sábado, 4 de fevereiro de 2012

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Um pranto dolorido. Por Emiliano José


Artigo publicado originamente no jornal A Tarde. Emiliano é jornalista, escritor e deputado federal (PT/BA).
Uma elegia. Um canto profundo de dor. K. tem um quê de kafkiano, e Kafka chega a aparecer rapidamente no decorrer do texto. O autor, Bernardo Kucinski, jornalista, professor aposentado da USP, diz na abertura que tudo no livro é invenção, mas quase tudo aconteceu. Diria que tudo é realidade, e que a ficção serviu como uma luva para torná-la mais próxima dos leitores. Explicável, pelo talento do autor, que em nenhum momento, haja escorregões panfletários, se é que se pode acusar alguém de panfletário numa situação de tanto terror, como foram os anos da ditadura que alimentou tantos criminosos. Ela mesma, um crime.

O protagonista é um pai desesperado, que vaga atormentado por todos os cantos que possa, atrás do paradeiro da filha desaparecida. K. é o seu nome. Simplesmente K. O desaparecimento causa nele uma revisitação de todo seu passado de judeu polonês, militante de esquerda, fugido do nazismo, que experimentara a repressão em terras européias e que no Brasil reconstruíra a vida passando de mascate a comerciante estabelecido, e aqui, mais do que lá, cultor das letras, especialmente em iídiche, língua falada pelos judeus da Europa Oriental. A morte da filha enche-o de dor e de culpa – culpa pelo que não fez, pela convivência que acredita não ter tido enquanto ela era viva. É um belo romance, com o protagonista dando unidade a textos aparentemente desconexos. Leia mais »


O legado de João, ou o desafio da sucessão. Por Ernesto Marques

Nos meus 26 anos de profissão, conheci poucos políticos tão gentis e emocionalmente sensíveis quanto o prefeito João Henrique. É salutar inserir essas características na política, palco em que muitas vezes se encenam a sordidez e mesmo a violência sem pudor – não raro, sem pudor algum. Mas é preciso muito mais do que lhaneza, como diriam os mais velhos, para dirigir uma cidade com 3 milhões de habitantes e problemas crônicos, como Salvador. O agravamento de todos os nossos problemas estruturais, e o fato de não se registrar avanço digno de nota em qualquer área da administração municipal, levaram a uma situação limite de desgaste do nosso alcaide. Apesar do zelo narcísico pela sua imagem, especialidade de João, o prefeito chafurda no resultado pantanoso das suas duas gestões. A manifestação convocada pelas redes sociais para hoje à tarde indicam um sentimento de rejeição que por certo já foi mapeado nas pesquisas dos marqueteiros do Palácio Thomé de Souza.

No rastro do DESOCUPA SALVADOR, manifestação das mais bonitas que já vi e participei, rapidamente se organizou o DESOCUPA A PREFEITURA, JOÃO! Impossível prever o nível de adesão, mas a luta iniciada contra a PPP-cuica da Praça de Ondina provou ser possível mobilizar número considerável de pessoas pela sua vontade autônoma de participar livremente de um ato com a pretensão de dar um recado público sobre assunto de interesse coletivo. Sem precisar da tutela de partidos políticos e sem espertezas eleitoreiras. O combustível dos manifestantes de sábado, em Ondina, é rigorosamente o mesmo de quantos não se sabe, irão à Praça Municipal hoje. Essa gente se move pela saturação, pelo esgotamento e pela frustração de muitas expectativas.

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Martin Heidegger e o caráter de “apelo da consciência”: Be-deuten.

Ubiracy de Souza Braga é Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

1934: Martin Heidegger, reitor da Universidade de Freibourg, usando a insígnia do Partido Nazista.

De Ubiracy de Souza Braga para O Recôncavo

L`engagement de 1933 reste une tache compromettante dans la vie de ce penseur”.

Escólio: O termo alemão be-deuten, escrito em Ser e tempo (Sein und Zeit, Halle, 1927; Max Niemeyer Verlag, Tubingen, 1986), insinua que se lhe está atribuindo uma acentuação forte a partir do étimo principal – deuten = “mostrar, apontar, interpretar”. Na analítica da mundanidade, todo ato e exercício de interpretação, indicação e demonstração se exercem a partir de um mundo já estruturado e estabelecido. Be-deuten = significar que remete então para o “movimento e processo de estruturação do mundo”. A tradução por significar e significância (na derivação de Bedeut-samkeit) visa a que a leitura remonte a esse nível ontológico de constituição da mundanidade. Este o objetivo de meus apontamentos.

Martin Heidegger nasceu a 26 de setembro de 1889 em Messkirch, na “Schwarzwald” (Floresta Negra), Alemanha, e faleceu em 26 de maio de 1976, na mesma Messkirch, então parte da Alemanha Ocidental. Seu pai foi um sacristão católico, incumbido das vestes e dos objetos sagrados, de tocar os sinos e também de cavar as sepulturas no interior do templo. Heidegger mostrou uma preocupação religiosa precoce e teve seu interesse despertado para a filosofia ainda ao tempo de seus estudos básicos, através da leitura do filósofo católico do final do século XIX Franz Brentano. Impressionou-o a psicologia “descritiva”, como é apresentada: “Dos vários significados do Ser de acordo com Aristóteles” – 1862, em alemão: Von der mannigfachen Bedeutung des Seienden nach Aristoteles, de Brentano. De seu estudo inicial de Brentano procede também seu entusiasmo pelos gregos, especialmente os pré-socráticos. Após terminar os estudos básicos, Heidegger entrou para a ordem dos Jesuítas. Como “noviço”, posto que tomasse o hábito recentemente, estudou a Escolástica (filosofia cristã medieval) e a teologia tomista, na universidade de Freiburg.

É seguramente um dos pensadores fundamentais do século XX, pela recolocação do problema do ser e pela refundação da Ontologia, quer pela importância que atribui ao conhecimento da tradição filosófica e cultural. Nascido na pequena cidade de Meßkirch, distrito de Baden, no interior da Alemanha, inicialmente quis ser padre e chegou mesmo a estudar em um seminário. Depois, estudou na Universidade de Friburgo, com Edmund Husserl, o fundador da fenomenologia. Nomeado Privadozent na Universidade de Friburgo l9l5, e em 1916, como tese de habilitação ao ensino universitário, publicou A Doutrina das Categorias e do Significado em Duns Escoto. Mais tarde descobrir-se-ia que a obra de Escoto considerada por Heidegger, isto é, a Gramática Especulativa “não era de Duns Escoto”. Mas isso não tinha muita relevância no pensamento de Heidegger, já que o seu trabalho de pensamento, com os interesses metafísicos e teológicos que dominam, “encontra-se mais no plano teórico do que no plano histórico”. Melhor dizendo, distingue plano de análise de plano de realidade. Leia mais »


Terra Magazine: Quero ser um alienígena

Nelson Pretto é professor e já foi diretor (2000-2004 e 2004-2008) da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia. Membro titular do Conselho de Cultura do Estado da Bahia. Físico, mestre em Educação e Doutor em Comunicação.

Do Terra Magazine 

Nelson Pretto

De Salvador (BA)

Iniciamos 2012 com muitos planos e promessas de mudanças, que vão dos regimes e da malhação dos gordinhos ao compromisso de um melhor estudo dos estudantes, passando pela promessa de menos trabalho dos professores das universidade públicas, estressados pelas políticas produtivistas que assolam nossas universidades e alucinam todos nós.

Enfim, o final e o início de um novo ano é sempre um tempo de pensar sobre os rumos da vida e planeta. Momento de se fazer conexões com o passado, com o presente e com o futuro.

Neste período de férias, tenho o privilégio de estar em lugares que ainda me permitem olhar um pouquinho para os céus, para as estrelas, planetas e tudo mais que consigo ver lá em cima, alem dos aviões de carreira. Fazer algo que, hoje, a meninada urbana só consegue ver pela internet através do googlearth ou similares. Não que eu ache isso algo condenável, muito pelo contrário. São maravilhosas todas estas possibilidades trazidas pelos games e projetos que colocam o céu bem pertinho, na iluminada tela do nosso computador ou telefone celular. Termos a oportunidade de observar um céu estrelado, ao vivo e ali em cima, ou numa telinha aqui na nossa mão, é algo absolutamente fenomenal. É poder contemplar as estrelas e o firmamento, sozinhos ou na companhia de gente querida como os filhos. Uma contemplação que tem muita poesia, mas também, muita ciência. Compreender o que é cada um destes astros, como funciona o universo que vivemos e, mais do que tudo, refletir sobre o nosso papel no mundo contemporâneo, é um exercício muito rico para o entendimento da grandeza do universo e da nossa pequeneza neste espaço e tempo.

Lembro sempre do meu pequeno Davi, que lá pelos seus quatro ou cinco anos, comigo neste mesmo lugar onde hoje estou, que por sorte ainda tem um pouco menos luz do que as grandes cidades, quando admirávamos o céu de uma linda e estrelada noite. Estávamos só nós no gramado, nós dois mirando o céu, deitados no chão e olhando para cima com muita atenção, simplesmente contemplando tudo aquilo, seguindo cada rastro, cada luz, cada movimento ou simplesmente admirando o que parecia estar parado. Era um momento especial pois era o dia que Marte estaria mais perto da Terra e, portanto, mais iluminado, mais exuberante no meios de tantas outras estrelas que lá “piscavam”. Estávamos nesse lugarzinho escuro, silenciosos e respeitosos com o firmamento, quando ele disse ao meu ouvido: “Nelson, você sabe o que eu quero ser quando crescer?” e, meio que sem esperar minha possível resposta que, certamente eu não daria, respondeu de pronto: “um alienígena”!

Ah, querido e pequeno Davi, confundia alienígena com astronauta, típico dos momentos de aprendizagem das primeiras palavras mais difíceis do nosso vocabulário. Mas essa pequena confusão me fez pensar se, na verdade, num ato até premonitório, não estaria ele querendo mesmo ser um alienígena e não apenas um astronauta que, com um olhar já contaminado dos terráqueos, não teria condições de perceber – sem a dita objetividade característica da ciência moderna – o quanto estamos destruindo o planeta. Quem sabe não queria ele, com a ingenuidade dos seus quatro ou cinco anos, ser mesmo um alienígena, que lá de fora pudesse olhar para cá, para o nosso comportamento e, certamente, ficar espantando com as bobagens que fazemos nesse tão belo planeta e universo. Destruímos tudo: as árvores, as águas, os céus. Espalhamos lixo, plástico, consumimos de forma desorientada e tanto mais. Tudo numa visão imediatista, como se desejássemos resolver os problemas de hoje sem pensar um tiquinho nos de amanha.

Este é o ano da Rio+20, Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável (www.rio20.info), que acontecerá em junho no Brasil, trazendo para cá autoridades, ambientalistas e ativistas de todo o mundo, para discutirem os rumos do planeta, 20 anos depois de da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (UNCED) que ocorreu no Rio, e 10 anos após a Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável (WSSD), ocorrida em Johanesburgo em 2002.

Não sei se podemos ter grandes expectativas, mas se mantivermos nosso comportamento ativista, inspirado pelos movimentos de 2011 como a “Primavera Árabe”, “Ocupa Wall Street” e similares, seguramente poderemos pressionar as nações participantes da Rio+20 a assumirem compromissos mais fortes com uma “economia verde para o desenvolvimento sustentável do planeta”, tema da Conferência. Leia mais »


Expansão, Qualidade, Inclusão na UFBA

Por Naomar de Almeida Filho, Professor Titular do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA. Pesquisador I-A do CNPq. Ex-Reitor da UFBA. Artigo publicado originalmente no jornal A Tarde.

Dois trabalhos de conclusão do curso que ministrei na Pós-Graduação em Estudos sobre a Universidade analisaram mudanças do perfil socioeconômico e étnico-racial da UFBA, depois das cotas e do REUNI.

Cora Santana focalizou perfil socioeconômico. Em 2004, último ano sem cotas, 33% dos ingressantes na UFBA vinham de famílias com renda média menor que cinco salários mínimos mensais, sendo 14% muito pobres (menos de três SM). No outro extremo: 37% dos nossos alunos eram de famílias com renda maior que dez SM. Em 2011, 66,4% dos que entraram na UFBA têm menos de cinco SM de renda familiar média. Mais de 45% vem de famílias muito pobres. E no outro extremo da estrutura social: apenas 16% dos novos alunos vieram de famílias com mais de dez SM.

Ana Cristina Melo abordou perfil étnico-racial. Em 2004, 67% dos inscritos no Vestibular da UFBA eram negros (autodeclarados pretos e pardos) e 29% brancos; entre os aprovados, 61% negros e 36% brancos. Portanto, havia uma chance a favor dos brancos de +20% de aprovação no vestibular, enquanto ser negro significava probabilidade negativa de –11% de aprovação. Em 2011, 74% dos inscritos nos processos seletivos eram negros e o mesmo percentual se encontra entre os aprovados na UFBA. Leia mais »


Os AIE revividos. O “present perfect” de Louis Althusser.

Por Ubiracy de Souza Braga, Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

Althusser e Hélène Rytmann Fonte: http://www.pileface.com

É razoável que um sábio apresente uma comunicação perante uma sociedade de sábios (…). Mas sê-lo-ão igualmente uma comunicação filosófica e uma discussão filosófica?” (Althusser, 1970: 11).

Louis Althusser é considerado um dos principais nomes do estruturalismo francês dos anos 1960, juntamente com Claude Lévi-Strauss, na Antropologia, Jacques Lacan, na Psicanálise, Michel Foucault, acerca da “genealogia do saber”, ou Jacques Derrida, do ponto de vista da “metafísica da presença” e outros, como aparece em Elementos de Autocrítica. Porém, entendemos que Althusser não é estruturalista, enquanto aquele que apreende a realidade social como um “conjunto formal de relações”, pois seu pensamento é marcado fortemente por Benedito Spinoza, um dos grandes racionalistas do século XVII, dentro da chamada filosofia Moderna, juntamente com René Descartes e Gottfried Leibniz. Marxista, filiou-se ao PCF em 1948. Foi um filósofo francês de origem argelina como o fora Jean-Paul Sartre. Seu nome nasceu de uma homenagem ao seu tio paterno. Segundo o filósofo, sua mãe pretendia casar-se com esse tio, mas, após a morte deste e apenas em função disso, casou-se com o pai de Althusser. Sem “pai na teoria”, seu nome advém de forma “postiça” no plano psicológico.

Desta forma ele também acreditava ser tratado como um “substituto” do tio falecido pela mãe, ao que ele atribui “um grande dano psicológico”. Após a morte de seu pai, Althusser, sua irmã e sua mãe se mudaram para Marseille, onde ele cresceu. Em 1937 ele se uniu ao Movimento da Juventude Católica representada no “campo afetivo”, pelas ideias de pensadores católicos de esquerda, tais como Jacques Maritain, Emmanuel Mounier e o Padre Lebret tiveram grande acolhida no movimento, ou como no Brasil o padre jesuíta Henrique Cláudio de Lima Vaz (1979; 1992; 2006). Althusser fora um aluno brilhante, sendo aceito na prestigiada École Normale Supérieure (ENS) em Paris.

Entretanto, ele não pôde frequentar a Escola, pois estava convocado para a Segunda Guerra Mundial e, como a maioria  dos  soldados  franceses ou de  “colonização Francesa”, como fora o caso de Frantz Fanon; ficou aprisionado em um Arbeitseinsatz im Osten. Althusser acaba sendo prisioneiro permanecendo no “campo de concentração” até o final da guerra, ao contrário dos demais soldados, que fugiram para lutar – motivo pelo qual Althusser se “puniu mais tarde”. Após o fim da guerra, Louis Althusser pôde frequentar a ENS. Entretanto, sua saúde mental e psicológica estava severamente abalada, tendo inclusive recebido a “terapia de eletrochoques” em 1947. Leia mais »


Sócrates e os dois lados da esfera

Por Charles Carmo

Toda bola é uma esfera e, para além dela, cabe tudo que há no universo.

Seu interior, uma vez menor, não é insignificante, mas um microcosmo de possibilidades e trajetórias. O que nos leva a crer que, se a compreensão da parte de dentro da bola já é uma tarefa de estatura imponente, entender o lado oposto é missão de gigantes.

Magrão, vulgo Sócrates, é um dos poucos e raros jogadores de futebol que entendeu a bola em todas as suas dimensões.

O doutor Sócrates foi-se no mesmo dia que o seu Corinthians sagrou-se campeão brasileiro, como se a história, astuta, não quisesse separar as duas datas.  

Brasileiro e democrata, o doutor foi fundador (e idealizador) da “Democracia Corinthiana”, em um país que vivia uma ditadura militar, criando assim a mais forte e contundente ação política dentro do esporte brasileiro.

O Doutor Sócrates exerceu a cidadania que lutou para ter, com o mesmo afinco dos tempos que ainda a postulava. Foi um brasileiro com relações estreitas com o nosso povo, de quem sempre fez a defesa e com quem convivia.

No futebol, fez parte de uma das mais geniais gerações de esportistas que o mundo já assistiu, a seleção brasileira de 1982.

De calcanhar certeiro, passes precisos e finalização eficiente, o doutor, o Magrão fez a alegria de inúmeras gerações de torcedores, inclusive a minha.

Craque que é craque, domina os dois lados da esfera.

Sócrates dominava.

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Por Mino Carta na Carta Capital

Sócrates, mais único do que é raro

Foto: Jorge Duran/AFP

Sócrates, grande, impagável companheiro, mais único do que é raro.

Enquanto escrevo, tomo um copo de vinho, ele gostaria de saber, faz tempo escasso, um ou dois meses antes de morrer, tomamos juntos de uma garrafa aberta pela jovem apaixonada mulher, intrépida ao lado dele até o fim.

Vinham em Sócrates, na frente, antes de mais nada, o homem e o cidadão, o ser consciente até a medula, incapaz de evitar as implicações mais profundas da vida, inclusive as imponentes responsabilidades de figura pública. Era sua essência política, no sentido mais abrangente, mais completo. Mais vívido e vivido.

A excepcionalidade do talento no trato da redonda, na visão do jogo, na técnica e na tática, como diria Mario Morais, não se discutem, assumem, porém, uma dimensão além de rara, única, insisto na ideia, porque precedidas pela visão ampla, de longo alcance, da própria existência.

O doutor era também professor, e aos leitores de CartaCapital, a começar por este que escreve, ministrou aulas por muitos anos a fio da arte praticada como coube a poucos, e antes disso, de vida.

Sócrates já me faz falta imensa, e faz a todos nós.


PT: sem a reforma política, um caminho sem volta. Por Maria Inês Nassif

O quadro eleitoral pós-ditadura envelheceu rapidamente porque nunca foi novo. Os partidos se rearticularam em torno das mesmas bases eleitorais do bipartidarismo, que por sua vez incorporou as mesmas práticas do quadro partidário que começou a se consolidar a partir de 1946, a redemocratização pós-Getúlio. Fugiu a essa regra, na redemocratização, o Partido dos Trabalhadores (PT). Há nove anos no poder, num regime presidencialista de coalizão que tem o poder de agregar todos os vícios do sistema partidário, e como partido profissionalizado que tem de competir com os demais por financiamento privado de campanha, o PT chegou ao seu limite. Existe uma linha tênue que ainda difere a frente de esquerdas formada no final da ditadura militar do modelito das demais agremiações brasileiras. Aliás, muito sutil. Para o partido da presidenta Dilma Rousseff, a reforma política é uma chance de evitar a vala comum dos partidos tradicionais brasileiros.

Em 1994, quando Fernando Henrique Cardoso foi eleito presidente pela primeira vez, o PSDB era um partido pequeno, de quadros e não apenas com uma vocação definida para a negociação, mas em processo de conformação ao neoliberalismo, que se tornava hegemônico globalmente. Ser governo, nadar em direção ao centro, e posteriormente mais à direita, e contar com quadros que deram sustentação ideológica à mudança de rumos do partido que começou social- democrata, facilitaram as alianças necessárias à composição de uma maioria parlamentar sólida. FHC tinha uma maioria mantida coesa com a ajuda da política tradicional, mas dispunha também de grande convergência de ideias. Fazer um governo do centro à direita , com a característica de unidade ideológica e de similaridade na práticas da política tradicional, foi o achado de estabilidade do governo FHC.

Após a vitória, entretanto, o partido de FHC, com a intenção de amortecer o impacto da aliança com os partidos mais fisiológicos, passou a investir na cooptação de quadros de legendas à sua direita – quadros que não deixaram de ser fisiológicos porque foram para o PSDB, mas, ao contrário, aceleraram a conformação do partido à política tradicional. O PSDB consolidou-se no Norte e no Nordeste graças à ação do “trator” Sérgio Motta que, no comando do partido e do Ministério das Comunicações, fez um trabalho de arregimentação destinado a aumentar rapidamente a bancada e dar maior poder de negociação aos tucanos, na aliança preferencial feita com o então PFL. No Sudeste, o partido comeu o PMDB pelas bordas. No Sul, manteve alguma influência por ter ao seu lado o PMDB.  Leia mais »


As Farc e a utopia de “libertação nacional” – la muerte de Alfonso Cano. Por Ubiracy de Souza Braga

Ubiracy de Souza Braga: Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).
Alfonso Cano, líder das Farc, morto durante operação paramilitar colombiana/EUA.

“A paz na Colômbia não nascerá de nenhuma desmobilização da guerrilha, mas da abolição definitiva das causas que geraram seu nascimento” (Guillermo León Sáenz Vargas).

 A Colômbia é uma República onde o poder executivo (presidência da República) domina a estrutura de governo. O presidente, eleito por voto popular em conjunto com o vice-presidente para um único mandato de quatro anos, serve tanto como chefe de Estado como chefe de governo. O parlamento bicameral da Colômbia é o Congresso, ou Congreso, que consiste de um senado de 102 lugares e de uma Câmara de Representantes com 166 lugares. Os membros de ambas as câmaras são eleitos por voto popular para mandatos de quatro anos. A Colômbia é um membro da Comunidade Sul-Americana de Nações. O sistema judicial da Colômbia sofreu reformas significativas na década de 1990. De acordo com a vigente constituição, de 1991, a Colômbia é um Estado Social, em forma de República Unitária, onde o poder executivo (presidência da República) domina a estrutura de governo.

O poder público encontra-se dividido em três partes, o executivo, o legislativo e o judiciário. O presidente e seu vice são eleitos por voto popular para mandatos de quatro anos. O presidente só pode ser reeleito uma única vez e serve tanto como chefe de estado como chefe de governo. O primeiro presidente a se reeleger depois da nova Constituição foi Álvaro Uribe Vélez. O parlamento bicameral da Colômbia é o Congresso. A Casa de Nariño, situada na capital federal Bogotá, é a sede do governo. Os partidos que atualmente tem representação parlamentaria resultado das eleições para o Senado e a Câmara de Representantes de 8 de março de 1998 são: Partido Conservador Colombiano: o Partido Conservador Colombiano é um partido de centro-direita. É um dos dois partidos políticos tradicionais da Colômbia. Disputou o poder com o Partido Liberal Colombiano desde meados do século XIX até 2002, tempo em que prevaleceu um sistema bipartidário. Desde sua fundação até 1957, a disputa “pelo poder foi  marcada pela violência política e várias guerras civis”. A partir dos anos de 1930 até 2002 manteve-se como a segunda força no Congresso, depois do Partido Liberal, recuperando essa posição em 2010. Atualmente faz parte da coalizão que apoia o governo do presidente Juan Manuel Santos: 1) Partido Liberal: Considerado como reformista moderado. Tendem para “a prática de uma política econômica liberal com conteúdo social”. Considera-se o partido mais representativo dos interesses urbanos e industrial, ainda tem certo apoio nas zonas rurais; 2) Nova Força Democrática: fundada por Andrés Pastrana, também é uma força conservadora; 3) Movimento de Salvação Nacional: foi criado em 1990 e é de tendência conservadora, foi o partido mais votado na Assembleia Constituinte e tem representado a linha mais “doutrinária do conservadorismo”, no sentido que emprega Michael Oakeshott (2000); 4) Aliança Democrática M-19: Fundada em 1990 quando a organização guerrilha M-19 “largou as armas e aceitou a competência eleitoral para conseguir por em prática suas finalidades políticas, se considera de tendência de extrema esquerda”, e last but not least, a União Patriótica: partido de tendência marxista considera-se como o “braço político” das FARC. Leia mais »


Água: compromisso com o desenvolvimento. Por Eva Maria Chiavon

O PAT não é apenas um conjunto de obras. Suas diretrizes estão referenciadas através da Lei Estadual de Saneamento, numa visão sistêmica, para adoção de um manejo sustentável no uso dos recursos hídricos como um bem essencial para a garantia da vida.

O Brasil, juntamente com dezenas de países-membros da ONU, foi signatário de um compromisso conhecido como Objetivos do Desenvolvimento do Milênio (ODM). Dentre as metas, destacamos a redução da pobreza e da fome, a redução da mortalidade infantil e a diminuição para a metade da população que não tem acesso à água potável e esgotamento sanitário.

A Bahia possui quase 70% do seu território no semiárido, região que concentra a maior parcela da população, num quadro de vulnerabilidade econômica e social.

Tomando como referência a repercussão positiva que tem o acesso à água e ao esgotamento sanitário para a melhoria da qualidade de vida da população, o governador Jaques Wagner pactuou o compromisso político, na eleição de 2006, de estabelecer um novo padrão de governança no trato da questão e, já em 2007, lançou o Programa Água para Todos (PAT), com metas e ações em toda a Bahia.

Sem ufanismo, destacamos os dados da Pesquisa Nacional de Amostragem Domiciliar (PNAD) que evidenciam, no período de 2006 a 2009, a redução das taxas de mortalidade infantil na Bahia em 14,6%, a qual vinculamos à melhoria do acesso à água.

O PAT, ao integrar um conjunto de estratégias utilizando uma metodologia inovadora, através de um permanente diálogo com os movimentos sociais e instituições, como a Articulação no Semiárido (ASA), contribuiu para esse resultado, dada a importância dos investimentos em infraestrutura hídrica e saneamento para a melhoria da qualidade de vida.

Desde 2007, implantamos 512 mil novas ligações de água e 222 mil de esgoto. As ações beneficiaram 2,8 milhões de baianos, com recursos da ordem de R$ 2,1 bilhões. Destacamos algumas importantes obras, como a barragem de Cristalândia, em Brumado, dos sistemas de esgotamento e tratamento sanitário nos municípios de Muritiba, Camaçari, Mata de São João e Itacaré, estes últimos importantes pólos de turismo para a Bahia. Além destes, o Projeto Tucano, na região Nordeste do Estado, que beneficiará 95 mil pessoas.

O sucesso ultrapassou as fronteiras do Estado, a ponto de a presidenta Dilma Rousseff incorporar a ideia às ações do Governo Federal, por entender que o acesso à água é condição primordial para a superação da pobreza. Neste aspecto destacamos os números da redução da pobreza na Bahia no período de 2006 a 2009 – 10,6%, acima da média nacional.

Dando continuidade às ações de melhoria da qualidade de vida da população baiana, o Governo da Bahia reafirma o compromisso do Programa Água para Todos com novas e ousadas metas para o período de 2011 a 2014. Nesta segunda etapa, o Programa atuará com linhas de ação cujas metas envolvem a ampliação do sistema de abastecimento de água, a implantação de 445 mil novas ligações, 1.600 sistemas de abastecimento, duas barragens, 100 mil cisternas, 2 mil poços, assegurando a sua universalização na área urbana. A expansão do sistema de esgotamento sanitário beneficiará 2,1 milhões de pessoas na zona rural e urbana, com a implantação de 400 mil ligações de esgoto.

O Programa prevê ainda ações de saneamento ambiental em áreas de assentamento precário em todo o território baiano. Contempla a execução de projetos sócioeconômicos e de preservação ambiental com ênfase na região do semiárido e bacia do Rio São Francisco, beneficiando comunidades tradicionais, ribeirinhas e assentamentos da reforma agrária. O conjunto destas ações e iniciativas beneficiará 4,8 milhões pessoas.

O PAT não é apenas um conjunto de obras. Suas diretrizes estão referenciadas através da Lei Estadual de Saneamento, numa visão sistêmica, para adoção de um manejo sustentável no uso dos recursos hídricos como um bem essencial para a garantia da vida.

Recorro, como um vício incorrigível, à figura inspiradora de Celso Furtado, que assinalava com propriedade que “a pobreza do Nordeste não é consequência da seca, mas do modelo de exploração da região”. Este deve ter como eixo central a valorização do potencial produtivo do seu povo.

Eva Maria Chiavon é Secretária da Casa Civil do Governo da Bahia


Vácuo no poder criará nova guerra civil na Líbia

Por Ubiracy de Souza Braga, sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) e Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

Eles não têm o princípio da democracia. Na prática, eles podem ser tão violentos quanto Kadafi e instaurar outra ditadura no país” (Heni Cukier).

21|02|2011 - O início da revolta em Bengazi, Líbia.

Antigo assentamento de povos tão díspares quanto os fenícios, os romanos e os turcos, a Líbia recebeu seu nome dos colonos gregos, no século II antes da era cristã. Durante grande parte de sua história, a Líbia foi povoada por árabes e nômades berberes, e somente na costa e nos oásis estabeleceram-se colônias. No século XIII a. C., os habitantes da região, participaram das invasões dos povos do mar no Egito. Fenícios e gregos chegaram ao país no século VII a. C. e estabeleceram colônias e cidades. Os fenícios fixaram-se na Tripolitânia e os gregos, na Cirenaica, onde fundaram as cinco colônias da Pentápole. Os cartagineses, herdeiros das colônias fenícias, fundaram na Tripolitânia uma província, e no século I a. C. o Império Romano se impôs em toda a região, deixando monumentos admiráveis (Leptis Magna).

A Líbia permaneceu como província romana até ser conquistada pelos vândalos em 455 d. C. Após ser  reconquistada pelo  Império bizantino,  continuador do romano, a

região passou a ser dominada pelos árabes em 643. Os árabes estenderam a área cultivada em direção ao interior do deserto. Durante pouco mais de três séculos, os berberes almôadas mantiveram o domínio sobre a região tripolitana, enquanto a Cirenaica esteve sob o controle egípcio. Dois séculos mais tarde, o reinado da dinastia Karamanli, que dominou Trípoli durante 120 anos, contribuiu para assentar mais solidamente as regiões de Fezã (ou Fezânia), Cirenaica e Tripolitânia, e conquistou maior autonomia, sendo apenas nominalmente pertencia ao Império Otomano, a região servia de base para corsários, o que motivou inclusive uma intervenção norte-americana, a primeira Guerra Berbere ocorreu entre 1801 e 1805. Em 1835, o Império Otomano restabeleceu o controle sobre a Líbia, embora a confraria muçulmana dos sanusis tenha conseguido, em meados do século, dominar os territórios da Cirenaica e de Fezã (interior do país).

Em 1837, Mohamed al-Sanusi fundou uma organização islâmica clandestina, conhecida como Sanusiya, que promoveu a resistência contra os turcos, tal organização atuava também no Egito. Em 1911, com o declínio do Império Otomano, a Itália declarou guerra à Turquia e invadiu a Líbia sob o pretexto de defender seus colonos estabelecidos na Tripolitânia, desencadeando a Guerra ítalo-turca, como resultado, a Itália ocupou a costa da Líbia em 1911, que era a última possessão turca no Norte de África. A Turquia renunciou a seus direitos sobre a Líbia em favor da Itália no Tratado de Lausanne ou Tratado de Ouchy (1912). A partir da vitória italiana, a seita puritana islâmica dos sanusis liderou na Cirenaica a resistência armada à conquista italiana, dificultando a penetração do Exército italiano no interior.

Com a eclosão da Primeira grande Guerra (1914-18), os italianos ocuparam os portos de Trípoli e de Homs (Al-Khums), no entanto, como os turcos antes deles, nunca conseguiram afirmar sua autoridade plena sobre as tribos sanusi do interior do deserto. Após a guerra, a Itália teve de enfrentar a resistência liderada por Sidi Omar al-Mukhtar, que só terminou em 1931 quando o líder da rebelião foi capturado e enforcado e em 1939, a Líbia foi incorporada ao reino da Itália. A colonização não alterou a estrutura econômica do país, mas contribuiu para melhorar a infraestrutura, como a rede de estradas e o fornecimento de água às cidades. A Sanusiya se mantinha ativa com bases no Egito e na Tunísia e colaborou com os aliados na Segunda Guerra Mundial. Leia mais »


“Atira”. Tenório, no fim, resolveu não atirar. As armas da crítica e a crítica das armas

Por Ubiracy de Souza Braga, sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) e Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).
Tenório Cavalcante segurando “Lurdinha”, sua inseparável metralhadora.

Antes de entrarmos na questão propriamente dita, entendemos que “caudilhismo” é o exercício do poder político caracterizado pelo agrupamento de uma comunidade em torno do caudilho. Em geral, caudilhos são lideranças políticas carismáticas, no sentido weberiano, ligadas a setores tradicionais da sociedade, como militares e grandes fazendeiros e que baseiam seu poder no seu carisma. Muitas vezes, líderes são chamados de caudilhos quando permanecem no governo por mais tempo do que o combinado. O caudilhismo se apresenta como forma de exercício de poder divergente da democracia representativa. No entanto, nem todos os caudilhos são ditadores: às vezes podem exercer forte liderança autocrática e carismática mantendo formalmente a norma democrática.

O caudilho é o líder de um grupo que exerce o seu poder de maneira autoritária, e as relações pessoais do líder com seus adeptos é estreita e emocional. Em geral, tem origens entre representantes das elites tradicionais, como fazendeiros e militares. É comum entre os caudilhos a tendência a se perpetuar no poder, seja por consecutivas reeleições ou por mandato vitalício. Seu carisma, embora nem sempre transferível em caso de sua morte, pode ser estendido para parentes, como esposa e filhos como ocorreu com Papa Doc e seu filho Baby Doc no Haiti e Perón e suas esposas Evita e Isabelita na Argentina. O caudilho pode exercer o poder em todo um país ou apenas numa região ou província assemelhando-se ao coronelismo, no caso brasileiro. Fora do contexto latino-americano, houve também caudilhos na África, como Idi Amin e na Europa, como o Almirante Horthy. O General Francisco Franco, ditador da Espanha entre 1939 e 1975, era tratado oficialmente como caudilho.

Natalício Tenório Cavalcanti de Albuquerque (1906-1987) foi um político brasileiro com base eleitoral no estado do Rio de Janeiro. Tenório na política possuía um estilo político agressivo, muitas vezes violento. Isso lhe rendeu uma aura de mito. Eleito deputado estadual e deputado federal do Rio de Janeiro, tendo quase vencido também para governador do estado, sua vida inspirou o filme “O Homem da Capa Preta”, dirigido em 1986 por Sérgio Rezende e estrelado por José Wilker no papel de Tenório Cavalcanti (cf. Alves, 2003). Leia mais »


Devaneios do corpo que será habitado por sua companhia? Por Ubiracy de Souza Braga

Ubiracy de Souza Braga é sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) e Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

 

Bandeira do Ceará

 

Segundo o teólogo Leonardo Boff, “o equivalente à torcida do Corinthians saiu da linha da miséria, e o equivalente à torcida do Flamengo saiu da linha da pobreza”, para referir-se ao eixo Rio-São Paulo. E Fortaleza quando irá alcançar a 1ª divisão definitivamente? Só quem não entende nada ou quase nada da história política e social do Brasil não vê que isto representa uma grande transformação das estruturas de classe em nosso país a favor dos menos favorecidos. Para ele, a crise da cultura mundial reside na “falta de cuidado”, falta clamorosa no tratamento das crianças e dos idosos, dos ecossistemas, das relações sociais e de nossa própria profundidade. É o “cuidado” que salvará o amor, a vida e nosso esplendoroso planeta Terra. Questão nevrálgica no Ceará, entre outras, refere-se ao “cuidado” de crianças e idosos.

Na Carta da Terra, documento elaborado ao longo de 8 anos, talvez analogamente, como no aprendizado da “arte cavalheiresca do arqueiro Zen” (cf. Herrigel, 1998), envolvendo as bases da sociedade e o melhor do pensamento ecológico, político e ético de 46 países e implicando mais de 200 mil pessoas, visando garantir o futuro do Planeta e da humanidade, e recentemente acolhido pela UNESCO, nesta Carta, o eixo estruturador é a “ética do cuidado”. Ou seja,

“Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro reserva, ao mesmo tempo, grande perigo e grande esperança. Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio de uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos nos juntar para gerar uma sociedade sustentável global fundada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade de vida e com as futuras gerações”. Leia mais »


Fidel Alejandro Castro Ruz faz 85 anos

Por Ubiracy de Souza Braga, sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

Esta noite milhões de crianças dormirão na rua, mas nenhuma delas é cubana” (Fidel Castro).

Fidel Alejandro Castro Ruz nasceu no dia 13 de agosto de 1926, no povoado cubano de Birán, província de Holguin. Seu pai, Ángel Castro Argiz, era um agricultor neste povoado. Fidel Castro foi presidente de Cuba desde a Revolução Cubana (1958-1959), que derrubou o governo pró-americano do general Fulgêncio Batista, até fevereiro de 2008. Esta revolução tinha um caráter nacionalista e socialista, pois recebeu forte influência do “companheiro” Ernesto Che Guevara (conhecido como “Che”) e do irmão de Fidel, Raul Castro. Após a revolução social, Fidel Castro aproxima-se da então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, fazendo de Cuba uma aliada do socialismo na América Latina. Fato que fez com que os Estados Unidos passassem a tratar a ilha como uma perigosa inimiga. Os Estados Unidos, na década de 1960, implantou um bloqueio econômico a Cuba, influenciando também na expulsão do país da OEA – Organização dos Estados Americanos (cf. Gonzalez-Manet, 1990).

Após a revolução, Fidel implantou um sistema socialista na ilha, acabando com a desigualdade social entre os cidadãos cubanos. Implantou uma economia planificada, que contou com o apoio soviético durante a Guerra Fria. Após a queda do muro de Berlim e o fim dos regimes socialistas na Europa Oriental, Cuba começou a passar dificuldades sem os investimentos soviéticos. Atualmente, embora possua um bom sistema educacional e de saúde, os cubanos sofrem com as dificuldades financeiras.  Castro ocupou o cargo de primeiro ministro da República de Cuba de 1959 até 1976. Em 2 de dezembro de 1976, passa a ser o presidente do Conselho de Estado (chefe do Estado) e presidente do Conselho de Ministros (chefe de governo) de Cuba. Além de todos os cargos que acumula no governo, é o primeiro secretário do PCC desde a sua fundação em 1965. Leia mais »


A internet ameaçada

Por Emiliano José na Carta Capital

Está em curso no Brasil uma clara luta política, envolvendo a internet.  Que ninguém se engane: é uma luta política. Há a posição dos que acreditam, como eu e vários outros deputados e deputadas, como Paulo Teixeira, Luiza Erundina, Jean Willis, Manuela D´Avila, Paulo Pimenta  e tantos outros, que primeiro é o caso de garantir a existência de um marco civil garantidor das liberdades, uma espécie de orientação básica do direito humano de acesso à internet, hoje um instrumento fundamental para o desenvolvimento da cidadania, da cultura, da educação e da própria participação política.

E a posição dos que se apressam a procurar mecanismos de criminalização dos usuários da rede, que hoje no Brasil, com todas as dificuldades de acesso, já chegam perto dos 70 milhões. Como pensar primeiro no crime face a essa multidão, e depois na liberdade de acesso? Só os conservadores, interessados em atender a evidentes interesses econômicos, podem pensar primeiro na criminalização e só então nos direitos democráticos dos usuários.

Creio que a internet, tenho dito isso com frequência, é uma espécie de marco civilizatório, que mudou a natureza da sociabilidade contemporânea, a relação entre as pessoas e os povos, mudou a própria política, impactou a própria noção de representação. Constitui um admirável mundo novo, a ser preservado sob um estatuto de liberdades, e não constrangido sob uma pletora de leis criminalizantes. Talvez seja o seu potencial revolucionário, a possibilidade que ela dá de articulação em rede, que provoque urticária nos conservadores. Talvez, não. Certamente. Leia mais »


O significado da universidade brasileira. Ensaio de história política. Por Ubiracy de Souza Braga

Sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

Da Escola de Cirurgia da Bahia (obra de D. João VI) nasceu a Universidade Federal da Bahia.

Detemos a infância quando caminhamos para a morte”.

Cornelius Castoriadis, Les carrefours du labyrinthe, 1978.

Após abrir os portos do Brasil às chamadas “nações amigas” (cf. Aguiar, 1960), D. João VI assinou, em 18 de fevereiro de 1808, o documento que mandou criar a Escola de Cirurgia da Bahia, atual Universidade Federal da Bahia – UFBA, e deu início ao ensino da medicina no país. No mesmo ano, a Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ foi criada pelo príncipe regente D. João, por Carta Régia, ou seja, por decreto, assinada no dia 5 de novembro de 1808, com o nome de Escola de Anatomia, Medicina e Cirurgia, e instalada. Assim, desde a sua progênie a desigualdade social na distribuição de médicos no Brasil acompanha outros abismos sociais existentes no país, como é o caso dos professores universitários e o significado da universidade brasileira para o 3º Milênio (cf. Ribeiro, 1969; 1978; 1993). Leia mais »


Inclusão Produtiva: Oportunidade para a Emancipação

Por Eva Chiavon – Secretária da Casa Civil do Governo da Bahia

Um olhar mais cuidadoso sobre a realidade baiana nos permite inferir que os avanços que a Bahia obteve no plano sócio-econômico, no período de 2007 a 2010, estiveram alicerçados numa definição estratégica. Esta buscou combinar à execução de um conjunto de obras e investimentos em infraestrutura, atração de novos negócios, com o estabelecimento de uma rede de proteção social, através de uma forte parceria entre o Estado, Governo Federal e sociedade civil organizada. Estão traduzidas nas políticas públicas de inclusão social – bolsa-família, valorização real do salário mínimo, apoio a agricultura familiar, programas habitacionais, sem nos descuidarmos da nossa infra-estrutura. A articulação estratégica destas ações solidificou o caminho para um novo ciclo de desenvolvimento, transformando uma ordem social historicamente marcada por desigualdades.

Tais avanços estão ilustrados nos índices de redução da pobreza obtidos pela Bahia – 10,3%, acima da média nacional, que foi de 7% no período de 2006 a 2009. Na geração recorde de emprego, 294.759 novos postos de trabalho no período de 2007 a 2010. Na contratação de 145 mil novas moradias, com foco nas famílias com renda entre zero a três salários-mínimos, em que a Bahia foi campeã nacional.

Em 2011 a Bahia continua acelerando na direção das conquistas sócio-econômicas. No primeiro semestre de 2011, foram 60.742 novos postos de trabalho, algo que representa ¾ da geração de emprego em toda a Região Nordeste. Leia mais »


Franz Kafka e a figura paterna em Praga

Por Ubiracy de Souza Braga, sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), além de Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

 

Fotografia de Franz Kafka tirada em 1906.

František Kafka ou Franz Kafka nasceu em Praga, 1883 e faleceu em Klosterneuburg em 1924. Klosterneuburg é um município da Áustria localizado no distrito de Wien-Umgebung, no estado de Baixa Áustria. A cidade possui uma população de 24 442 habitantes. Está localizada às margens do Danúbio, imediatamente ao norte de Viena. Caso típico europeu a cidade desenvolveu-se com seu monastério. Ela foi fundada por Carlos Magno. O Monastério de Klosterneuburg foi fundado em 1114 por Leopoldo III e sua esposa, Agnes. Desde 1113, é a sede da Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho. O extraordinário monastério está localizado em uma colina acima das margens do Danúbio. Dentro do complexo, encontra-se o famoso Altar de Klosterneuburg, ou “Altar de Verdun”, construído por Nicolas de Verdun, e uma biblioteca com mais de 30 000 volumes e inúmeros manuscritos.

Kafka foi um dos maiores escritores de ficção da língua alemã do século XX. Nasceu numa família de classe média judia em Praga, Áustria-Hungria, atual República Tcheca e cresceu sob as influências pari passu de três culturas: a judaica, a tcheca e a alemã. O corpo de obras suas escritas – a maioria incompleta e publicadas postumamente – destaca-se entre as mais influentes da literatura ocidental. Seu estilo literário presente em obras como a novela A Metamorfose (1915) e romances, incluindo O Processo (1925) e O Castelo (1926), retrata indivíduos preocupados em um “pesadelo de um mundo impessoal e burocrático”. No romance O Processo, Kafka é tão preciso quanto o fora o sociólogo Max Weber em seus “tipos [ideais] de dominação legítima”, onde o real é irracional enquanto racionalidade do real como forma de dominação legítima. Leia mais »


A Crise do Desejo: Amy Winehouse. Por Ubiracy de Souza Braga

Ubiracy de Souza Braga é sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

 

 

Amy Winehouse em um Festival de música na França

O amor está fora da moda nos meios intelectuais” (Roland Barthes, 1995: 318).

Por volta de 2006, as rádios do mundo começaram a tocar exaustivamente as músicas da cantora Amy Jade Winehouse que apresentava uma voz forte, letras intrigantes e uma mistura de blues e soul music de qualidade que há tempos não se ouvia desde os idos de Janis Joplin à la Eric Clapton, por exemplo. Em termos fashion Karl Largerfeld inspirou-se nela para a coleção pré-inverno 2009 da Chanel. A cantora ganhou o mundo ocidental com sua música que, em sua completude estética e artística, com vestidos “retrôs” que deixavam parte da langerie a mostra, cintos enormes e sapatilha de ballet, mas não só interpretava, o que não é pouco, como também compunha letras com uma impressionante capacidade vocal e estilo eternizado que veiculam “atitudes anti-intelectuais”. Foi assim que a cantora britânica virou referência na moda.

Sim, a moda é um lugar de observação privilegiado para ver “funcionar o social” (cf. Lipovetsky, 1989). É apaixonante e cruel, porque descobrem-se coisas que estão na moda em um ano e, no ano seguinte, têm de se renovar para alcançarem uma nova moda. Por outro lado, a moda não é favorável ao mito, porque é demasiado rápida. O mito precisa se instalar, adquirir peso, criar tradições, por isso Amy Winehouse virou mito, já que não vivemos a aceleração da história, mas a aceleração da “pequena história”. É, portanto, precisamente com a crise do desejo que podemos encontrar mitos, porque é fixo, imóvel, agressivo, como fora o mito de esquerda, os ecos da ecologia para salvar a nossa casa, o planeta Terra, a questão tópica do aborto, ou as lutas contra o racismo. O mal-estar e a crise da civilização de que falava Freud, é talvez uma crise do desejo. Leia mais »


“Guerra de Sangue” em Oslo, contra imigrantes e marxistas. Por Ubiracy de Souza Braga

Ubiracy de Souza Braga é Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), além de Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

O irônico, ao contrário, é uma profecia ou uma abreviatura de uma personalidade”. In: Om Begrebet Ironi med Stadigt Hensyn til Socrates, af S. A. Kierkegaard, Kjobenhavn, 1841, SV (1), XIII 95.

O filósofo, professor, cientista político e cientista social norueguês, Jon Elster é autor de mais de uma dezena de livros. Seus estudos têm se direcionado ao processo de construção da Constituição norte-americana e à retração da justiça em países que saíram de um processo de governo autoritário ou totalitário. Em sua conferência no Fronteiras, Jon Elster expôs sua opinião sobre os sistemas eleitorais e os desafios do processo democrático, argumentando que a boa democracia reúne três características: “governança estável, alta taxa de comparecimento nas eleições e autoridades públicas competentes”. Uma das principais fronteiras, para Elster, é o processo eleitoral.

Para ele, a eleição deveria representar a “vontade popular”, mas, não raramente, o vencedor não reflete a preferência da população. O que a Constituição deve fazer é minimizar essa possibilidade. Em sua obra de filosofia e metodologia das ciências sociais do teórico social e político norueguês Jon Elster é o inventor do “marxismo analítico”. Ele acredita que o objetivo das ciências sociais – sociologia, antropologia, economia, política – é o estudo do comportamento humano em sociedade, que seria a causa de todos os fatos e acontecimentos históricos que podem ser observados em uma determinada sociedade. Elster define essa visão como o pressuposto de que todos os fenômenos sociais podem ser explicados pela ação de indivíduos entre si, e que, por isso, além do estudo do próprio comportamento, é preciso saber quais foram as motivações do indivíduo para agir daquele modo, para fazer aquela escolha dita racional. Leia mais »


Lugar de mulher é nas histórias de ação no cinema. Por Ubiracy de Souza Braga

Ubiracy de Souza Braga é Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), além de Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

Em filmes hollywoodianos as bibliotecas e os arquivos de jornais sempre têm o que o protagonista procura. Preciso de uma informação do mais perigoso vilão da cidade, mas onde eu vou encontrar? Os arquivos de jornais têm todas as respostas! Não é segredo que os homens costumam ser os protagonistas dos filmes de ação em Hollywood. E as mulheres? Será que não é o momento de começar a disponibilizar papéis mais atuantes para as mulheres nos filmes de ação, além das tradicionais reféns? A mocinha no cativeiro é sempre anunciada no mesmo ponto: com uma arma na cabeça, pendurada de cabeça para baixo, do lado de fora de um prédio, etc. A ligação telefônica é sempre precedida de um choro ou um grito.

E como clichês têm-se os arquivos do governo ao alcance de todos, algo impossível no Brasil há 10 anos. Não admira que o país esteja em risco. Aparentemente qualquer pessoa, com um computador portátil e uma “conexão sem fio” em um cyber qualquer, ou numa biblioteca pública pode invadir uma base do FBI, tendo acesso a arquivos ultrassecretos. Ou ainda, com a morte na armadilha. Se você capturasse seu inimigo após uma longa caçada, não acabaria com ele imediatamente? Mas não é o que costuma acontecer, eles elaboram planos para torturar e matar suas vítimas com um tubarão na piscina, uma serra que vai cortando a madeira até chegar ao mocinho ou um raio que vai cortando até chegar ao rosto do preso.

Geralmente filmes de ação necessitam dessas cenas para esticar o tempo do filme. Mas sempre tem um solo de saxofone, sem nenhuma exceção. Solo de saxofone quando vai começar uma cena de sexo. Uma tática muito usada em filmes de ação é fazer com que os bandidos sempre errem a pontaria, por dois motivos: para causar certo suspense e também pelo fato de que o protagonista não pode morrer bem no meio do filme. Geralmente os vilões tem uma munição muito limitada. Já o protagonista pode atirar quanto quiser, pois nunca irá faltar chumbo! A bomba relógio sempre tem vários fios. E o protagonista sofre!50 segundos viram 10 minutos. O protagonista só consegue

finalmente desarmar a bomba quando falta 1 segundo para ela explodir. Antes do desfecho, o vilão sempre diz palavras ameaçadoras e conta seus planos mais secretos ao protagonista, que sempre zomba dele. Isto é o que se chama, “conversa de vilão”. Leia mais »


Sociedade e o Pacto Pela Vida. Por Edson Valadares

Edson Valadares é Sociólogo e Coordenador do Fórum Estadual de Segurança do Pacto Pela Vida

Não é de agora que os indivíduos buscam encontrar o caminho da paz. Há tempos a sociedade busca construir pactos, acordos e outros entendimentos para por fim a situações indesejáveis como as guerras, conflitos e todo tipo de violência social.

A teoria mais famosa e polêmica data do século XVII. O filosofo inglês Thomas Hobbes afirma em Leviatã, sua principal obra, que “o maior desejo do homem é o de manter sua vida”. Ele constrói uma teoria para justificar o surgimento do Estado, argumentando que nas sociedades primitivas os homens viviam em estado natural, ou seja, não existiam leis, vigorava uma guerra de todos contra todos e reinava o medo, em especial, o medo da morte violenta.

Diante de uma vida tão intranqüila, o desejo de todos era acabar com as guerras e obter a paz. Para isso, segundo Hobbes, foi necessário que cada indivíduo renunciasse a liberdade de fazer justiça com as próprias mãos e firmassem um pacto social que transferia o direito de autodefesa existente no estado natural para um Estado Civil – guiado pela razão – em troca da garantia de segurança. Ele defendia um Estado soberano, totalitário, titular de todos os poderes.

Com o passar dos tempos, felizmente, assistimos a superação de impérios, monarquias, xerifes e até, na versão brasileira, do coronelismo. Hoje respiramos novos ares e a sociedade civil organizada legitima-se como protagonista do processo de desenvolvimento. O mecanismo é a participação na elaboração e no acompanhamento das políticas públicas, tendo assumindo papel relevante na construção do destino do Estado. Leia mais »


Ita-maremoto e a dimensão econômica do discurso político. Por Ubiracy de Souza Braga

Ubiracy de Souza Braga é Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), além de Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).


A gente só diz sim ou não no casamento e, ainda assim, às vezes erra” (Itamar Franco, 08.06.2008).

O termo discurso pode também ser definido do ponto de vista lógico. Quando pretendemos significar algo a outro é porque temos a intenção de lhe transmitir um conjunto de informações coerentes – essa coerência é uma condição essencial para que o discurso seja entendido. São as mesmas regras gramaticais utilizadas para dar uma estrutura compreensível ao discurso que simultaneamente funcionam com regras lógicas para estruturar o pensamento. Um discurso político, por exemplo, tem uma estrutura e finalidade muito diferente do discurso econômico, mas politicamente pode operar a dimensão econômica produzindo efeitos sociais específicos em termos de persuasão.

Vale a pena recordar que o fator que projetou Fernando Henrique Cardoso (1971; 1973; 1975; 1994; 2006; 20090 para o primeiro plano da política brasileira não foi a robustez, mas, ao contrário, a extrema debilidade do interregno Itamar Franco, quando este ascendeu à Presidência após o impeachment de Fernando Collor. Zélia foi a primeira e única mulher a ocupar o cargo de ministra da Fazenda, empossada em 15 de março de 1990 na posse do primo Fernando Collor na Presidência e deixou o ministério em 10 de maio de 1991.  Zélia Maria Cardoso de Mello  foi a primeira e única mulher a ocupar o cargo de ministra da Fazenda, empossada em 15 de março de 1990 na posse do primo Fernando Collor na Presidência e deixou o ministério em 10 de maio de 1991. Zélia foi a mentora intelectual do Plano Collor, adotado pelo então presidente Collor

Respeitado por sua integridade pessoal, mas aparentemente desorientado quanto aos rumos que deveria seguir na economia, Itamar nomeou Fernando Henrique para o Ministério da Fazenda. Ao fazê-lo, estabeleceu, na prática, um interlúdio parlamentarista, com Fernando Henrique no papel de primeiro-ministro. Filho desse interlúdio, o Plano Real se tornaria o grande cabo eleitoral de Fernando Henrique Cardoso, cuja candidatura

presidencial exorcizou em poucas semanas os temores de “turbulência” financeira e política então associados à hipótese de Luís Inácio Lula da Silva e o PT – Partido dos Trabalhadores virem a controlar o governo federal. Leia mais »


Marx e a Análise Política da Formação da classe média na Europa. Por Ubiracy de Souza Braga

Ubiracy de Souza Braga é Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), além de Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

Não é este corpo que pode ser habitado por uma consciência”. Merleau-Ponty (2006: 470).

Como na vida privada se diferencia o que um homem pensa e diz de si mesmo do que é e faz, nas lutas históricas devem-se distinguir mais ainda as fases e as fantasias de sua formação real e de seus interesses reais, ou o conceito que fazem “para si” (Hegel) do que são na realidade (Marx). Pretendemos precisar a noção conceptual de classe média na história mundial contemporânea. Na medida em que nos últimos 150 anos, milhões de famílias camponesas vivem em condições que as separam umas das outras entre países e nações e opõem o seu modo de vida, os seus interesses e sua cultura aos das outras classes da sociedade, estes milhões constituem uma classe, a classe média. Mas na medida em que existe entre os pequenos camponeses apenas uma ligação local e em que a similitude de seus interesses não cria entre eles comunidade alguma, ligação nacional alguma, nem organização política, nessa exata medida não constituem uma classe e sim a chamada classe média. A tese que defendemos é que “não é este corpo que pode ser habitado como consciência”. A antítese se dá com a formação da classe média.

Ipso facto, são incapazes de fazer valer seu interesse de classe (cf. Weber, 1958; 1992; Lukács, 1960; 1975; cf. Mészáros, 1973) em seu próprio nome, quer através do Parlamento (voto), quer através de uma weltanschauung. Não podem representar-se, têm que ser representados. Seu representante tem ao mesmo tempo em que aparecer como seu senhor, como autoridade sobre eles, como um poder governamental ilimitado que os protege das demais classes. A influência política desta classe, portanto, encontra sua expressão final no fato de que o poder executivo submete ao seu domínio à sociedade. A tradição histórica “originou nos camponeses a crença no milagre de que um homem restituiria a eles toda a glória passada”. Este homem depois de vinte anos de vagabundagem se fez passar pelo nome de Napoleão, em virtude do Code Napoléon que estabelece: “La recherche de la paternité est interdite”.

Esta “proibição de investigação da paternidade” tornou-se ideia fixa da classe média e realizou-se porque a classe média “era a mais numerosa do povo francês” (cf. Marx, 1978).  Mas é preciso que fique claro a perseguição de camponeses por “motivos demagógicos”: a dinastia de Bonaparte representa não o camponês revolucionário, mas o conservador; não o camponês que luta para escapar às condições de sua existência social, a pequena propriedade, mas antes o camponês que quer consolidar a sua propriedade; não a população rural que, ligada à das cidades, quer derrubar a velha ordem de coisas por meio de seus próprios esforços, mas, pelo contrário, aqueles que, presos por essa velha ordem em um isolamento embrutecedor, querem ver-se a si próprios e suas propriedades salvos e beneficiados pelo fantasma do Império. Salve a “classe média”!

Depois que a primeira revolução transformara os camponeses de seu estado de semi-servidão  em proprietários livres, Napoleão confirmou e regulamentou as condições sob as quais podiam dedicar-se à exploração do solo francês que acabava de lhes ser distribuído e saciar sua ânsia juvenil de propriedade. Mas o que, agora, provoca a ruína do camponês francês é precisamente a própria pequena propriedade, a divisão da terra, a forma de propriedade que Napoleão consolidou na França; justamente as condições materiais que transformaram o camponês feudal em camponês proprietário, e Napoleão em imperador. Contudo, duas gerações bastaram para produzir o resultado inevitável: o arruinamento progressivo da agricultura, o endividamento progressivo do agricultor. A forma “napoleônica” de propriedade, que no princípio do século dezenove constituía a condição para a libertação e enriquecimento do camponês francês, desenvolveu-se no decorrer desse século na lei do seu escravizamento e pauperização. Leia mais »


Pela volta das tradições, não do desrespeito: o São João em Cruz das Almas

Era previsível: quem já tinha espadas de fogo não iria jogá-las fora ou entregá-las à polícia. Espada custa caro e ninguém rasga dinheiro, embora, como se vê, há quem queime.

Logo, mesmo com a proibição da tradicional guerra de espadas, um número reduzido de pessoas desafiou a proibição e fez sua festa.

Entretanto, foi visível e robusta a redução do número de espadas soltas na cidade. Isto refletiu diretamente na diminuição dos queimados, feridos e prejuízos causados. Foram 74 feridos este ano, contra aproximadamente 350 no ano anterior. Os números falam por si.

Pela primeira vez uma parcela significativa da sociedade de Cruz das Almas, que desaprova e teme a queima de espadas, pôde sentir-se segura. A coisa era uma brincadeira e uma tradição. Era. Mas perderam o limite e agora toda a sociedade era vítima de uma prática perigosa e que impunha um estado de sítio absurdo e ilegal, além de expor a vida das pessoas, bem maior a ser preservado e superior a qualquer tradição.

As pessoas transitaram na cidade sem medo e o fluxo de gente passando nas casas dos vizinhos, parentes e amigos aumentou. São João passou aí? – perguntavam os libertos, sem maiores temores de sair de casa.

A atitude corajosa do Ministério Público e da Justiça, a despeito de toda reação, deu a esta parcela da sociedade (majoritária, creio) argumentos concretos para afirmar que o São João não acabou com a proibição da queima de espadas nas ruas de Cruz das Almas. Leia mais »


A FAO e a importância da eleição de Graziano. Por Afonso Florence

Afonso Florence é ministro do Desenvolvimento Agrário. Artigo publicado originalmente na Carta Maior.

Neste domingo, serão realizadas, em Roma, eleições para a Direção Geral da FAO. Sigla em inglês da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, a FAO promove ações de cooperação e solidariedade no âmbito da agricultura, desenvolvimento agrário, segurança alimentar e combate à desnutrição, atuando em 191 países.

O Brasil está apresentando um candidato, o Prof. Dr. José Graziano, renomado pesquisador da área, conhecido ativista da causa e que possui uma trajetória dedicada ao avanço da produção de alimentos saudáveis e da política de segurança alimentar. Zé Graziano, como é carinhosamente conhecido nosso candidato, é diretor licenciado da FAO para a América Latina, função que desempenhou com enorme destaque internacional.

Entretanto, além da notoriedade acadêmica e do desempenho técnico de Zé Graziano, sua candidatura tem ganhado numerosas adesões em decorrência do seu papel no primeiro mandato do Presidente Lula, quando arquitetou e liderou a implantação da estratégia governamental de combate à fome. Como Ministro de Segurança Alimentar e Combate à Fome (MESA), coordenou a montagem de uma das mais importantes políticas públicas da história do Brasil, a política de segurança alimentar a partir do Programa Fome Zero, que levou nosso país aos monumentais resultados de redução da fome registrados pelo IBGE. Leia mais »


A crise na Europa e uma esquerda desorientada

A conversão massiva ao mercado e a globalização neoliberal, a renúncia à defesa dos pobres, do Estado de bem estar e do setor público, a nova aliança com o capital financeiro, despojaram a social-democracia europeia dos principais traços de sua identidade. A cada dia fica mais difícil para os cidadãos distinguir entre uma política de direita e outra “de esquerda”, já que ambas respondem às exigências dos senhores financeiros do mundo. Por acaso, a suprema astúcia destes não consistiu em colocar a um “socialista” na direção do FMI com a missão de impor a seus amigos “socialistas” da Grécia, Portugal e Espanha os implacáveis planos de ajuste neoliberal? O artigo é de Ignacio Ramonet, na Carta Maior.

Ignacio Ramonet

Um dos homens mais poderosos do mundo (chefe da maior instituição financeira do planeta) agride sexualmente a uma das pessoas mais vulneráveis do mundo (modesta imigrante africana). Em sua desnuda concisão, esta imagem resume, com a força expressiva de uma foto de jornal, uma das características medulares de nossa era: a violência das desigualdades. O que torna mais patético o caso do ex-diretor gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI) e líder da ala direita do Partido Socialista francês, Dominique Strauss-Kahn é que, se confirmado, seu desmoronamento constitui uma metáfora do atual descalabro moral da socialdemocracia. Com o agravante de que revela, ao mesmo tempo, na França, as carências de um sistema midiático cúmplice.

Tudo isso deixa extremamente indignados muitos eleitores da esquerda na Europa, cada vez mais induzidos – como mostraram na Espanha as eleições municipais e autonômicas do dia 22 de março – a adotar três formas de rechaço: o abstencionismo radical, o voto na direita populista ou o protesto indignado nas praças.

Naturalmente, o ex-chefe do FMI e ex-candidato socialista à eleição presidencial francesa de 2012, acusado de agressão sexual e de tentativa de violação pela camareira de um hotel de Nova York no dia 14 de maio, goza de presunção de inocência até que a justiça estadunidense se pronuncie. Mas a atitude mostrada, na França, pelos líderes socialistas e muitos intelectuais de “esquerda”, amigos do acusado, precipitando-se diante de câmaras e microfones, para fazer imediatamente uma defesa incondicional de Strauss-Kahn, apresentando-o como o principal prejudicado, evocando complôs e “maquinações”, foi realmente vexatória. Leia mais »


45 anos d`A Batalha de Argel, 50 de Monsieur Frantz Fanon

Ubiracy de Souza Braga é Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências junto a Escola de Comunicações e Artes (ECA/USP), e professor da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

 

Frantz Fanon (1925-1961) nasceu na ilha de Martinica, território de ocupação francesa situado na América Central. Ainda jovem, durante a Segunda Guerra Mundial (1940-45), percorreu a África do Norte como soldado. Em 1946, inscreve-se na Faculdade de Medicina de Lyon, na França, e aproveita sua estadia também para adquirir formação, no sentido que emprega Hans Georg Gadamer, em filosofia e literatura, seguindo cursos de Jean Lacroix e de Maurice Merlau-Ponty, bem como, lendo obras de Jean-Paul Sartre, Soren Kierkegaard, Georg W. F. Hegel, Karl Marx, Vladimir Illich Lenin, Edmund Husserl e Martin Heidegger, entre outras. Após terminar o curso de medicina em 1951, retorna a Martinica e mais tarde volta para a África, tornando-se médico-chefe na clínica psiquiátrica de Blida-Joinville. Torna-se argelino engajando-se com os argelinos na luta pela libertação nacional do país que sofria o jugo colonial francês desde 1830. Por várias vezes participou de congressos pan-africanos como membro da delegação da Argélia, tornando-se um importante porta-voz do país. Contraindo leucemia em 1960, continua suas atividades intelectuais vindo a morrer em dezembro de 1961, mas a batalha de Argel correrá no ano seguinte, em 1962.

A independência da Argélia, ou as chamadas revoluções de Independência, melhor dizendo, as “lutas da Independência latino-americana entre 1810-1824”, a comum e maciça escravidão negra, pesado neocolonialismo, mosaico de religiões e culturas, já que o Haiti se tornou a primeira república negra livre das Américas, exemplo duplamente intolerável e incômodo, numa zona ferozmente colonizada – cuja descolonização até hoje, sem temor a erro ainda não terminou, se levarmos em conta a mudança de simbólica entendida como “terceira colonização”- na expressão de Efrain Ruiz Caro (1990), como é sabido, membro de uma antiga família de Cuzco que precocemente iniciou sua carreira para fazer parte da redação jornalística do novo tabloide Última Hora, onde descobriu que sua vocação não era o estudo de engenharia, tal como ocorrera no caso de Euclides da Cunha, para concordar com Evaristo de Moraes Filho, em seu Medo à Utopia (1985) mal comparando, razão pela qual havia sido enviado a Lima. Talvez por essa razão tenhaobtido a oportunidade de aplicar sua grande experiência na edição do famoso Libertad periódico do Movimento que integravam também, entre outros, Alberto Ruiz Eldredge, os irmãos Augusto e Sebastião Salazar Bondy, Santiago Agurto, Francisco Moncloa, Germán Tito Gutiérrez, Humberto Damonte, todos “jovens intelectuais decididos pela revolução socialista pela via democrática. Leia mais »


Darcy Guimarães Ribeiro, Antropólogo das Civilizações

O antropólogo Darcy Ribeiro foi aquele que num projeto ambicioso em seus estudos de antropologia da civilização mais contribuiu, nos dias de hoje, para precisar o conceito de “processo civilizatório”. Por Ubiracy de Souza Braga é sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), professor da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e Lucio de Almeida Santos Rocha, sociólogo e Cientista Político. Professor da Faculdade Evolutivo (Face). Analista de Risco Político.

Darcy Ribeiro e um amigo indígena

Por Ubiracy de Souza Braga e Lucio de Almeida Santos Rocha

Dedico à Jamile (de Salvador), Kossi ewe, Kossi orixá

“Termino esta minha vida exausto de viver, mas querendo mais vida, mais amor, mais saber, mais travessuras”.

Darcy Guimarães Ribeiro, “Prólogo”. In: Confissões. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

O antropólogo Darcy Ribeiro foi aquele que num projeto ambicioso em seus estudos de antropologia da civilização mais contribuiu, nos dias de hoje, para precisar o conceito de “processo civilizatório”. Em sua démarche intelectual transita à vontade tanto pelos caminhos ocidentais como pelas veredas do mundo tribal amazônico, ou pelos corredores de mais de dois “palácios de governo”. Seu compromisso é vital, não setorial; produz-se na cátedra, na prolongada e boa convivência com os índios, na criação de universidades, dentro e fora do Brasil, como ministro da Educação ou como chefe da Casa Civil, como preso político, nas peregrinações do exílio, e finalmente, como romancista com “Maíra”(1975) e “O Mulo”(1987) onde prepara o terreno para sua etnobiografia antevista em “Ensaios Insólitos” (1979), “Utopia Selvagem” (1982), “Testemunho” (1991) ou, como consta no Prólogo de seu derradeiro livro Confissões (1997; 585 páginas).

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A polêmica língua portuguesa: o caso dos livros didáticos

Do Cloaca News

NÓS ROUBEMO AS PALAVRA DE OUTRO BLOG


“Por uma vida melhor”: por que abolir os conceitos de “certo” e “errado”

Por Daniela Jakubaszko*, do blog Mulheres de Fibra

A polêmica que se criou em torno do livro Por uma vida melhor, da coleção Viver, aprender, adotado pelo MEC, é inútil e representa um retrocesso para a Educação.

Como lingüista e professora de português defendo ardorosamente a utilização do livro. Vou explicar, mas antes faço alguns esclarecimentos:

1. A escola é o lugar por excelência da norma culta, é lá que devemos aprender a utilizá-la, isso ninguém discute, é fato.

2. O livro NÃO está propondo que o aluno escreva “nós pega” – como estão divulgando por aí – ele está apenas constatando a existência da expressão no registro “popular”. Do ponto de vista cotidiano, a expressão é válida porque dá conta de comunicar o que se propõe. E ela é mais que comum e, sejamos sinceros, é a linguagem que o leitor dessa obra usa e entende. Será que é intenção da escola se comunicar com ele de verdade? Se for, ela tem que usar um livro que consiga fazer isso. Uma gramática cheia de exemplos eruditos e termos que o aluno não consegue nem memorizar, com certeza, não vai conseguir.

3. O que o livro está propondo é trocar as noções de “certo” e “errado” por “adequado” e “inadequado”. E isso é mais que certo. Vou explicar a seguir.

4. A questão é: como ensinar a norma culta num país de tradição oral, e no qual existe um abismo entre a língua oral e a língua escrita? Como fazer isso com jovens adultos – que já apresentam um histórico de “fracasso” em seu processo formal de educação e, muito provavelmente, na aquisição dos termos da gramática e seus significados. Se esse jovem não assimilou até o momento em que procurou o EJA (Educação de Jovens e Adultos) a “concordância de número”, como o professor vai fazê-lo usar a crase? Isso para mencionar apenas um dos tópicos mais fáceis da gramática e que a maioria das pessoas, inclusive as “mais cultas e graduadas”, algumas até mesmo com doutorado, ainda não sabem explicar quando ela é necessária. Leia mais »