domingo, 5 de fevereiro de 2012

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UFRB: sonho realizado. Por Emiliano José

Artigo publicado originalmente no jornal A Tarde (25/04/2011). Por Emiliano José, jornalista, escritor e deputado federal (PT-BA)

Lula inaugurou a UFRB. Com ela, uma nova realidade para o Recôncavo

A Universidade Federal do Recôncavo (UFRB) é hoje uma impressionante realidade. Com pouco mais de cinco anos, já é parte da vida da Bahia e especialmente uma instituição que sacudiu a existência dos moradores do Recôncavo. Educação, cultura, desenvolvimento, crescimento econômico – a UFRB chegou para mostrar o quanto uma universidade traz de impactos positivos não só para os seus alunos, principais beneficiários dela, mas para toda a população.
Seus professores, funcionários e estudantes devem sentir-se justamente orgulhosos do que construíram até agora e têm a responsabilidade de seguir fazendo dela, cada vez mais, uma casa de ensino, pesquisa e extensão, e, também, uma casa da cidadania, porque a universidade, antes de tudo, antes de formar profissionais de qualidade para atuar no mercado, forma cidadãos conscientes de seus direitos e deveres com o seu País, com a humanidade. O Recôncavo hoje é outro com a presença da UFRB.

Amargosa, Cachoeira, Cruz das Almas, Santo Antonio de Jesus sentiram positivamente a presença da UFRB. Brevemente, Santo Amaro terá um campus também. E esperamos que outros município sejam também agraciados.
E eu me lembro que quando das primeiras discussões sobre a UFRB, havia os que, acostumados à paralisia em que vivia a Bahia com a oligarquia que nos dominava, diziam que aquilo era uma idéia impossível de se concretizar, o argumento costumeiro dos que pretendem barrar todos os sonhos. De fato, era um sonho ousado, pois queria a implantação de uma universidade multicampi, com presença em diversos municípios do Recôncavo e redondezas. Havia até os que concordavam com a criação da Universidade, mas que ela ficasse reduzida ao município de Cruz das Almas, onde já funcionava a Escola de Agronomia, vinculada à UFBA.

E o importante é que o surgimento da UFRB foi consequência de um impressionante processo de mobilização do povo de todo o Recôncavo e adjacências. Foram mais de 50 reuniões e audiências públicas, com a participação de milhares de pessoas. Tive a satisfação de participar de algumas delas. O atual reitor, Paulo Gabriel, foi uma das mais destacadas lideranças desse processo. Isso não podemos desconhecer por dever de justiça. A UFRB está apenas começando, mas, nesse começo, já é possível antever o destino de uma universidade capaz de participar ativamente das impressionantes e aceleradas transformações científicas, culturais, ambientais e sociais do mundo de hoje.

Tenho convicção de que a UFRB é uma espécie de despertar. A Bahia tem que continuar a luta para ter mais universidades federais. Minas Gerais, um estado muito assemelhado à Bahia em tamanho e população, já possui mais de dez universidades federais. A vida política anterior, com uma oligarquia paralisante e retrógrada, impediu que tivéssemos mais de uma universidade. A UFRB é a primeira integralmente baiana depois da UFBA. A Univasf, que surgiu antes, nós a dividimos com Pernambuco.

Queremos que aconteça logo a Universidade do Oeste. Estão sendo dados os primeiros passos para a implantação de um campus da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afrobrasileira (Unilab) em São Francisco do Conde. E por que não uma Universidade Federal do Sertão? Uma Universidade Federal da Chapada Diamantina? Uma Universidade Federal do Extremo Sul? Uma Universidade Federal do Vale do Paramirim? Uma Universidade Federal da Região Metropolitana? Uma Universidade Federal do Sudoeste?

Que se atenda às demandas dos quatro cantos da Bahia por novas universidades federais, para além da importância das universidades públicas estaduais, que também devem ser tratadas com imenso carinho. Alerto que isso só será possível com a mobilização da sociedade, tal e qual ocorreu com a criação da UFRB.

O reitor Paulo Gabriel e toda sua equipe, professores e funcionários, estão de parabéns pelo que construíram até agora e pelo que estão desenhando para o futuro. Mostraram que os sonhos só são realizáveis quando há os que lutam por eles. Lutaram o bom combate. E hoje o povo colhe os frutos. O povo do Recôncavo e de toda a Bahia. Os que apostaram na paralisia ficaram para trás.

 


Brincando com fogo. Por Emiliano José

Emiliano José é jornalista, escritor e deputado federal (PT-BA). Artigo publicado originalmente no Jornal A Tarde no dia 28/03/2011.

A tragédia japonesa obriga a humanidade a repensar sua caminhada. Maneira de dizer. Talvez um pensamento desejoso, só isso. Não sei se ela se sentirá obrigada. Não sei se o modo de produção dominante, inegavelmente capitalista, tem condições de absorver a noção de que todos perdem com a continuidade da lógica que tem presidido o desenvolvimento mundial. Lembro-me de um título de um livro, parece-me que de Italo Calvino, Seis lições para o próximo milênio.

Aproveito só o título para lembrar que uma das lições poderia ser a de que devagar se vai ao longe. O ritmo que o capitalismo impôs é o da velocidade, o do desenvolvimento desenfreado das forças produtivas, que poderia também ser denominada, pelo capitalismo, de destruição criativa. Uma briga acirrada entre o homem e a natureza, que deve terminar, e não me digam apressadamente tratar-se de uma visão apocalíptica, com a derrota de todos, e principalmente da humanidade. Esse ritmo de desenvolvimento incessante das forças produtivas, não custa lembrar, foi celebrado até pelo próprio Marx. Marshall Berman registra isso.

Tudo vale em nome do progresso. Não importa a destruição que provoque. Esse produtivismo cego nos levou a desastres variados, e não falo apenas daqueles gerados pela era nuclear. Antes que essa era ganhasse força, ou poucos antes da bomba atômica, um intelectual marxista bastante heterodoxo, vinculado à chamada Escola de Frankfurt, Walter Benjamin, já dizia do parentesco indissociável entre progresso e barbárie ou entre civilização e barbárie. Dizia, lá pelos anos 30, que se a humanidade olhasse para trás veria o gigantesco desastre que estava deixando atrás de si, as montanhas de detritos que se acumulavam século após século. Os rastros de barbárie que o progresso deixava atrás de si. Leia mais »


WikiObama: como é conduzido o governo dos EUA. Por Reginaldo Nasser

Em documentos revelados pelo WikiLeaks tomamos conhecimento de ações do governo norte-americano e seus lobbies para combater a lei do pré-sal e que a Casa Branca pressionou autoridades ucranianas para obstaculizar o desenvolvimento do projeto conjunto Brasil-Ucrânia de implantação da plataforma de lançamento dos foguetes. Portanto, já é hora pararmos com essa ladainha de visita simbólica ou de início de uma nova parceria estratégica. O artigo é de Reginaldo Nasser e foi publicado originalmente no site Carta Maior.

Qual é o real significado, em termos de política externa, da visita do presidente da república imperial? Até que ponto devemos levar em consideração a sua fala? Em 2009, Obama fez o famoso discurso do Cairo que deverá entrar para a história da diplomacia como um dos mais importantes exercícios de retórica, pois o apoio aos ditadores e a Israel continuou como nunca. Como esquecer da carta que enviou ao Presidente Lula instando o Brasil a trazer o Irã para a mesa de negociação e dias depois condenar a “aproximação” dos dois países? Nesse sentido, creio ser apropriado relembrar os ensinamentos do sociólogo alemão, Max Weber, em texto publicado no início do século XX. Weber advertia que aquele que realmente quisesse encontrar o verdadeiro poder do Estado, não deveria dar tanta relevância para os discursos parlamentares ou para as falas dos presidentes, mas sim observar a forma como é conduzida a administração rotineira do Estado.

Que tal uma passada de olhos sobre os acontecimentos dessa semana e verificar a “rotina imperial” ( 12 a 19 de março)?

Após a derrubada de Mubarak, Obama disse que “era a força moral da não-violência, e não a violência, a força moral que dobrou o arco da história para a justiça”. Entretanto o Pentágono e o lobby da indústria de armas dobraram o arco da história contra os manifestantes pró-democracia no Bahrein. Pode ser mera coincidência, mas é curioso constatar que, após viagem do Secretário de Defesa, Robert Gates, ao Bahreim no dia 11 de Março a Arábia Saudita enviou tropas para aquele pais dando maior consistência ao processo contra-revolucionário com extrema violência.

Os seis Estados membros do Conselho de Cooperação do Golfo (Bahrein, Kuwait, Omã, Qatar, Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos) têm fortes ligações com o Pentágono desde os anos 1990. Receberam dos EUA nos últimos quatro anos grandes quantidades de material militar (veículos blindados, aviões, metralhadora e munições) no valor de US $ 70 bilhões. O circulo de poder entre a indústria militar, os Estados do Golfo e o Pentágono inclusive asseguraram uma mudança da doutrina de “mudança de regime “, como no Egito ou Tunísia, para “alteração de regime” a fim de garantir o atual governo. Leia mais »


Por um Metrô Metropolitano até Camaçari

Por Bira Corôa

A extensão do Metrô de Salvador até Camaçari e Polo Petroquímico pode parecer uma ideia esdrúxula e de custo elevado, mas não é. Uma via sobre trilhos que parte da Calçada em Salvador e passa a 1.500 m da futura Estação de Metrô de Pirajá. Esta mesma via segue até Camaçari e daí ao Polo Petroquímico e prossegue até Alagoinhas, numa extensão total de 123 km. Para o Trem Suburbano alcançar o Metrô basta uma alça ferroviária – “é um pulo”!

É evidente que melhoramentos nesta via tem que ser feitos, além de alguns acréscimos como a construção de estações e dois grandes Terminais Intermodais: um em Simões Filho/BR–324 e outro no Polo Petroquímico. A ligação desta via com o metrô se dará com a extensão do trem suburbano até uma das duas estações mais próximas: Pirajá ou Juá, passando pelo Bairro de Marechal Rondon, numa extensão entre 2 a 3 km de via nova.

Tomei conhecimento desta ideia quando ainda era vereador em Camaçari (2003 e 2004), apresentada por um engenheiro baiano Especialista em Transportes, com grande experiência ferroviária. Este, também, um militante do meu partido, mas que foi até minha presença levado por membros do Movimento VERDE Trem. Leia mais »


Lições das multidões árabes. Por Emiliano José

Não se queira tolher participações populares. É inútil. Há uma torrente globalizada, de uma sociedade em rede, de pobres que se articulam, de multidões que não se conformam mais em ficar à margem do destino do território onde vivem, em ficar à margem da história. Não se trata de uma profecia. Nem deve assustar ninguém. Emiliano José é jornalista, escritor e deputado federal (PT-BA). Este artigo foi publicado originalmente no site da revista Carta Capital.

 

Na charge do Latuff, árabes plantam a liberdade.

Quando tínhamos todas as respostas, mudaram as perguntas. A frase foi recolhida de um muro de Quito por Eduardo Galeano, e está em seu saboroso Palavras Andantes, e tem o condão de nos colocar diante do mundo de hoje, do atual mundo, atualíssimo mundo, e suas revoluções. Tínhamos, queríamos ter, todas as respostas, especialmente nós, de esquerda, acostumados a alguma regras que os manuais nos ensinavam, e que agora vão sendo subvertidas pela realidade, dura e maravilhosa realidade dos povos em luta. As multidões não leram os nossos manuais. E as nossas regras, coitadas, tão perfeitas, perderam atualidade. Ou não? Quem sabe…

A direita, também, e mais do que nós da esquerda, anda tonta. Desde que Fukuyama andou falando besteiras em tempo de sucesso do neoliberalismo. Se é verdade que a história não caminha para nenhum fim predeterminado e glorioso, como imaginávamos nós em tempos não tão remotos, também é absolutamente verdadeiro que a história não terminou, como imaginou Fukuyama no seu delírio e prostração diante do deus mercado.

As insurreições dos países árabes revelam não apenas o admirável mundo novo das novas tecnologias, mas a vontade política das multidões a sacudir as nações, subverter ordens, suscitar novas perguntas, desafiar o pensamento revolucionário e democrático da humanidade.

No pensamento ocidental, havia quase que uma sacralização da ordem árabe, de suas estruturas autoritárias, como se nada pudesse perturbá-la ou como se uma eventual perturbação político-social nunca pudesse ultrapassar a lógica interna de suas culturas, como se a democracia não pudesse contaminar aquele mundo. Entre nós havia até uma aceitação quase passiva de práticas profundamente desumanas e contrárias aos direitos humanos mais elementares, e cito o tratamento dado às mulheres. Não tenho ilusões sobre mudanças súbitas na concepção de vida árabe, porque as coisas nunca se dão assim. A cultura é bela e é resistente. Mas, as revoluções árabes nos permitem dizer com tranqüilidade que nada será como antes. No mundo árabe e no restante do mundo. Leia mais »


Revolta árabe: o colapso da velha ordem do petróleo

Considere o recente aumento nos preços do petróleo apenas um tímido anúncio do petro-terremoto que está por vir. A velha ordem que sustenta o petróleo está morrendo, e com o seu fim veremos também o fim do petróleo barato e de fácil acesso – para sempre. Mesmo que a revolta não alcance a Arábia Saudita, a velha ordem do Oriente Médio não pode ser reconstruída. O resultado será um declínio de longo prazo na disponibilidade futura de petróleo para exportação. Um exemplo: três quartos dos 1,7 milhões de barris produzidos diariamente pela Líbia foram rapidamente tirados do mercado conforme a agitação tomou conta do país. O artigo é de Michael T. Klare.

 

Charge do Latuff.

Michael T. Klare – Tomdispatch.com, por meio da Carta Maior.

Qualquer que seja o resultado dos protestos, levantes e rebeliões que agora varrem o Oriente Médio, uma coisa é certa: o mundo do petróleo será permanentemente transformado. Considere tudo que está acontecendo agora como apenas a primeira vibração de um petro-terremoto que irá sacudir nosso mundo em suas bases.

Por um século, voltando até a descoberta de petróleo no sudoeste da Pérsia, antes da Primeira Guerra, forças ocidentais têm repetidamente promovido intervenções no Oriente Médio para garantir a sobrevivência de governos autoritários dedicados à produção de petróleo. Sem tais intervenções, a expansão das economias ocidentais após a Segunda Guerra e a atual abundância das sociedades industriais seria inconcebível.
Aqui, porém, está a notícia que deveria estar na capa dos jornais em todos os lugares: a velha ordem que sustenta esse petróleo está morrendo, e com o seu fim veremos também o fim do petróleo barato e de fácil acesso – para sempre.

O fim da era do petróleo
Vamos tentar medir o que exatamente está em risco nos tumultos atuais. Para começar, não há praticamente chance alguma de fazer justiça completa ao papel fundamental que o petróleo do Oriente Médio representa na equação de energia do planeta. Embora o carvão barato tenha originalmente movido a Revolução Industrial, sendo o combustível das estradas de ferro, navios a vapor e fábricas, o óleo barato fez possível o automóvel, a indústria da aviação, os subúrbios, a agricultura mecanizada, e uma explosão de economia globalizada. E enquanto umas poucas principais região de produção deram início à era do petróleo– EUA, México, Venezuela, Romênia, a área próxima a Baku (então parte do Império Russo) e as índias Orientais Holandesas – é o Oriente Médio que tem satisfeito a sede de petróleo do planeta desde a Segunda Guerra.

Em 2009, o ano mais recente para o qual existe dados, a BP relatou que os fornecedores no Oriente Médio e norte da África conjuntamente produziram 29 milhões de barris por dia, ou 36% do produzido no planeta – e nem mesmo isso começa a sugerir a importância da região para a economia baseada em petróleo. Mais que qualquer outra local, o Oriente Médio tem canalizado sua produção para a exportação, de modo a satisfazer as necessidades de energia de poderosos importadores de petróleo como os EUA, China, Japão e União Europeia. Estamos falando de 20 milhões de barris destinados aos mercados internacionais a cada dia. Compare isso com a Rússia, o maior produtor individual, com sete milhões de barris destinados a exportação, com o continente africano e seus seis milhões, ou a América do Sul com apenas um milhão.  Leia mais »


A imprensa que deseduca

Quando erra é analfabeto, quando acerta é burro: aspas a serviço do preconceito.

“O preconceito existiu até para eu chegar aqui, mas foi o povo que me colocou aqui e a voz do povo é a voz de Deus”, afirmou Tiririca ao ensinar aos doutos da Folha o princípio da soberania popular.

Tiririca teve um milhão de votos, mas na grande imprensa temos iluminados que classificam os votos válidos em legítimos e ilegítimos, incluindo os de Tirririca na segunda categoria e lhe negando qualquer prerrogativa parlamentar, inclusive a que lhe faculta o direito de ingressar na Comissão de Educação e Cultura, cargo que acreditam ser vedado aos artistas de circo “analfabetos”, como Tiririca.

Tiririca sofre com a violência psicológica do PIG.

Não obstante,  o “analfabeto” lembra que o povo é quem o elegeu e que, portanto, ele é um parlamentar como qualquer outro.

Tiririca entendeu o princípio da soberania popular muito mais rápido que os “espertos” do PIG que ainda ignoram o sentido da democracia representativa.

Tiririca, legítimo representante da cultura nacional, promete atuar em defesa dos circos.  O PIG acha graça, mas ele ensina novamente:

“Humor é lá fora. Vocês confundem”.

Sempre confundiram, digo eu.

Por Charles Carmo

 

 

 

 

 

 

 

 


CARNAVAL, CARNAVAIS, E AINDA EXISTE VIDA. Por Sérgio Guerra

Sérgio Guerra é Mestre e Doutor em História Social. Escritor, sindicalista e militante político é professor da rede pública e privada há 40 anos. Sérgio Guerra também é professor da Universidade Católica do Salvador e da Universidade do Estado da Bahia (UNEB).

 

A praça é do povo, como o céu é do avião: os outros carnavais. Foto:liciafabio.uol.com.br

Nesta época do ano não se pode deixar de falar no carnaval, independentemente do gosto ou das preferências pessoais. Entretanto para nós, os super-sex (sexagenários, bem entendidos, como bem já disse Carlinhos Brown) existe uma grande tendência ao saudosismo, nos levando a ver tudo como uma mesmice, pornográfica e mercantilista. Não pretendo entrar nesta, pois após levar 50 anos cantando “Aláh! Lá. Ô! Ô!Ô!Ô!” ou mesmo “Ô jardineira por que estás tão triste? ”, não me sinto muito autorizado em falar de mesmice. Nem muito menos de criticar a juventude de imoral, erotizada, nem pornográfica, pois me lembro muito bem do velho Seu Ramos, pontificando, para o neto Quarentinha, meu parceiro e irmão: “Vocês estão confundindo liberdade com libertinagem!”.

O fato é que, à primeira vista, o carnaval de Salvador parece condenado a viver cada vez mais entre apertos, cordas e camarotes, sendo dividido claramente em ricos e pobres, formando verdadeiros guetos, separando brancos de negros, por seguranças, à vezes, quase sempre também negros, como bem descreveu Caetano, no seu Haiti, cada vez mais aqui. Destarte, acima de tudo, também existem parafernálias tri-elétrico-eletrônicas sufocando a música popular e explodindo em novos pobres ouvidos, em volumes estratosféricos e decibéis infernais, inviabilizando qualquer convivência social ou possibilidade criativa dos pequenos grupos. Leia mais »


Globo x Tiririca: um caso de bullying

No Jornal Nacional desta sexta-feira (26/02), William Bonner dá a notícia, como se esta fosse digna de nota: o deputado federal  Tiririca ingressou na Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados.

O texto, salpicado de sutileza, mal disfarça a indignação pelo fato.

Qual o motivo deste assunto ganhar a telinha global em horário nobre?

Respondo: preconceito e arrogância.

Na notícia está implícita a indignação da Globo pelo fato de uma pessoa com baixa escolaridade pertencer aos quadros da Comissão de Educação e Cultura.

O problema é que com mais de um milhão de votos, Tiririca não é mais deputado que ninguém. Entretanto, também não é menos parlamentar que nenhum de seus colegas.

O deputado Tiririca tem todo o direito de ingressar na Comissão que lhe aprouver, dentro das vagas disponíveis de seu partido.

A perseguição da imprensa ao deputado Tiririca passa de qualquer limite. Se quiser atuar em prol da cultura, em defesa dos circos, como prometeu após sua vitória, o deputado está no lugar certo.

A Globo pretende constranger a atuação de um deputado federal, eleito com mais de um milhão de votos. Novidade nenhuma para quem fez isto até com um Presidente da República.

Para o PIG, Tiririca não passa de um “mero analfabeto” que nunca será um “verdadeiro deputado”. Eles teimam em repetir: “analfabeto, analfabeto”.

Isto que a Globo e parte da imprensa está fazendo tem nome:  bullying ou violência psicológica.

O caso é de desrespeito com a democracia, com o deputado Tiririca, os eleitores e ainda os verdadeiramente analfabetos, que são humilhados pela imprensa e tratados como se não tivessem saber algum.

A Globo, com toda a pose, nunca chegou sequer a entender as lições do mestre Paulo Freire. Por isso ela agride o deputado Tiririca.

Resta-nos então a pergunta: quem é o ignorante nesta história?

Por Charles Carmo


A Irmandade Muçulmana: história & ordem política

Ubiracy de Souza Braga é sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), Doutor em Ciências (USP) e professor da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

Por Ubiracy de Souza Braga

As ideias de Mawdudi influenciaram fortemente Sayyid Qutb no Egito. Qutb foi um dos principais filósofos do movimento da Sociedade de irmãos muçulmanos, que in statu nascendi ocorre no Egito em 1928; foi banida, mas continua a existir na ilegalidade, após confrontações com o então presidente Egípcio Gamal Abdel Nasser, que mandou executar Qutb e muitos outros. A irmandade muçulmana fundada por Hassan al-Banna defendia um regresso à charia, chariá, xaria ou xariá: em árabe شريعة, também grafada sharia, shariah, shari’a ou syariah, “é o nome que se dá ao código de leis do islamismo” (cf. Knut, 2005; Gibb, 2005). Entretanto, o termo charia deriva do verbo árabe “shara’a”, em árabe: شرع, que está ligado à ideia de um “sistema de lei divina”, um “caminho de crença e prática” (cf. Corão, 45: 8). Em português, xariá “é a forma preferencial”, segundo o dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (1999) que também admite a variante chariá.

Em várias sociedades islâmicas, ao contrário da maioria das sociedades ocidentais dos nossos tempos, não há separação entre a religião e o direito, todas as leis, sendo religiosas e baseadas ou nas escrituras sagradas ou nas opiniões de líderes religiosos, tendo em vista o que era por eles percebido como a incapacidade de “os valores ocidentais assegurarem a harmonia e a felicidade dos muçulmanos”. A Irmandade Muçulmana, em árabe: جمعية الأخوان المسلمون ,ou, jamiat al-Ikhwan al-muslimun, literalmente; em português, Sociedade de Irmãos Muçulmanos, é uma ordem islâmica fundamentalista. Enfim, a charia é, atualmente, a lei religiosa mais utilizada, e um dos três sistemas legais mais comuns do planeta, juntamente com a common law anglo-saxônica e o sistema romano-germânico.

Destarte, a perplexidade causada por essa conjuntura política como analisei no ensaio “Egito: A grande peça do tabuleiro de xadrez do Oriente Médio?” (cf. Blog da REA: http://espacoacademico.wordpress.com/2011), no sentido que Marx opera desde o ensaio 18 Brumário (1850) à Luta de Classes em França (1871), conforme entendemos, mas para o que nos interessa, onde entra “em cena” o fundamentalismo, tem como background a weltanschauung que o Ocidente tem como parti pris o Iluminismo que tornava a razão o divisor de água entre o “mundo sagrado”, condenado a ficar subsidiário na história, como aconteceu com a Rainha da Inglaterra para o moderno poder político inglês, e o “mundo profano”, hegemônico, tendo afastado toda manifestação de vida religiosa ou para alguns, religiosidade transcendental da esfera pública para o privado. Leia mais »


Dilma na cova dos leões. Por Leandro Fortes

Fonte: Brasília, eu vi. A liberdade de expressão que garantiu o surgimento de uma blogosfera crítica e atuante durante a guerra eleitoral de 2010 nada tem a ver com aquela outra, defendida pela Associação Nacional dos Jornais, comandada por uma executiva da Folha de S.Paulo. São posições, na verdade, antagônicas. A Dilma, é bom lembrar, a Folha jamais pediu desculpas (nem a seus próprios leitores, diga-se de passagem) por ter ostentado uma ficha falsa fabricada por sites de extrema-direita e vendida, nas bancas, como produto oficial do DOPS. Jamais.

Na íntegra do discurso de Dilma Rousseff proferido na cerimônia de aniversário de 90 anos da Folha de S.Paulo, disponibilizado na internet pela página do Portal UOL, lê-se, não sem certo espanto: “Estou aqui representando a Presidência da República. Estou aqui como presidente da República”. Das duas uma: ou Dilma abriu mão, em um discurso oficial, de sua batalha pessoal para ser chamada de “presidenta”, ou, mais grave, a transcrição de seu discurso foi alterada para se enquadrar aos ditames do anfitrião, que a chama ostensivamente de “presidente”, muito mais por birra do que por purismo gramatical.

Caso tenha, de fato, por conta própria, aberto mão do título de “presidenta” que, até então, lhe parecia tão caro, este terá sido, contudo, o menor dos pecados de Dilma Rousseff no regabofe de 90 anos da Folha.

Explica-se: é a mesma Folha que estampou uma ficha falsa da atual presidenta em sua primeira página, dando início a uma campanha oficial que pretendia estigmatizá-la, às vésperas da campanha eleitoral de 2010, como terrorista, assaltante de banco e assassina. A ela e a seus companheiros de luta, alguns mortos no combate à ditadura.
Ditadura, aliás, chamada de “ditabranda”, pela mesma Folha.

Esta mesma Folha que, ainda na campanha de 2010, escalou um colunista para, imbuído de sutileza cavalar, chamá-la, e à atual senadora Marta Suplicy, de vadia e vagabunda.

Essa mesma Folha, ora homenageada com a presença de Dilma Rousseff. Leia mais »


Dilma e Lula. Por Emiliano José

No caso da mídia, seria muito positivo que ela também apoiasse a instalação da Comissão da Verdade para apurar a impressionante violação dos direitos humanos no Brasil durante a ditadura militar. Foi Lula que encaminhou o projeto da Comissão da Verdade, apoiando proposta do então ministro Paulo Vannuchi. As últimas eleições consagraram o projeto político desse novo Brasil que começou em 2003. Dilma está sabendo honrar a confiança que foi depositada nela, uma digna sucessora de Lula. Este artigo foi publicado originalmente no jornal A Tarde. Emiliano José é jornalista, escritor e deputado federal (PT/BA).


Antes que fossem concluídos os 30 dias do governo Dilma, estabeleceu-se, em alguns órgãos da mídia hegemônica, um curioso debate em torno da personalidade da presidenta, descoberta agora como uma mulher decidida, capaz, com um estilo próprio, e simultaneamente, o discurso de que ela rompia com o estilo Lula, e que isso seria muito positivo. Deixava sempre trair o profundo preconceito contra Lula, pela comparação entre uma presidenta letrada (que cumprimenta em inglês a secretária Hillary Clinton…) e o outro, com seu português, essa língua desprezível. Não se sabe se seriam esquizofrenias da mídia hegemônica, ou táticas confluentes destinadas a diminuir o extraordinário legado do presidente-operário e a camuflar a continuidade de um mesmo projeto político.

Não custa tentar avaliar essa operação. Durante a campanha, a mídia seguiu a orientação de que Dilma era uma teleguiada, incapaz de pensar por conta própria. No governo, como era inexperiente, seria manipulada por Lula. Bem, ocorre que foi eleita. O que fazer diante da esfinge? Nos primeiros momentos, cobra que ela fale o tanto que Lula falava. Dilma, que tem estilo próprio, ao contrário do que a mídia dizia, seguia adiante, sem subordinar-se às cobranças. Toca o governo com toda firmeza, que é o que importa. Não se rende às expectativas midiáticas, sinal de uma personalidade forte, muito distante da figura de fácil manipulação que se tentou esculpir antes.

As coisas estão no mundo, minha nega, só é preciso entendê-las, é Paulinho da Viola. A mídia não raramente passa batida diante das coisas que estão no mundo. Ou tenta dar a interpretação que lhe interessa sobre a realidade já que de há muito se superou a idéia de um jornalismo objetivo e imparcial por parte de nossa mídia hegemônica. Todo o esforço para separar Lula e Dilma é inútil. Parece óbvio isso. Mas, não para a mídia. Ela prossegue em sua luta para isso. Lula e Dilma, e lá vamos nós com obviedades novamente, são diferentes. Personalidades diversas. E os estilos de um e de outro naturalmente não são os mesmos. O que não se pode ignorar é que Dilma dá continuidade ao projeto político transformador iniciado com a posse de Lula em 2003. Essa é a questão essencial.

Dilma seguirá com as políticas destinadas a superar a miséria no Brasil, tal e qual o fez Lula nos seus oito anos de mandato, coisa que até os adversários reconhecem, e o fazem porque as evidências são impressionantes. Mexeu-se para melhor na vida de mais de 60 milhões de pessoas, aquelas que saíram da miséria absoluta e as que ascenderam à classe média. Agora, a presidenta pretende aprofundar esse caminho, ao situar como principal objetivo de seu mandato combater a miséria absoluta que ainda afeta tantas pessoas no Brasil. Essa é a principal marca de esquerda desse projeto: o de perseguir a idéia de que é possível construir, pela ação do Estado, um país mais justo, que seja capaz de estabelecer patamares dignos de existência para a maioria da população. O desenvolvimento tem como centro a distribuição de renda, e o crescimento econômico deve estar a serviço disso. Aqui se encontram Dilma e Lula. O resto é procurar pêlo em ovo.

A terrorista cantada em prosa e verso pela mídia durante a campanha virou agora a heroína dos direitos humanos, e nós saudamos a chegada da mídia na defesa dos direitos humanos quando se trata de outros países. Que maravilha, do ponto de vista de pessoas que amargaram tortura e prisão no Brasil, ver a presidenta recebendo as Mães da Praça de Maio e se emocionando com elas. E condenando qualquer tipo de violação dos direitos humanos no mundo.

No caso da mídia, seria muito positivo que ela também apoiasse a instalação da Comissão da Verdade para apurar a impressionante violação dos direitos humanos no Brasil durante a ditadura militar. Foi Lula que encaminhou o projeto da Comissão da Verdade, apoiando proposta do então ministro Paulo Vannuchi. As últimas eleições consagraram o projeto político desse novo Brasil que começou em 2003. Dilma está sabendo honrar a confiança que foi depositada nela, uma digna sucessora de Lula.



Corpolatria: patologia da modernidade? Por Ubiracy de Souza Braga

Ubiracy de Souza Braga é sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), Doutor em Ciências (USP) e professor da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

Dedico este artigo a Veridiana Amaral

Em primeiro lugar, historicamente falando corpolatria é o culto exagerado do corpo, desconfiança face aos prazeres, insistência sobre os efeitos de seu abuso para o corpo e para a alma, valorização do casamento e das obrigações conjugais, desafeição em relação às significações espirituais atribuídas ao amor pelos rapazes. Existe no pensamento dos filósofos e dos médicos, no decorrer dos dois primeiros séculos, de acordo com Foucault (1985: 45 e ss), toda uma severidade da qual testemunham os textos de Soranus e de Rufo de Éfeso, de Musonius ou de Sêneca, de Plutarco assim como de Epicteto ou de Marco Aurélio. Aliás, constitui um fato os autores cristãos tomarem, dessa moral, empréstimos maciços – explícitos ou não; e a maior parte dos historiadores atuais concorda em reconhecer a existência, o vigor e o reforço desses temas de austeridade corporal numa sociedade na qual os contemporâneos descreviam, frequentemente para reprova-los, a imoralidade e os costumes dissolutos.

Sustentamos a tese segundo a qual a corpolatria é uma espécie de “patologia da modernidade”. Ela é caracterizada pela preocupação e cuidado extremos com o próprio corpo não exatamente no sentido da saúde ou presumida falta dela, como no caso da hipocondria, mas particularmente no sentido narcisístico de sua aparência ou embelezamento físico. Para o corpólatra, a própria imagem refletida no espelho se torna obsedante, incapaz de satisfazer-se com ela, sempre achando que pode e deve aperfeiçoá-la. Sendo assim, a corpolatria se manifesta como exagero no recurso às cirurgias plásticas, gastos excessivos com roupas e tratamentos estéticos, abuso do fisiculturismo, entendido como musculação, uso de anabolizantes, etc.

Do ponto de vista materialista a corpolatria, como fenômeno psico-social, aparentemente está relacionada com as mudanças no campo do trabalho produtivo ocorridas no final do século XX, a saber, desde que a distinção entre produção e reprodução social perdeu nitidez, confundindo-se o tempo vital com o tempo de trabalho. Desde então, em muitas profissões e ocupações a aparência corporal e o vigor físico passaram a ser uma espécie de segunda força produtiva ao lado da força de trabalho propriamente dita, com o tempo livre tendendo a se tornar um segundo turno do trabalho produtivo. Como fenômeno patológico de saúde coletiva, a corpolatria tende a se agravar tanto mais encontre não só um amplo mercado de produtos e serviços voltados para o culto ao corpo como também seja propalada como uma espécie de emancipação ou de libertação pessoal dos determinantes repressivos da produção capitalista. Leia mais »


Neoliberalismo – a cara do capitalismo contemporâneo – e pós neoliberalismo

Por Emir Sader, na Carta Maior.


O capitalismo passou por várias fases na sua história. Como reação à crise de 1929, fechou-se o período de hegemonia liberal, sucedido por aquele do predomínio do modelo keynesiano ou regulador. A crise deste levou ao renascimento do liberalismo, sob nova roupagem que, por isso, se auto denominou de neoliberalismo.

Este impôs uma desregulamentação geral na economia, com o argumento de que a economia havia deixado de crescer pelo excesso de normas, que frearia a capacidade do capital de investir. Desregulamentar é privatizar, é abrir os mercados nacionais à economia mundial, é promover o Estado mínimo, diminuindo os investimentos em politicas sociais, em favor do mercado, é impor a precariedade nas relações de trabalho.

A desregulamentação levou a uma gigantesca transferência de capitais do setor produtivo ao especulativo porque, livre de travas, o capital se dirigiu para o setor onde tem mais lucros, com maios liquidez e menos tributação: o setor financeiro. Porque o capital não está feito para produzir, mas para acumular. Se pode acumular mais na especulação, se dirige para esse setor, que foi o que aconteceu em escala mundial. Leia mais »


Ano novo, velha batalha. Por Venício Lima

Venício A. de Lima é professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Liberdade de Expressão vs. Liberdade de Imprensa – Direito à Comunicação e Democracia, Publisher, 2010.

Artigo da publicado originalmente no Observatório da Imprensa

Nossa conhecida SIP, a Sociedade Interamericana de Imprensa [ver, neste OI, "As lições de democracia da SIP"], divulgou, de sua sede em Miami, Estados Unidos, no último dia 27/12, que 2011 será o “Ano pela Liberdade de Expressão”.

Segundo seu novo presidente, Gonzalo Marroquín, diretor do diário Prensa Libre, da Guatemala, “durante el 2011 pondremos empeño en educar al público para que se tome conciencia de que cuando se restringe a la prensa y la libertad de expresión, se menosprecia el valor a saber, un derecho humano de carácter individual y social que es esencial para la sobrevivencia y el éxito de la democracia”.

Declarou também que será dada ênfase às “enseñanzas que sobre libertad de prensa y de expresión emanan de la Declaración Universal de los Derechos Humanos, la Convención Americana sobre Derechos Humanos y la Declaración de Chapultepec” [ver aqui].

A nota da SIP informa que a brasileira ANJ (Associação Nacional de Jornais) é uma das associações nacionais do hemisfério que apóiam a iniciativa. Ótimo.

Documentos básicos
Para dar uma modesta contribuição à SIP e à ANJ, considerando que já estamos em 2011, reproduzo abaixo alguns trechos dos três documentos básicos que serão enfatizados ao longo do ano.

O leitor notará que, mesmo a declaração de Chapultepec – que é um conjunto de princípios redigido por especialistas a pedido da própria SIP e, portanto, não tem o poder de vinculação legal dos outros documentos – é clara em relação a quem é o sujeito da liberdade de expressão ou da liberdade de opinião: a pessoa, o cidadão e não, por óbvio, as empresas concessionárias do serviço público de rádio e televisão nem as que exploram comercialmente a imprensa escrita.

** Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948)

Artigo 19 – Toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras. Leia mais »


Jornalismo, polícia, medo e violência. Por Emiliano José

Publicado originalmente no site da Carta Capital (04/01/2011).

Estava lendo César Aira e seu As noites de Flores, romance que revela com sensibilidade, em tom de quase fábula, a vida urbana de Buenos Aires.

A população estava amedrontada, e não era para menos. O meio através do qual o medo fluía era a televisão, que ultimamente havia feito da criminalidade seu assunto exclusivo.

Não faz tanto tempo, esses dias, estava à frente da televisão, distraído, passando os olhos de canal em canal. E tudo era criminalidade. Bandidos. Violência. Sangue. Mortes. Prisões. Helicópteros comandados por policiais sobrevoando São Paulo. Pessoas sendo presas na Bahia. Medo. Quem estivesse em casa certamente levantaria as mãos aos céus por estar vivo, e em segurança – talvez, é, talvez em segurança porque, de repente, algum bandido…

Pensei no quanto se constrói o medo. De como ele vai se avolumando para além de seus contornos reais que, convenhamos, não podem ser ignorados, mas, convenhamos também, não podem ser levados a extremos que nos afastem tanto do mundo real.

O medo, no mundo urbano, especialmente nas grandes cidades, paira como um espectro paralisante, e é superdimensionado minuto a minuto pela mídia, especialmente pela televisão e pelo rádio, que fazem do crime seu assunto exclusivo.

Se acreditarmos em tudo que se diz na televisão, especialmente na televisão aberta, e em alguns programas de rádio, a vida em comunidade nas grandes cidades está definitivamente condenada. E estaremos sendo convidados, aqueles que podem, a nos agruparmos em condomínios fechados de variada natureza. Adeus vizinhança, cordialidades cotidianas, bom dia, como vai, o pão da padaria. Cada um cuide de si. Nesse sentido, quem sabe, a construção cotidiana do medo cumpra uma função. Leia mais »


Hipócrita! Por Sérgio Guerra

Sérgio Guerra é Mestre e Doutor em História Social. Escritor, sindicalista e militante político é professor da rede pública e privada há 40 anos. Sérgio Guerra também é professor da Universidade Católica do Salvador e da Universidade do Estado da Bahia (UNEB).

Neste período do ano, junto com as festas, avaliações e projeções para os próximos tempos, a cada ano par, temos uma concentração midiática muito grande voltada para as especulações dos novos ou renovados governos em formação. Nada mais normal no calendário, pois assim como se costuma inventariar os acontecidos, também convém se preocupar com o futuro assumir compromissos, fazer promessas, jurar mudar comportamentos, etc.

Por outro lado, os vencedores das eleições precisam recompor suas forças, montar alianças pró-governabilidade, isolar adversários e nomear parceiros, enquanto os perdedores mergulham em silêncios e/ou conclamam o continuar da luta. Até aí tudo bem, lógico, normal e previsível, sem nenhuma grande novidade.

Ou alguém, em sã consciência, desconhece que política é a luta pelo poder, e a ocupação de cargos no Brasil, como em qualquer lugar do mundo, se faz por meio de uma matemática política, na qual votos e eleitos são computados como demonstração de força e avaliados pelo que conseguem agregar ao conjunto vitorioso, ou mesmo ao esvaziamento definitivo dos derrotados.

De novidade mesmo, esta eleição trouxe a hipocrisia, como arma, a calúnia como estratégia, e os seus exercícios como elemento fundamental do discurso político. Assim, de repente, todo mundo ficou contra o aborto, todos passaram a renegar o passado de lutas contra a ditadura e até mesmo a comungar e assistir, descaradamente, as missas e a invadir os rituais religiosos, sem grande compostura e em flagrante desrespeito aos fiéis honestos. Leia mais »


Abrir caminho, sempre. Por Luiz Carlos Azenha

Ser blogueiro “progressista”, “de esquerda”, “independente”, “sujo” ou o que quer que seja é isso: abrir caminho, ousar, desafiar o lugar comum, peitar o discurso único e, acima de tudo, se divertir com a incompetência, o horizonte limitado e a submissão intelectual de nossas grandes redações.

Do Vi o mundo

Nas últimas semanas uma fatia significativa da direitona brasileira admitiu o óbvio: o presidente Lula foi melhor que o presidente FHC e não apenas uma continuação dele.

A Folha de S. Paulo, doente de pesquisismo, escondeu seu diagnóstico atrás da “descoberta” de que 83% dos brasileiros consideraram o governo Lula ótimo ou bom.

A gente, da blogosfera progressista, já sabia disso.

“No pós-ditadura, nenhum presidente eleito diretamente deixou o cargo tão bem avaliado, o que se explica sobretudo pela melhora do emprego, da renda e de sua distribuição”, escreveu a Folha em um caderno especial, publicado no mesmo dia em que o jornal, em editorial de primeira página, admitiu: o governo Lula, cheio de defeitos, foi bom.

E, no entanto, por dizer exatamente isso na campanha eleitoral nós, blogueiros progressistas e leitores progressistas, fomos tachados de sujos, de chapa-branca, de vendidos e de outros adjetivos. O resumo dos xingamentos está no inesquecível discurso do deputado derrotado Marcelo Itagiba, no Congresso. Os impropérios continuam, como notou o Miguel do Rosário a propósito do texto de um colunista do Estadão. São tão poucos os leitores deles que já não vale a pena promovê-los.

O que isso nos diz sobre a blogosfera progressista? Diz que em 2010 fizemos, sim, a diferença. Enquanto alguns se entregavam ao onanismo intelectual, perguntando se “progressista” não era algo datado, do século 19, se não seria melhor usar “independente”, “de esquerda” ou “do diabo”, nós fizemos a diferença ao desmoralizar a bolinha de papel, ao desencavar o que foi dito sobre a privatização da Petrobras, ao demonstrar que o candidato da direita não era apenas o do atraso, mas também da hipocrisia e da mentira. O que quero dizer é que fomos suficientemente ágeis, pragmáticos e leais uns aos outros e às nossas ideias e que isso deu mais resultado que qualquer debate estéril sobre o sexo dos anjos.

Fiquei igualmente satisfeito pelo fato de que um grupo de blogueiros sujos conseguiu, no Palácio do Planalto, algo que o PIG não conseguiu ao longo dos dois mandatos de Lula: definir claramente os limites do governo que finda.

Hoje, na Folha, em “Ecos da Ditadura”, o articulista Fernando de Barros e Silva lamenta o papel de Nelson Jobim no debate sobre a Comissão de Verdade. Barros atribui a Jobim “pressão obscurantista”. Isso também a gente já sabia. Está na pergunta que Leandro Fortes fez ao presidente no Palácio do Planalto. Assim como estiveram nas perguntas de Rodrigo Vianna, Eduardo Guimarães, Conceição Oliveira e Altamiro Borges os limites de Lula nas questões da comunicação, educação e direitos trabalhistas.

Nós, da dita blogosfera progressista, fomos os primeiros a reconhecer a ousadia do Itamaraty na política externa, quando os chanceleres de pijama que frequentam as colunas de opinião dos grandes jornais pregavam a invasão da Bolívia e a derrubada de Hugo Chávez. Só depois de descobrir que o Departamento de Estado de Hillary Clinton estuda o Itamaraty para descobrir como o Brasil ganhou peso internacional sem uma única ogiva nuclear é que a grande mídia brasileira vai dizer, sobre a política externa de Lula, o que nós já sabíamos.

Afinal, foi só depois do vazamento dos telegramas diplomáticos do WikiLeaks que nossa mídia “descobriu” o que denunciamos na campanha eleitoral: na questão do pré-sal, José Serra era owned pelas petroleiras.

Ser blogueiro “progressista”, “de esquerda”, “independente”, “sujo” ou o que quer que seja é isso: abrir caminho, ousar, desafiar o lugar comum, peitar o discurso único e, acima de tudo, se divertir com a incompetência, o horizonte limitado e a submissão intelectual de nossas grandes redações.

Feliz 2011 a todos!


Viva a República. Por Sérgio Guerra

Sérgio Guerra é Mestre e Doutor em História Social.Escritor, sindicalista e militante político é professor da rede pública e privada há 40 anos. Sérgio Guerra também é professor da Universidade Católica do Salvador e da Universidade do Estado da Bahia (UNEB).

Charge retirada do site Velhos Amigos

O Recôncavo ganhou um reforço de primeira. Agora o historiador baiano Sérgio Guerra passa a escrever aqui, quinzenalmente.

Sérgio Guerra é uma das grandes figuras de Salvador e traz para O Recôncavo suas análises recheadas de picardia,  característica marcante deste soteropolitano da Ribeira.

Seja bem vindo Serjão. A casa é sua.

Por Charles Carmo

Viva a República. Por Sérgio Guerra

O feriado da “Proclamação da República nunca me parece devidamente festejado, tanto quanto os outros, como por exemplo: o “7 de setembro”, hoje acrescido espertamente pelo “Dia Nacional de Luta dos Excluídos; o nosso “Heróico 2 de julho”, a cada dia mais nacional; e, houve uma época em que até a famigerada data da” Gloriosa Revolução de 31 de março de 1964” era festejada, apesar de ter se efetivada no dia “Primeiro de Abril”, Dia Nacional da Mentira! Que ironia. Fato que felizmente já foi para o lixo da história.

Como candidato a educador, sempre me questionei e busco sempre respostas, sobre o porquê não festejar a passagem de um regime de governo baseado no “direito divino” de sei lá quem, ou simplesmente hereditário, sanguíneo e familiar, para um governo livremente eleito pelo povo, periodicamente renovado e/ou submetido ao julgamento popular, mesmo se considerarmos todas as mazelas do nosso confuso e até imoral, às vezes, sistema eleitoral.

Assim, tenho observado que mesmo comemorando 121 anos de republica, ainda mantemos como tratamento formal nas casas legislativas, nos níveis municipais, estaduais e federais, do adjetivo “nobre”, antecedendo as posteriores denominações qualificativas de seus membros. O mesmo acontecendo em alguns tribunais ou instancias do poder judiciário. Não vou nem lembrar, por vergonha, o ridículo “Magnífico”, exigido pelos reitores das nossas “grandiosas” universidades ou caricaturas e assemelhadas. Aliás, no Recôncavo Baiano, felizmente o sentimento popular foi mais sábio e democrático, universalizando o tratamento de “meu rei!”, a todos. Felizmente um pouco de bom senso, quem sabe, acompanhando muita ironia. Leia mais »


“Praga de urubu, burro não pega”: a banda podre da universidade.

Ubiracy de Souza Braga é sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

Heidegger.

Por Ubiracy de Souza Braga

“O único meio de controlar o modo como você é visto é sendo honesto o tempo todo” (Tom Hanks).

O Cinismo existe enquanto uma corrente filosófica fundada por um discípulo de Sócrates, chamado Antístenes, e cujo maior nome foi Diógenes de Sínope, por volta de 400 a. C., que pregava essencialmente o desapego aos bens materiais e externos. O termo passou à posteridade como caraterização pejorativa de pessoas sem pudor, indiferentes ao sofrimento alheio que em nada se assemelha a origem filosófica da palavra. A palavra deriva do grego kynismós, chegando até o presente pelo latim cynismu. A origem do termo, porém, é incerta. Alguns autores afirmam que o nome originou-se do local onde Antístenes teria fundado sua Escola, o Ginásio Cinosarge, ao passo que outros afirmam ser um termo derivado da palavra grega para cachorro: kŷőn, kynós, numa analogia “com o fato de os cínicos pregarem uma vida como a dos cães”, ou nestes dias, na ótica daquelas pessoas que detém o poder na cultura da universidade, onde afirmamos: “praga de urubu, burro não pega”!

O pai da filosofia política ocidental tentou de várias formas opor-se a polis e ao que ela entendia por liberdade por meio de uma teoria política na qual os critérios políticos eram derivados não da política, mas da filosofia, de uma Constituição detalhada cujas leis correspondiam a ideias somente acessíveis ao filósofo e, finalmente, influenciando um governante para que transformasse essa legislação em realidade – intento que quase lhe custou a liberdade e a própria vida. A fundação da Academia foi outro de tais intentos, ao mesmo tempo em oposição à polis, por situá-la fora da arena política, e em consonância com o conteúdo desse espaço político especificamente greco-ateniense, que é o fato de “falarem os homens uns com os outros”. Com isso emergiu, ao lado da esfera de ação social da liberdade política, um novo espaço de liberdade que sobrevive até a nossa época na forma da liberdade das universidades e da liberdade acadêmica. Leia mais »


Serra Irrita: Cinismo Popularesco na Cultura Política Brasileira

Ubiracy de Souza Braga, sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

Por Ubiracy de Souza Braga

“O único meio de controlar o modo como você é visto é sendo honesto o tempo todo”.

Tom Hanks

O Cinismo existe enquanto uma corrente filosófica fundada por um discípulo de Sócrates, chamado Antístenes, e cujo maior nome foi Diógenes de Sínope, por volta de 400 a.C., que pregava essencialmente o desapego aos bens materiais e externos. O termo passou à posteridade como caraterização pejorativa de pessoas sem pudor, indiferentes ao sofrimento alheio que em nada se assemelha a origem filosófica da palavra. A palavra deriva do grego kynismós, chegando até o presente pelo latim cynismu. A origem do termo, porém, é incerta. Alguns autores afirmam que o nome originou-se do local onde Antístenes teria fundado sua Escola, o Ginásio Cinosarge, ao passo que outros afirmam ser um termo derivado da palavra grega para cachorro: kŷőn, kynós, numa analogia com o fato de os cínicos pregarem uma vida como a dos cães, na ótica das pessoas contemporâneas na cultura política. O político José Serra consegue ser um parlapatão tanto quanto um cínico na política. O que foi noticiado pela imprensa em sua caminhada em campanha no Rio de Janeiro é irrefutável, senão vejamos.

O pré-candidato “tucano” à Presidência da República, José Serra, se irritou na sexta-feira próxima passada com um jornalista, durante entrevista coletiva na Associação do Comércio do Rio de Janeiro. O jornalista perguntou se o Banco do Brasil, a instituição financeira mais antiga do país, a Caixa Econômica Federal e a Petrobrás, a “menina dos olhos do governo Lula”, estariam livres de privatizações, em caso de uma eventual vitória tucana na corrida ao Planalto. Serra respondeu irritado. Ele perguntou onde o jornalista tinha ouvido falar sobre aquilo e disse que as instituições estavam, sim, livres de privatizações. Ainda irritado, José Serra perguntou a qual jornal o repórter pertencia. Ao ouvir a resposta de que o jornalista trabalhava na Radiobrás, atual Empresa Brasil de Comunicação, uma espécie de agência de notícias do governo federal, o tucano retrucou e disse que o jornalista levasse aos patrões dele a notícia de que não haveria privatizações no caso dos bancos e da Petrobras, em caso de vitória do PSDB na “corrida presidencial”.

Ele também ficou irritado ainda e discutiu com jornalistas durante a “13ª Marcha dos Municípios”. Um repórter da Rádio Nacional, emissora estatal, perguntou se o tucano acabaria com o programa Bolsa Família. Serra reagiu de forma ríspida: – “Por que a pergunta? Porque disseram para você que eu vou acabar? Então eu gostaria de saber a fonte. Isso é uma mentira total”, afirmou. No debate com os prefeitos, o tucano manteve o bom humor, mas mudou o tom na entrevista coletiva após o ato. Em outro momento de irritação, Serra não quis detalhar sua posição referente à divisão dos royalties do pré-sal. “Não vou ficar repetindo.” Assessores de Serra procuraram repórteres para pedir desculpas pelo tom do tucano, que chegou ao evento com 40 minutos de atraso. No último dia 10, Serra também discutiu com a jornalista Míriam Leitão, especialista em Economia, em entrevista à rádio CBN, depois de ser questionado sobre interferência no Banco Central. No início do ano, ele também se irritou com um jornalista da TV Brasil, outra estatal, ao falar sobre combate às enchentes em São Paulo. Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PV) mantiveram o bom humor nas entrevistas. A petista prometeu dançar o “Rebolation” se for eleita, ou seja, ele: “Rebolation é bom! Bom”! Leia mais »


Marketing x Política: escondido da TV, Lula não fala o nome do boi

PT repete erro do primeiro turno e subestima guerra suja. Lula, escondido do eleitor na propaganda de TV, não mostra ao Brasil quem Serra é. PT não absorveu que o marketing é uma coisa e a política é outra. Nela, Lula tem a força de 100 legiões romanas. Por Charles Carmo

No primeiro turno, uma série medieval de boatos e calúnias aliada aos votos de Marina, em grande parte decorrente da rejeição à Dilma que a boataria resultou,levou as eleições para um improvável segundo turno.

A campanha de Dilma Rousseff arrefeceu em um primeiro momento e fortaleceu-se em um segundo, impulsionada pela mudança de postura da petista, sobretudo após o debate na Band, um ponto de inflexão da campanha que levou a militância às ruas e politizou os debates.

Dilma retomou as rédeas da campanha. A política prevaleceu.

Agora, novamente, uma guerra nítida se trava nos subterrâneos da campanha, através de boatos e calúnias anônimas, desta vez, de forma massificada, em áreas seguramente estratégicas para o Robô do Telemarketing Anti-Dilma.

O PT acionou a Polícia Federal e criou um disque-boato, com centrais por estado etc.

Entretanto, se foi aí que Lula perdeu a batalha do primeiro turno, seria presumível que a propaganda de Dilma traduzisse a disposição de ir, abertamente, para o confronto com Serra. E foi isso que, em determinada medida, ela fez.

Lula, entretanto, foi emparedado dentro de um formato televisivo que não enfrenta a guerra suja que custou um retrocesso de 30 ou 40 anos para a esquerda brasileira, se levamos em conta temas como a fé religiosa, tão profanada nesta campanha, como disse o padre em Canindé.

Marketing também pode ser uma questão de fé. Talvez aí resida a única explicação que me ocorre para o fato da campanha de Dilma não ter exposto o presidente Lula para que ele dê nome ao boi e denuncie a guerra suja. Lula não foi para o mano a mano.

A campanha de Dilma Rousseff pode pagar o preço da boataria telefônica e impressa porque confunde marketing com política.

Política é a construção de fatos políticos.  A campanha é curta, o tempo urge.  A boataria é aética, mas cria fatos, a cada ligação.

A lógica impõe à campanha Dilma Rousseff a construção de alguns fatos. No caso da propaganda de televisão o fato traduz-se em um esperado discurso do presidente Lula, denunciando o boi e mostrando o resto da boiada, inclusive os bois-bombas.

Em Salvador, a repetição de um discurso de Lula, na televisão, em que o presidente alardeava que ACM Neto, descrito por Lula como “nanico”, cogitou bater no presidente, foi crucial para transportar o democrata da liderança absoluta para a terceira colocação, na disputa pela prefeitura da capital baiana.

Ou Lula derruba o boi, na propaganda eleitoral, ou será pisoteado pela boiada.

Entretanto, tem muita gente inteligente, estudada, preparada, prenhe de pesquisas e sabida, que discorda. Estas pessoas acreditam que isso fragilizaria a imagem de Dilma enquanto mulher preparada.

A campanha de Dilma entendeu que era preciso politizar o debate, e isso fez bem à petista.

Agora, a campanha de Dilma só precisa das imagens de Lula no programa eleitoral, extraídas no ardor de um palanque, dizendo textualmente quem é Serra e denunciando como está sendo feita a campanha do PSDB. Entretanto, a campanha de Dilma não o faz, criando um dos maiores mistérios desta eleição.

Muitas vezes, o problema do marketing reside na busca incessante pela criatividade, quando na verdade, o momento pede objetividade.

Que os marketeiros não vejam isso, eu posso entender. Mas e Lula?

Por Charles Carmo


Breaking Bad: 1,6 mi de telespectadores na TV paga norte-americana

Por Ubiracy de Souza Braga, sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em ciências (DSc.) junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

“A vergonha de ser um homem: haverá razão melhor para escrever?”.

Gilles Deleuze, Crítica e Clínica. São Paulo: Ed. 34, 1997, p. 11.

Ator Bryan Cranston no papel-título: Breaking Bad

O canal pago americano AMC renovou “Breaking Bad”, uma de suas séries mais premiadas e aclamadas pela crítica, para sua 4ª temporada. “´Breaking Bad’ é um dos dramas mais intensos da televisão atual”, disse Joel Stillerman, vice-presidente de programação original do canal AMC. “A aclamação da crítica e o crescimento da audiência que vimos na terceira temporada reforçam que este é o tipo de história original e excepcional que a AMC quer fornecer para sua audiência”. Com 1,6 milhão de telespectadores, a audiência do final da 3ª temporada foi 18% superior ao final da temporada anterior entre o público geral, além de um crescimento de 22% entre os adultos de faixa etária entre 18-49 anos.

A renovação da série foi confirmada apenas após uma longa negociação entre o canal AMC e a produtora Sony Pictures Television. Um dos motivos que ameaçam a continuidade da série era o seu alto custo de produção, estimados em US$ 3 milhões por episódio, o que faz dela “uma das séries mais caras da TV paga americana”. Estrelada por Bryan Cranston, que levou dois prêmios Emmy de Melhor Ator (cf. Aslan, 1994) série drama como um professor de química de uma escola americana que se transforma em “produtor de metanfetamina” após ser diagnosticado com câncer, “Breaking Bad” também foi indicado ao Emmy de Melhor série drama no ano passado.

A metanfetamina (MA) é uma droga estimulante do sistema nervoso central (SNC), muito potente e altamente viciante, cujos efeitos se manifestam no sistema nervoso central e periférico. A metanfetamina tem-se vulgarizado como “droga de abuso”, revelada como “transparência do mal”, na expressão de Jean Beaudrillard, devido aos seus “efeitos agradáveis intensos tais como a euforia, aumento do estado de alerta, da autoestima, do apetite sexual, da percepção das sensações e pela intensificação de emoções”. Por outro lado, diminui o apetite, a fadiga e a necessidade de dormir. Existem algumas indicações terapêuticas para a MA, nomeadamente “narcolepsia, déficit de atenção hiperativa em crianças, obesidade mórbida e descongestionante nasal (l -metanfetamina)”. Contudo, esta droga manifesta um grande potencial de dependência e a sua utilização crônica “pode conduzir ao aparecimento de comportamentos psicóticos e violentos, em consequência dos danos que pode causar ao SNC” (cf. a respeito as análises de Deleuze & Guattari, 1973).

A atriz Lindsay Lohan, por exemplo, presa no final de junho próximo passado, por ter descumprido os termos de sua liberdade condicional ao faltar a sessões de orientação sobre o alcoolismo, fará tratamento em uma clínica de habilitação para “cuidar do seu vício em metanfetamina”. As informações são do site especializado na cobertura de celebridades TMZ. A atriz foi encaminhada a uma clínica em Newport, Califórnia. A internação será de 90 dias e ela também será medicada por sofrer de “transtorno bipolar”. Desde que chegou a prisão, Lohan tem acesso a drogas receitadas. Ela conseguiu um farmacêutico para lhe receitar remédios, como Adderoll, um psicoestimulante para tratar déficit de atenção e hiperatividade. Lohan foi sentenciada a pena de 90 dias no dia 6 de julho por ter descumprido os termos de sua liberdade condicional ao faltar a sessões de orientação sobre o alcoolismo. De acordo com a juíza, ela podia ser liberada por bom comportamento quando cumprisse 25% de sua sentença – 23 dias.

De fato, last but not least, o seriado americano coloca em xeque, através de um continuun de palavras e expressões a própria boutade da palavra: breaking bad. Queremos dizer com isso que pode ser analisada etimologicamente falando da seguinte forma:  “começando mal”, “empezando mal”, volviendose mal”, “cayendo bajo”, ou, “echándose a perder”, no sentido em que uma pessoa normal toma o caminho muito turbulento, ilícito e se deixa a perder a si mesmo, no sentido que emprega Adorno (1965) sobre a personalidade. Mal comparando, lembramos que T. P. Wilson e D. H. Zimmerman dão o exemplo da palavra enigmática, rosebud, conforme Coulon (1995:34), pronunciada por Kane em seu leito de morte, no filme Citizen Kane, dirigido por Orson Wells (EUA, 1941). Leia mais »


Diretas já no Vaticano

A ala mais conservadora da Igreja Católica resolveu se intrometer na campanha eleitoral brasileira e espalhar a tática do medo. A outra ala católica, moderna e ligada aos ideais da Teoria da Libertação, condena os conservadores e reprova a estratégia.

Dissemos aqui que a escalada anti-Dilma começou depois da visita do chefão do Opus Dei ao Brasil.

O fato é que se o Vaticano pode dar palpites sobre o Brasil, os brasileiros também podem opinar sobre o Vaticano.

O Vaticano, como se sabe, é uma das últimas teocracias do mundo. No Vaticano ainda impera o absolutismo monárquico.

O Vaticano é contra o aborto. Entretanto, é também contra o uso de preservativos, inclusive na África, aonde a AIDS mata milhares de pessoas todos os anos.

O Vaticano, entretanto, não tem a mesma sanha em condenar, por exemplo, os padres e bispos acusados de pedofilia. Muito menos os escândalos financeiros em que se meteu recentemente, sobretudo os que envolvem o Instituto para as Obras de Religião (IOR), o banco do Vaticano, cujo presidente Ettore Gotti Tedeschi teve que depor na justiça italiana sobre as acusações de lavagem de dinheiro.

Eu, pessoalmente, aceitaria de bom grado todos os ditames do Vaticano, inclusive a proibição do uso de camisinha, mas com uma singela condição: eu quero eleger o Papa. O que não dá é obedecer sem participar. Os Bispos conservadores gostam tanto de política, deveriam concordar comigo. Se minha proposta prosperar eles também poderão votar e escolher, democraticamente, o Chefe de Estado do Vaticano.

Diretas já no Vaticano!

Por Charles Carmo

 


O valor do pluralismo. Por Eugênio Bucci

Em artigo no Estadão, após a psicanalista Maria Rita Kehl ser demitida depois de ter escrito, no último sábado (2), artigo sobre a desqualificação dos votos dos pobres, o jornalista Eugênio Bucci defende o pluralismo e convoca os jornalistas à reflexão: uma opinião que precisa silenciar outra para se afirmar corrói a si mesma, diz Eugênio Bucci.

Eugênio Bucci – O Estado de S.Paulo

Os recentes ataques contra os jornais disparados dos mais altos gabinetes da República – ataques devidamente rechaçados por jornalistas e empresas de comunicação – talvez nos façam perder de vista que há, sim, problemas graves na imprensa brasileira. É natural que, sob agressão de autoridades, editores e repórteres se unam para se defender e reafirmar sua liberdade. É natural, compreensível e até mesmo necessário. Isso não significa, porém, que os órgãos de imprensa não estejam, permanentemente, sob exame implacável – não do poder, mas do público. E que não tenham defeitos. Todos os dias o trabalho dos jornalistas passa pelo crivo da sociedade, que os julga sem coleguismo nem condescendência. Todos os dias surgem sinais de desconfiança, aqui e ali. Prestemos atenção a isso. Muito se diz que sem imprensa livre não há democracia, mas será que a nossa imprensa, hoje, está à altura dos desafios que pesam sobre a nossa democracia?

Jornalistas deveriam fazer-se essa pergunta diariamente. Principalmente agora, quando caminhamos para o segundo turno. Aliás, essa pergunta deveria ser afixada, em letras de mármore, em néon, em reluzentes letras garrafais, nas paredes de todas as redações. Em corpo menor, logo abaixo, poderiam vir outras indagações.

A imprensa tem sido capaz de esclarecer os pontos que interessam no debate eleitoral? Ela investiga, escuta, apura e checa as propostas de cada candidato com independência e honestidade? Ela compara? Ela ajuda o eleitor a comparar? Ela está a serviço de que o cidadão forme livremente o seu ponto de vista ou se move apenas com o propósito de doutriná-lo a favor de um ou outro lado? Quando assumem uma posição, as publicações deixam claras as razões que as levaram a isso? Ou apenas disfarçam de informação objetiva as suas opiniões subjetivas? Lendo o noticiário, os artigos de opinião e os editoriais, o cidadão percebe que há boa-fé ou pressente agendas ocultas, não declaradas, que o deixam inseguro e desconfortável?

O diagnóstico da qualidade editorial de cada órgão de imprensa depende, entre outras, das respostas que se seguem a cada uma dessas interrogações. E aqui chegamos ao ponto. Essas respostas serão mais (ou menos) positivas quanto mais (ou menos) cada redação cultivar o valor do pluralismo.

A palavra anda em desuso, é verdade, mas sem pluralismo não há democracia – e muito menos imprensa. Por certo, nenhum jornal pode assumir o dever de publicar igualmente todas as opiniões e todos os pontos de vista de todas as pessoas. Isso seria loucura – ou hipocrisia. Uma fórmula editorial é sempre um corte, uma escolha arbitrária, e não há nada de errado nisso. Porém, mesmo dentro do seu corte, da sua escolha editorial, um órgão de imprensa há de saber que sua credibilidade decorre justamente do respeito que reserva às opiniões divergentes. Uma opinião que precisa silenciar outra para se afirmar corrói a si mesma. Já temos história suficiente para saber que o vício da intolerância não consegue apagar o intolerado – apenas desacredita o intolerante. É ele, não sua vítima, que perde autoridade. Leia mais »


Cureau, a censora. Por Mino Carta

Cureau, a censora

24 de setembro de 2010

Conta-se aqui uma história insolitamente verdadeira de uma tentativa de assalto à liberdade de imprensa. Vale insistir: esta é autêntica.

Por Mino Carta, na CartaCapital

Permito-me sugerir à doutora Sandra Cureau, vice-procuradora-geral da Justiça Eleitoral, que volte a se debruçar sobre os alfarrábios do seu tempo de faculdade, livros e apostilas, sem esquecer de manter à mão os códigos, obras de juristas consagrados e, sobretudo, a Constituição da República. O erro que cometeu ao exigir de CartaCapital, no prazo de cinco dias, a entrega da documentação completa do nosso relacionamento publicitário com o governo federal nos leva a duvidar do acerto de quem a escolheu para cargo tão importante.

Refiro-me, em primeiro lugar, ao erro, digamos assim, técnico. Aceitou uma denúncia anônima para proceder contra a revista e sua editora. Diz ela conhecer a identidade do denunciante, acoberta-o, porém, sob o manto do sigilo condenado pelo texto constitucional e por decisões do Supremo Tribunal Federal. Protege quem, pessoa física ou jurídica, condiciona a denúncia ao silêncio sobre seu nome. Ou seja, a vice-procuradora comete uma clamorosa ilegalidade.

Há outro erro, ideológico. Quem deveria zelar pela lisura do embate eleitoral endossa a caluniosa afronta que há tempo é cometida até por colegas jornalistas ardorosamente empenhados na campanha do candidato tucano à Presidência. A ilação desfraldada a partir do apoio declarado, e fartamente explicado por CartaCapital, à candidatura- de Dilma Rousseff revela a consistência moral e ética, democrática e republicana dos acusadores, ou por outra, a total inconsistência. A tigrada não concebe adesão a uma candidatura sem a contrapartida em florins, libras, dracmas. Reais justificados por abundante publicidade governista.

Sabemos ser inútil repetir que a publicidade governista premia mais fartamente outras publicações. Sabemos que José Serra, ainda governador, mas de mira posta na Presidência, assinou belos contratos de compra de assinaturas com todas as maiores empresas jornalísticas do País, com exceção, obviamente, da editora de CartaCapital. Sabemos que não é o caso de esperar pela solidariedade- dos patrões da mídia e dos seus empregados, bem como das chamadas entidades de classe, sem falar da patética Sociedade Interamericana de Imprensa. Estas, aliás, se apressam a apoiar a campanha midiática que aponta em Lula o perigo público número 1 para a democracia e a liberdade de imprensa.

Nem todos os casos denunciados pela mídia nativa merecem as manchetes de primeira página, um e outro nem mesmo um pálido registro. É inegável, contudo, que dentro do PT há uma lamentável margem de manobra para aloprados de extrações diversas. CartaCapital tem dado o devido destaque a crimes como a quebra de sigilo fiscal e a deploráveis fenômenos de nepotismo e clientelismo, embora não deixe de apontar a ausência das provas sofregamente buscadas pelos perdigueiros da informação, em vão até o momento, de ligações com a campanha de Dilma Rousseff.

Vale, porém, discutir as implicações da liberdade de imprensa, e de expressão em geral. É do conhecimento até do mundo mineral que a liberdade de informar encontra seus limites no Código Penal. Se o jornalista acusa, tem de provar a acusação. E informar significa relatar fatos. Corretamente. Quanto à opinião, cada um tem direito à sua.
Muito me agrada que o Estadão e o Globo em editoriais e, se não me engano,- um colunista tenham aproveitado a sugestão feita por mim na semana passada. Por que não comparar Lula a Luís XIV, além de Mussolini e Hitler? Compararam, para ampliar o espectro da evocação. De ditadores de extrema-direita a um monarca por direito divino, aprazível passeio pela história. Volto à carga: sinto a falta de Stalin, talvez fosse personagem mais afinada com a personalidade de Lula, aquele que ia transformar o Brasil em república socialista. Quem sabe, a tarefa fique para a guerrilheira terrorista, assassina de criancinhas.
Espero ter sido útil, com uma contribuição aos delírios de quem percebe o poder a lhe escorrer entre os dedos. A campanha midiática a favor do candidato tucano não é digna do país que o Brasil merece ser, e sim adequada ao manicômio. Aumenta o clamor de grupelhos de inconformados de uma velha-guarda que não dispensa militares de pijama, todos protagonistas de um espetáculo que fica entre a ópera-bufa e o antigo Pinel. Que tem a ver com liberdade de imprensa acusar Lula e Dilma de pretenderem “mexicanizar”, ou “venezuelizar” o Brasil? Ou enterrar a democracia?

Mesmo que o presidente não pronuncie sempre palavras irretocáveis, onde estão as provas desse terrificante projeto? Temos, isto sim, as provas em sentido contrário: os golpistas arvoram-se a paladinos de uma legalidade que eles somente ameaçam. A união da mídia já produziu alguns entre os piores momentos da história brasileira. A morte de Getúlio Vargas, presidente eleito, a resistência a Juscelino, o golpe de 1964 e suas consequências 21 anos a fio, sem contar com a oposição à campanha das Diretas Já. Ou com o apoio maciço à candidatura de Fernando Collor, à reeleição de Fernando Henrique, às privatizações vergonhosamente manipuladas.

É possível perceber agora que este congraçamento nunca foi tão compacto. Surpreende-me, por exemplo, o aproveitamento que o Estadão faz das reportagens de Veja, citada com todas as letras. Em outros tempos não seria assim, a família Mesquita tachava os Civita de “argentários” em editoriais da terceira página. As relações entre os mesmos Mesquita, os Frias e os Marinho não eram também das melhores. Hoje não, hoje estão mais unidos do que nunca. Pelo desespero, creio eu.

A união, apesar das divergências, sempre os trouxe à mesma frente quando o risco foi comum. Ameaça ardilosamente elevada à enésima potência para justificar o revide pronto e imediato. E exorbitante. A aliança destes dias tem uma peculiaridade porque o risco temido por eles é real, a figurar uma situação muito pior do que aquela imaginada até o começo de 2010. Desespero rima com conselheiro, mas como tal é péssimo. De sorte que estão a se mover para mais uma Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade. A derradeira, esperamos. Não nos iludamos, no entanto. São capazes de coisas piores.

Otimista em relação ao futuro, na minha visão vivemos os estertores de um sistema, mudança essencial ao sabor de um confronto social em andamento, sem violência, sem sangue. Diria natural, gerado pelo desenvolvimento, pelo crescimento. Donde, por mais sombrios que sejam os propósitos dos verdadeiros inimigos da democracia, eles, desta vez, no pasaran. Eles próprios se expõem a risco até ontem inimaginável. Se houver chance para uma tentativa golpista, desta vez haverá reação popular, com consequências imprevisíveis.

Episódio representativo da situação, conquanto não o mais assombroso, longe disso, é a demanda da vice-procuradora da Justiça Eleitoral para averiguar se vendemos, ou não, a nossa alma. Falo em nome de uma pequena redação que não desiste há 16 anos na prática do jornalismo honesto, pasma por estar sob suspeita ao apoiar às claras a candidatura Dilma.

Sugiro à doutora Sandra que, de mão na massa, verifique também se a revista IstoÉ recebeu lauta compensação do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema quando o acima assinado em companhia do repórter Bernardo Lerer, escreveu uma reveladora, ouso dizer, reportagem sobre Luiz Inácio da Silva, melhor conhecido como Lula, publicada em fevereiro de 1978. Ou se acomodou-se em uma espécie de mensalão ao publicar oito capas a respeito da ação de Lula à frente de uma sequência de greves entre 1978 e 1980. Ou se me locupletei pessoalmente por ter estado ao lado dele na noite de sua prisão, e da sua saída da cadeia, quando enquadrado pela ditadura na Lei de Segurança Nacional, bem como nas suas campanhas como candidato à Presidência da República. Desde o dia em que conheci o atual presidente da República, pensei: este é o cara.


A Estapafúrdia Visão de Joseph Ratzinger. Por Ubiracy de Souza Braga

Ubiracy de Souza Braga - Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências (USP). Professor da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (uece).

O papa Bento XVI chega na missa em memória do papa João Paulo II. Foto: Reuters

Joseph Ratzinger nasceu em Marktl am Inn, uma pequena vila na Baviaria, na Alemanha. Criado em um ambiente antissocialista, Ratzinger iniciou sua carreira no catolicismo em 29 de junho de 1951, quando ele e seu irmão Georg Ratzinger foram ordenados sacerdotes pelo cardeal Faulhber de Munique. Em 25 de março de 1977 ascendeu ao cargo de Arcebispo de Munique e Freising. Apenas três meses depois (no dia 27 de junho) é ordenado Cardeal do consistório, data essa em que recebeu o título presbiteral de “Santa Maria da Consolação no Tiburtino”. Foi a partir dessa data que Ratzinger angariou novos cargos e prestígios na cúria romana, como apresentamos a seguir: Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (antiga Suprema e Sacra Congregação do Santo Ofício); Cardeal-bispo da Sé Episcopal de Velettri-Segni (1993); Decano do colégio Cardinalício (2002); Papa (2005).

Contudo, importa-nos descrever e explicar as linhas do pano de fundo ideológico que antecedem à sua formação ao catolicismo nos começos do século. Heinrich Finke havia obtido uma cátedra de História na Universidade de Friburgo no final do século passado. Suas posições respaldadas em vasto trabalho de arquivo sobre a história da Igreja da Idade Média caracterizavam-se por um engajamento irrestrito a favor de um Estado nacional: a fundação do Reich por Bismarck, em 1870-1871, parecia-lhe um acontecimento de proporções colossais. Finke, que só concebia o Estado moderno como herdeiro do imperium medieval, festejava, por conseguinte o “imperialismo mundial” como a mais elevada obra dos “povos germânicos” que, ao reintegrar o princípio nacional à história universal, realizam uma missão de grandeza incomparável. Finke era um membro do Partido Católico, o Zentrum. Leia mais »


A mídia comercial em guerra contra Lula e Dilma. Por Leonardo Boff

O que está ocorrendo já não é um enfrentamento de idéias e de interpretações e o uso legítimo da liberdade da imprensa. Está havendo um abuso da liberdade de imprensa que, na previsão de uma derrota eleitoral, decidiu mover uma guerra acirrada contra o Presidente Lula e a candidata Dilma Rousseff. Nessa guerra vale tudo: o factóide, a ocultação de fatos, a distorção e a mentira direta. Precisamos dar o nome a esta mídia comercial. São famílias que, quando vêem seus interesses comerciais e ideológicos contrariados, se comportam como “famiglia” mafiosa. O artigo é de Leonardo Boff.

Por Leonardo Boff na Carta Maior

Sou profundamente pela liberdade de expressão em nome da qual fui punido com o “silêncio obsequioso”pelas autoridades do Vaticano. Sob risco de ser preso e torturado, ajudei a editora Vozes a publicar corajosamente o “Brasil Nunca Mais” onde se denunciavam as torturas, usando exclusivamente fontes militares, o que acelerou a queda do regime autoritário.

Esta história de vida, me avaliza para fazer as críticas que ora faço ao atual enfrentamento entre o Presidente Lula e a midia comercial que reclama ser tolhida em sua liberdade. O que está ocorrendo já não é um enfrentamento de idéias e de interpretações e o uso legítimo da liberdade da imprensa. Está havendo um abuso da liberdade de imprensa que, na previsão de uma derrota eleitoral, decidiu mover uma guerra acirrada contra o Presidente Lula e a candidata Dilma Rousseff. Nessa guerra vale tudo: o factóide, a ocultação de fatos, a distorção e a mentira direta.

Precisamos dar o nome a esta mídia comercial. São famílias que, quando vêem seus interesses comerciais e ideológicos contrariados, se comportam como “famiglia” mafiosa. São donos privados que pretendem falar para todo Brasil e manter sob tutela a assim chamada opinião pública. São os donos do Estado de São Paulo, da Folha de São Paulo, de O Globo, da revista Veja na qual se instalou a razão cínica e o que há de mais falso e chulo da imprensa brasileira. Estes estão a serviço de um bloco histórico, assentado sobre o capital que sempre explorou o povo e que não aceita um Presidente que vem deste povo. Mais que informar e fornecer material para a discussão pública, pois essa é a missão da imprensa, esta mídia empresarial se comporta como um feroz partido de oposição. Leia mais »


A última luta contra a ditadura. Por Miguel do Rosário

por Miguel do Rosário, no Óleo do Diabo

A julgar pelos editoriais, a imprensa brasileira se acha uma vítima trêmula e indefesa, pronta para ser devorada pelo bicho papão totalitário. Claro que há o constrangimento de ter apoiado a ditadura, contra o mesmo bicho papão, mas se ele (o papão) não existia antes e mesmo assim justificou-se um golpe de Estado, não é tão difícil inventar novamente o mesmo inimigo; dessa vez não exatamente para dar um golpe, mas algo mais fácil, como queimar um candidato e eleger outro. Considerando que esses jornais transformaram-se em poderosos conglomerados econômicos à sombra do regime militar, pode-se especular que nossa batalha contra os desmandos desses grupos consiste na última luta dos brasileiros contra o fascismo que pendurou nossa liberdade e nossas esperanças, por vinte longos anos, num pau de arara.

Como empresas privadas, os jornais têm liberdade para defender ou atacar seja quem for, mas a Constituição ficaria grata se evitassem desrespeitar o direito dos indivíduos à honra e à privacidade e, sobretudo, se se esforçassem em conter seus ódios pessoais e tratassem as instituições democráticas e seus representantes com um mínimo de decoro e respeito. Não pedimos isenção. Ao contrário, pedimos honestidade em declarar sua preferência partidária, como fazem os jornais norte-americanos, o que ajudaria os leitores a separar notícia de opinião e entender melhor o que estão lendo. Leia mais »


A crise do poder de subjetividades!

Clodoaldo Almeida da Paixão, professor do Departamento de Ciências Humanas e Filosofia (DCHF) da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Mestre em Sociologia (UFPB) e Doutorando em Família na Sociedade Contemporânea (UCSAL).


A Política mudou e está operando uma derrota fantástica às forças políticas conservadoras. É o que tem sido demonstrado pelas pesquisas eleitorais desde o último pleito para eleição de prefeito. Trata-se, ao que tudo indica, da emergência de nova cultura política. O fenômeno, de ponto de vista analítico, é muito mais profundo.

Três históricas instituições conquistaram o poder de subjetivação social, política e moral. A Ciência, o Estado e a Igreja passaram a subjetivar a sociedade, inscrevendo-lhe uma identidade: científica, jurídica e moral. Cada um à sua maneira, como requer o Estado laico. Sendo essa, aliás – pelo menos em tese, a grande novidade presente no pensamento político moderno.

A primeira, a Ciência, reteve a função de subjetivar todos os processos sociais a partir de categorias de pensamento (conceito), cabendo-lhe o papel explicativo a partir de uma racionalidade científica. O antropocentrismo significou mais do que o deslocamento de Deus para o Homem como centro do mundo. Sim, representou o mundo sob o olhar da razão humana, inclusive Deus. Essa a denúncia fundamental presente na obra de René Descartes, entre outros. Razão pela qual, aliás, Michel Foucault declara o nascimento do homem, porque a partir de então objeto do discurso científico.

Outro foi o Estado que se impôs desde que foi criado como principal racionalidade normativa da vida social. O Direito, seu instrumento político fundamental, opera o processo de enquadramento social coletivo em todos os âmbitos. A tentativa (bem sucedida até certo ponto) de representar juridicamente o máximo de acontecimentos da vida social e não por acaso, quer queiramos ou não, quer saibamos ou não, somos uma representação também jurídica. É a vida humana sob a orientação e a lógica da racionalidade jurídica, tendo o Estado como único demandador positivo, como primeiramente indicou Thomas Hobbes em sua obra Leviatã para o posterior acabamento e consolidação por Hans Kelsen. O que significou dizer que só ao Estado é dado o direito de demandar o Direito, poder legitimamente (como quer Max Weber in A Burocracia) estabelecer napara sociedade o que é legal ou ilegal. Leia mais »