelo canhão inglês que lançou à força sobre a China essa droga soporífera chamada ópio” (Marx, 1973; 1978). Sobre este aspecto vejamos o que nos diz Burns (1967): Leia mais »


A velha mídia está derretendo. Por Antonio Lassance

Pesquisa aponta que quase 60% das pessoas acham que as notícias veiculadas pela imprensa brasileira são tendenciosas. Oito em cada dez brasileiros acreditam muito pouco ou não acreditam no que a imprensa veicula. Quanto maior o nível de renda e de escolaridade do brasileiro, maior o senso crítico em relação ao que a mídia veicula. Por Antonio Lassance.

Atentai PIG: estamos vencendo.

Por Charles Carmo

A velha mídia está derretendo

Por Antonio Lassance, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e professor de Ciência Política, na Carta Maior.

Como um iceberg a navegar em águas quentes e turbulentas, a velha mídia está derretendo. O mundo está mudando, o Brasil é outro e os brasileiros desenvolvem, aceleradamente, novos hábitos de informação.

Um retrato desse processo pode ser visto na recente pesquisa encomendada pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom-P.R.), destinada a descobrir o que o brasileiro lê, ouve, vê e como analisa os fatos e forma sua opinião.

A pesquisa revelou as dimensões que o iceberg ainda preserva. A televisão e o rádio permanecem como os meios de comunicação mais comuns aos brasileiros. A TV é assistida por 96,6% da população brasileira, e o rádio, por expressivos 80,3%. Os jornais e revistas ficam bem atrás. Cerca de 46% costumam ler jornais, e menos de 35%, revistas. Perto de apenas 11,5% são leitores diários dos jornais tradicionais.

Quanto à internet, os resultados, da forma como estão apresentados, preferiram escolher o lado cheio do copo. Avalia-se que a internet no Brasil segue a tendência de crescimento mundial e já é utilizada por 46,1% da população brasileira. No entanto, é preciso uma avaliação sobre o lado vazio do copo, ou seja, a constatação de que os 53,9% de pessoas que não têm qualquer acesso à internet ainda revelam um quadro de exclusão digital que precisa ser superado. Ponto para o Programa Nacional da Banda Larga, que representa a chance de uma mudança estrutural e definitiva na forma como os brasileiros se informam e comunicam-se.

A internet tem devorado a TV e o rádio com grande apetite. Os conectados já gastam, em média, mais tempo navegando do que em frente à TV ou ao rádio. Esse avanço relaciona-se não apenas a um novo hábito, mas ao crescimento da renda nacional e à incorporação de contingentes populacionais pobres à classe média, que passaram a ter condições de adquirir um computador conectado.

O processo em curso não levará ao desaparecimento da TV, do rádio e da mídia impressa. O que está havendo é que as velhas mídias estão sendo canibalizadas pela internet, que tornou-se a mídia das mídias, uma plataforma capaz de integrar os mais diversos meios e oferecer ao público alternativas flexíveis e novas opções de entretenimento, comunicação pessoal e “autocomunicação de massa”, como diz o espanhol Manuel Castells.

Ainda usando a analogia do iceberg, a internet tem o poder de diluir, para engolir, a velha mídia.

A pesquisa da Secom-P.R. dá uma boa pista sobre o grande sucesso das plataformas eletrônicas das redes sociais. A formação de opinião entre os brasileiros se dá, em grande medida, na interlocução com amigos (70,9%), família (57,7%), colegas de trabalho (27,3%) e de escola (6,9%), o namorado ou namorada (2,5%), a igreja (1,9%), os movimentos sociais (1,8%) e os sindicatos (0,8%). Alerta para movimentos sociais, sindicatos e igrejas: seu “sex appeal” anda mais baixo que o das(os) namoradas(os).

Estes números confirmam estudos de longa data que afirmam que as redes sociais influem mais na formação da opinião do que os meios de comunicação. Por isso, uma informação muitas vezes bombardeada pela mídia demora a cair nas graças ou desgraças da opinião pública: ela depende do filtro excercido pela rede de relações sociais que envolve a vida de qualquer pessoa. Explica também por que algo que a imprensa bombardeia como negativo pode ser visto pela maioria como positivo. A alta popularidade do Governo Lula, diante do longo e pesado cerco midiático, talvez seja o exemplo mais retumbante.

Em suma, o povo não engole tudo o que se despeja sobre ele: mastiga, deglute, digere e muitas vezes cospe conteúdos que não se encaixam em seus valores, sua percepção da realidade e diante de informações que ele consegue por meios próprios e muito mais confiáveis.

É aqui que mora o perigo para a velha mídia. Sua credibilidade está descendo ladeira abaixo. Segundo a citada pesquisa, quase 60% das pessoas acham que as notícias veiculadas pela imprensa são tendenciosas.

Um dado ainda mais grave: 8 em cada 10 brasileiros acreditam muito pouco ou não acreditam no que a imprensa veicula. Quanto maior o nível de renda e de escolaridade do brasileiro (que é o rumo da atual trajetória do país), maior o senso crítico em relação ao que a mídia veicula – ou “inocula”.

A velha mídia está se tornando cada vez mais salgada para o povo. Em dois sentidos: ela pode estar exagerando em conteúdos cada vez mais difíceis de engolir, e as pessoas estão cada vez menos dispostas a comprar conteúdos que podem conseguir de graça, de forma mais simples, e por canais diretos, mais interativos, confiáveis, simpáticos e prazerosos. Num momento em que tudo o que parece sólido se desmancha… na água, quem quiser sobreviver vai ter que trocar as lições de moral pelas explicações didáticas; vai ter que demitir os pit bulls e contratar mais explicadores, humoristas e chargistas. Terá que abandonar o cargo, em que se autoempossou, de superego da República.

Do contrário, obstinados na defesa de seus próprios interesses e na descarga ideológica coletiva de suas raivas particulares, alguns dos mais tradicionais veículos de comunicação serão vítimas de seu próprio veneno. Ao exagerarem no sal, apenas contribuirão para acelerar o processo de derretimento do impávido colosso iceberg que já não está em terra firme.


Valente: Lula e Wagner fazem, mas o prefeito soutista Ubaldino Amaral quer a fama

Por Maria Madalena Oliveira Firmo (Leninha) – Vereadora (PT/Valente), Líder da Bancada e Presidente da Comissão de Educação, Saúde, Obras e Serviços Públicos da Câmara de Vereadores de Valente.

As assessorias de comunicação surgiram para assegurar maior clareza e qualidade às informações divulgadas pelos governos e empresas, explicitando as concepções político-institucionais que estão por orientar as ações. O Informativo da Prefeitura de Valente (Ano 02, Edição 03), elaborado pela assessoria de comunicação e amplamente distribuído junto aos moradores da sede do município (3 mil exemplares), pretende, ao que parece, a mesma finalidade.

No entanto, o texto do editorial do Informativo é bastante impreciso, não conseguindo mostrar uma visão estratégica do governo, porque “diz” que “a cidade de Valente tem características próprias na área política como a eleição de líderes através de fatores bastante pessoais. Ideologias, objetivos sociais (como a busca pelo progresso e o crescimento do município) e outros diferenciados como o prestígio dos valores da terra e de se estar presente no dia a dia da cidade”. Quem merece essa confusão! Tudo isso só para querer ressaltar a festa de São João como prioridade política do governo.

Intitulado “governo de parcerias”, chama a atenção de quem manuseia o Informativo (com fotos!) o conjunto de ações que foram realizadas: 100 mil metros quadrados de calçamento (beneficiando ruas da sede e das comunidades rurais); uma padaria comunitária e uma casa do mel; a aquisição de 01 máquina motoniveladora (patrol); a construção de 10 praças públicas nos povoados; a reforma do aeroporto e o alargamento da pista de acesso à cidade; o acesso à água potável e eletrificação rural para diversas comunidades rurais; a construção de esgotamento sanitário; a reforma do Estádio Municipal, a construção da sede do INSS; a aquisição de 03 viaturas (polícias Civil e Militar), 02 ônibus escolares e mais 03 carros para saúde; a construção de 02 quadras poliesportivas; a construção de 180 casas populares; a construção de 05 Postos de Saúde da Família – PSF (Junco, Santa Rita de Cássia, Tanquinho, Valilândia e Juazeiro); a implantação dos CRAS, CREAS e CAPS; e a conclusão da construção do Colégio Estadual Luciberto Martins, tudo financiado pelos recursos públicos dos governos Lula e Wagner, mas sem serem citados – embora as placas impeçam a omissão. É essa a concepção de parceria do governo Ubaldino Amaral – os governos Lula e Wagner pagam, mas não podem aparecer! Mais uma vez ninguém merece! Leia mais »


Os Intelectuais e a Razão na História. Por Ubiracy de Souza Braga

Ubiracy de Souza Braga é sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em comunicação social (USP) e professor da coordenação do curso de ciências sociais da UECE – Universidade Estadual do Ceará

Ao amigo Clodoaldo Almeida da Paixão

Andy Singer - Rethinking Consumer Capitalism

Em 1975, sete anos após a morte de Jean Hyppolite, Michel Foucault enviará à viúva um exemplar de Surveiller et Punir com a seguinte dedicatória: “À Madame Hyppolite, como lembrança daquele a quem devo tudo”. De todo modo Hyppolite não foi o único responsável por essa reviravolta. Desde 1929 Jean Wahl chamara a atenção sobre o filósofo alemão ao publicar Le Malheur de la Conscience dans la Philosophie de Hegel em que apresentava um Hegel místico, segundo a expressão de Roland Cailois. Em 1938 Henri Lefebvre editou os Cadernos de Lenin sobre a dialética de Hegel. A vida e o pensamento de Alexandre Kojève confundem-se com os acontecimentos mais marcantes do século XX.

Etnobiograficamente falando, nascido no seio de uma família aristocrata na Rússia, ainda muito jovem A. Kojève foi preso com seus pais no calor dos acontecimentos políticos de outubro de 1917. Na prisão, começou a simpatizar com os revolucionários bolcheviques. Passada a tormenta, a família foi libertada e buscou exílio da Alemanha, onde o inquieto Kojève mergulhou profundamente no estudo da filosofia clássica. Deixou a Alemanha durante a ascensão do nazismo e aceitou suceder Alexandre Koyré em uma cátedra na École Pratique des Hautes Études, em Paris. Ali, de janeiro de 1933 a maio de 1939, tornou-se um dos mais importantes introdutores do pensamento de Hegel na França. Seu curso adquiriu fama insuperável. Por ele passaram Jean-Paul Sartre e Jacques Lacan, entre muitos outros intelectuais que nunca esconderam sua dívida de gratidão com o mestre. No segundo após-guerra, Kojève tornou-se conselheiro da Presidência da França e um dos mais influentes articuladores do projeto de uma Europa unificada, que hoje se concretiza. Morreu em 1968. Russo por nascimento, alemão por formação, francês por opção política, Kojève foi um intelectual brilhante, dotado de vastíssima erudição. Sempre envolvido em projetos ambiciosos, quase inacabáveis, publicou relativamente pouco. Vários de seus textos principais, geralmente muitos extensos como em todo grande homem, permaneceram incompletos e tiveram edições póstumas. Leia mais »


CNI/IBOPE: Serra é a fogueira que queima no São João

A boa notícia é que uma hora o combustível acaba e o fogo apaga. A ruim é que isso se chama derrota. Foto: Google

O processo eleitoral mal se iniciou e a candidatura de José Serra ameaça beijar a lona. Viram ruínas os últimos argumentos, ainda vigentes no bunker tucano, sobre o suposto papel da propaganda eleitoral na alavancagem da candidatura de Dilma Rousseff. Dilma, segundo os tucanos, crescia por conta das aparições na TV. A hora dos tucanos chegaria.

O horário de televisão tucano, ainda mais precioso em tempos de queda, não surtiu nenhum efeito sobre o eleitorado. Serra, por conta de uma discutível estratégia, preferiu disputar a atenção dos telespectadores com as vuvuzelas e a jabulani. Serra acreditava que ganhava de Maradona, Kaká e Luis Fabiano.

A nova pesquisa CNI/Ibope aponta o caminho do purgatório para a oposição. A sensação que se tem é que não importa mais quem vai ser o vice de Serra. Os números e o cacife eleitoral dos cotados apontam para a irrelevância eleitoral da escolha.

Dilma cresceu oito pontos percentuais deste março. Com 38,2% contra 32,3% de José Serra, Dilma abiu uma diferença de quase 6% sobre um adversário a cada dia mais fraco. Que jogada brilhante teria Serra para reverter este quadro durante a campanha?

Com ser oposição com 10% de crescimento da economia neste quadrimestre e uma projeção de mais de 7% ao ano? O que fazer quando Lulinha 85% entrar, em cada casa, por meio da telinha, de mão dadas com Dilma?

O crescimento de Dilma não é fruto da propaganda eleitoral petista, como é de amplo conhecimento. O crescimento de Dilma é o desejo de continuidade. O eleitor não deseja trocar o que ele conhece, que está dando certo, pelo imponderável de uma candidatura que não aponta nenhum projeto, nenhuma correção de rumo que pareça coerente ou justificável. Uma candidatura que não fala de nada.

Quando perguntado, no Roda Viva, o que faria no Banco Central, alvo de muitas críticas suas, Serra emendou: melhorar. A resposta, embora pareça simplesmente amadora, revela um desejo sem nenhuma base factível. Uma premissa que bóia no nada, eis a forma que se apresenta a candidatura tucana.

Se a oposição temia uma ultrapassagem de Dilma antes do começo do horário eleitoral, o medo agora é de uma derrota no primeiro turno. Dilma mostra musculatura para tornar isso possível, e este fato é mais que suficiente para propagar a insônia nos cardeais tucanos.

Serra, segundo a CNI/IBOPE, é a fogueira que queima no São João.

Por Charles Carmo


A guerra de espadas em Cruz das Almas: quem tem medo de bicho papão?

Até as crianças perderam o medo: em Cruz das Almas é tabu.

Um clima tensão ronda o município de Cruz das Almas, no Recôncavo Baiano. Nas barbearias, na feira, nas esquinas e bares, um assunto polêmico, inevitavelmente aparecerá: a repressão ao armazenamento clandestino e queima das espadas, artefato pirotécnico feito com pólvora socada com barro, em pedaços de bambu, amarrados em barbante.

A guerra de espada é uma das mais antigas e sedimentadas tradições do São João em Cruz das Almas. Com preços que variam de 50 a 100 reais a dúzia, a fabricação de espadas passou a ser uma alternativa de renda para centenas de pessoas no município, e um problema a ser administrado pelo poder público.

O Ministério Público e a justiça resolveram intervir e a apreensão de espadas e repressão aos “espadeiros” (como são chamados os fabricantes de espadas) gerou uma série de confrontos entre a polícia e estes que são os mantenedores desta tradição secular.

Há poucos dias, um lamentável episódio de violência foi deflagrado na Praça Senador Temístocles, no centro da cidade, quando espadeiros atiraram espadas contra um efetivo da Polícia Militar. Os policiais reagiram e acabou sobrando pancadas até para quem não tinha nada a ver com o episódio, em um excesso de vigor por parte da Polícia Militar imperdoável em uma democracia.  Leia mais »


Locomotiva do Nordeste. Por Yulo Oiticica

Yulo Oiticica é deputado estadual e presidente da Frente Parlamentar da Juventude e da Assistência Social.

A Bahia é a locomotiva do Nordeste. Apesar da oposição, volta e meia, torcer o nariz contra o desenvolvimento do estado, não perdemos o foco: o produto interno bruto (PIB) da Bahia cresceu 9,5% no 1º trimestre de 2010, em comparação ao mesmo período do ano anterior. Mas, ao contrário de outrora, não apostamos na fórmula crescer para distribuir. O presidente Lula ensinou para os gestores brasileiros que primeiro devemos distribuir para crescer. E na Bahia não é diferente.

Em março deste ano, da Jordânia, o governador Jaques Wagner celebrou com o presidente Lula, em missão ao Oriente Médio, os primeiros sinais de que a política de atração de investimentos do estado transformava o maremoto das elites conservadoras numa domesticada marolinha. A pesquisa do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), divulgada pelo Ministério do Trabalho, apontava que a Bahia respondeu por nada mais, nada menos, do que 99% do saldo de empregos de toda a região Nordeste no primeiro bimestre deste ano: 20.512 dos 20.543 novos postos de trabalho.

Gerar emprego é distribuir renda. O governo em pouco mais de 3 anos gerou 210 mil empregos de carteira assinada. Investir R$ 2 bilhões através do Programa Bolsa Família na Bahia é distribuir renda. O Bolsa Família representa 10% do orçamento do estado. A taxa da produção industrial baiana teve crescimento de 15,9%, no acumulado de janeiro a abril deste ano – num ritmo mais intenso que o registrado no último quadrimestre de 2009 (5%). Frente a abril do ano passado, cresceu 24% no indicador mensal, sétima taxa positiva consecutiva e a mais elevada desde novembro de 2004 (30%). Leia mais »


A face ocultada do futebol. Por Laurindo Lalo Leal Filho

A TV Brasil e a TV Câmara mostraram alguns aspectos da face do futebol que é ocultada pela TV comercial. Sócrates, o capitão da seleção brasileira de 1982 e o jornalista José Cruz, levantaram algumas pontas do véu que cobre, não apenas o futebol, mas grande parte de toda a estrutura esportiva existente no Brasil. Por Laurindo Lalo Leal Filho

Por Laurindo Lalo Leal Filho na Carta Maior.

Está no ar o maior espetáculo de televisão. Em audiência nada bate a Copa do Mundo. Na Alemanha, em 2006, os 64 jogos foram vistos por 26 bilhões de telespectadores, número que neste ano pode alcançar os 30 bilhões.

São 60 bilhões de olhos vendidos pela FIFA para as emissoras de TV comercializarem com os seus anunciantes. As cifras envolvidas em dinheiro são estratosféricas. Ganham a Federação internacional, as empresas de televisão e os anunciantes reforçando marcas e alavancando a venda de produtos e serviços.

Um ciclo perfeito, onde nada pode ser criticado. Normalmente, a TV no Brasil não critica os jogos transmitidos já que, dentro da lógica empresarial, seria um contrasenso mostrar defeitos do próprio produto. E o futebol, para a TV, nada mais é do que um dos seus produtos, assim como as novelas e os programas de auditório.

Dessa forma se todos ganham e não há criticas, o grande espetáculo do futebol, em sua dimensão máxima que é a Copa do Mundo, chegaria as raias da perfeição. Pelo menos é que mostra a TV.

Mas, e ainda bem que há um mas nessa história, a TV Brasil e a TV Câmara mostraram no programa VerTV alguns aspectos da face do futebol que é ocultada pela TV comercial. Sócrates, o capitão da seleção brasileira de 1982 e o jornalista José Cruz, levantaram algumas pontas do véu que cobre, não apenas o futebol, mas grande parte de toda a estrutura esportiva existente no Brasil.

Para começar não é verdade que todos ganham. Há quem perda, e são muitos. Por exemplo, os jovens que por força da TV associam desde cedo o sucesso esportivo com o consumo de cerveja. Ou desprezam o estudo, uma vez que seus ídolos não precisaram dele para alcançar a glória e a fama.

No programa, Sócrates foi enfático: “A TV vende o sonho do consumo. Vende atitude, aparência, comportamento, moda. Mas, é incapaz de vender educação. E vender esporte sem educação é um crime. Mostram ídolos do futebol que não estudam e são um péssimo exemplo para a sociedade. E não por culpa deles apenas. O sistema estimula que saiam da escola”.

Afirmação que desperta uma curiosidade. A mídia revela diariamente minúcias da vida dos jogadores. Onde vivem, que carros possuem, como são suas casas e suas famílias. Só não dizem até que ano estudaram, em quais escolas, como eram enquanto alunos. Por que será? Sócrates responde: “a ignorância dos jogadores é estimulada pelo sistema. A ele não interessam profissionais com possibilidade de critica”.

O jornalista José Cruz mostra outras perdas. De toda a sociedade. Por exemplo, com a irresponsabilidade dos dirigentes esportivos nos clubes, federações e confederações. Embora privadas, essas entidades recebem dinheiro público e, por isso, deveriam prestar contas publicamente. “As loterias esportivas repassam dinheiro para o futebol. A Timemania está hoje tapando o buraco das dívidas fiscais dos clubes produzidas por dirigentes irresponsáveis”.

E mostra outras perdas sociais. A do dinheiro público desperdiçado, por exemplo, nos Jogos Panamericanos do Rio, em 2007. Dá dois exemplos retirados do relatório do Tribunal de Contas da União: “a compra de 5 mil tochas para serem acesas no evento, das quais só chegaram 500 e, ainda assim apenas 380 foram aproveitadas e a descoberta, depois dos Jogos, pelos auditores do TCU, de 880 caixas contendo aparelhos de ar condicionado que sequer foram abertas. E tudo isso segue impune”.

Tanto Sócrates, como José Cruz, alertam para o fato da seleção nacional e dos seus jogos serem eventos públicos que, no entanto, estão totalmente privatizados. “A seleção brasileira – que usa as cores, o hino e a bandeira do nosso pais – deveria ter parte de suas receitas revertidas para o futebol brasileiro, muito pobre em várias regiões do Brasil”, diz o jornalista.

Sócrates lamenta o volume de recursos jogados fora pela falta de uma política esportiva de Estado. Para ele “o esporte deveria ser um braço da saúde e da educação. Se não ele fica solto” e aponta a deficiência dos cursos de Educação Física: “não há um que trate o esporte com viés comunitário. É tudo individualista”.

E há mais. Quem quiser saber basta entrar no site da TV Câmara, clicar em “conhecer os programas” e depois no VerTV. Lá revela-se um pouco do que a TV comercial teima em ocultar.


A Dupla Face das Relações futebol versus política na Copa Africana. Por Ubiracy de Souza Braga

Ubiracy de Souza Braga é sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em comunicação social (USP) e professor da coordenação do curso de ciências sociais da UECE – Universidade Estadual do Ceará.

“A ortodoxia é a militarização da cultura”.
Eduardo Portella
Para Jamille, com ad-miração.

A epígrafe supracitada alude à seguinte questão: as dimensões políticas do discurso econômico sobre a Copa do Mundo na África do Sul (2010) e as dimensões econômicas do discurso político no âmbito do processo eleitoral, com vistas às eleições presidenciais no Brasil, em primeiro lugar, apontam para as seguintes teses: a) não é um truísmo afirmar que a Copa do Mundo e as eleições presidenciais dividem as atenções da “marginalidade de massa”: os consumidores, disciplinando-os, segundo a expressão de Michel de Certeau (1974; 1975; 1980); b) o debate político como repetição na recente história da República brasileira, lembra-nos o brilhantismo do jogador “Dadá maravilha” que para ratificar as ditas “jogadas aéreas” tinha como marketing a expressão: “só três coisas param no ar: beija-flor, helicóptero e Dada”, levam-nos, b) a escolha do seleto grupo de brasileiros sofreu influências que ficaram marcadas na história.
Historicamente falando, entre os agentes sociais dessa influência, além da comissão técnica, do grupo de jogadores e da “opinião pública” (cf. Thiollent, 1982), estava o governo-militar golpista, na figura do general-presidente Emílio Garrastazu Médici. Sabemos que o presidente exigiu a escalação de determinados jogadores, fato que causou, meses antes da Copa, a troca do jornalista-treinador comunista João Saldanha por Zagallo no comando da equipe.

Em 1974, os jogadores brasileiros, respaldados pela vitória em 1970 e insatisfeitos com as “críticas nevrálgicas” ou o papel de “cão de guarda” (watchdoge role, como tem sido recorrente) da imprensa, assinaram um Manifesto em que prometiam não falar mais com os jornalistas, episódio que ficou conhecido como o Manifesto de Glascow. Hoje são os técnicos brasileiros que têm verdadeiro horror da imprensa e daqueles que os tornam primus inter pares: os torcedores. Existe também uma simetria simbólica entre Copa do Mundo e eleições que se estende à própria dinâmica de disputa. Ambas funcionam como representação social da finitude de um processo, se já não é um truísmo, encerramento e inicio de um ciclo cujos rumos serão definidos pelo resultado das duas competições, a saber: a disputa presidencial e dos demais cargos num pleito eleitoral replicam os embates emocionais de um jogo com estratégias, dramas e, por fim, o confronto direto nos debates. Impedidos de decretarem vitória, os protagonistas transferem para o público o sentimento da responsabilidade da decisão, o que, paradoxalmente, confere ao ritual no espaço antrópico com idêntico grau de imprevisibilidade de uma partida.

Em nosso entendimento configura-se aí o que o filósofo Ernest Jünger, denominou um “estado de mobilização total” (Jünger, 1990), ou seja, para o trabalhador – a mobilização técnica – é total (totale Mobilmachung). Da mesma maneira que a figura é um todo metafísico, “a mobilização é total na medida em que concerne ao planeta inteiro, às ações, ao corpo, ao espírito”. A expressão – mobilização total – é introduzida pela primeira vez por Jünger, originalmente no ensaio Die Totale Mobilmaching (1930), não por acaso, editado originalmente em naquele ano. Nele indica o que de essencial se lhe revelou na Primeira Grande Guerra (1914-18), aquilo que a tornou possível: a ligação da guerra ao trabalho por intermédio de uma mobilização que converte toda a existência em energia: “L’exploitation totale de toute l’énergie potentielle (…) et cette réquisition radicale fait de la guerre mondiale un événement historique qui dépasse en importance la Révolution Française”. Leia mais »