segunda-feira, 21 de maio de 2012

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Marketing x Política: escondido da TV, Lula não fala o nome do boi

PT repete erro do primeiro turno e subestima guerra suja. Lula, escondido do eleitor na propaganda de TV, não mostra ao Brasil quem Serra é. PT não absorveu que o marketing é uma coisa e a política é outra. Nela, Lula tem a força de 100 legiões romanas. Por Charles Carmo

No primeiro turno, uma série medieval de boatos e calúnias aliada aos votos de Marina, em grande parte decorrente da rejeição à Dilma que a boataria resultou,levou as eleições para um improvável segundo turno.

A campanha de Dilma Rousseff arrefeceu em um primeiro momento e fortaleceu-se em um segundo, impulsionada pela mudança de postura da petista, sobretudo após o debate na Band, um ponto de inflexão da campanha que levou a militância às ruas e politizou os debates.

Dilma retomou as rédeas da campanha. A política prevaleceu.

Agora, novamente, uma guerra nítida se trava nos subterrâneos da campanha, através de boatos e calúnias anônimas, desta vez, de forma massificada, em áreas seguramente estratégicas para o Robô do Telemarketing Anti-Dilma.

O PT acionou a Polícia Federal e criou um disque-boato, com centrais por estado etc.

Entretanto, se foi aí que Lula perdeu a batalha do primeiro turno, seria presumível que a propaganda de Dilma traduzisse a disposição de ir, abertamente, para o confronto com Serra. E foi isso que, em determinada medida, ela fez.

Lula, entretanto, foi emparedado dentro de um formato televisivo que não enfrenta a guerra suja que custou um retrocesso de 30 ou 40 anos para a esquerda brasileira, se levamos em conta temas como a fé religiosa, tão profanada nesta campanha, como disse o padre em Canindé.

Marketing também pode ser uma questão de fé. Talvez aí resida a única explicação que me ocorre para o fato da campanha de Dilma não ter exposto o presidente Lula para que ele dê nome ao boi e denuncie a guerra suja. Lula não foi para o mano a mano.

A campanha de Dilma Rousseff pode pagar o preço da boataria telefônica e impressa porque confunde marketing com política.

Política é a construção de fatos políticos.  A campanha é curta, o tempo urge.  A boataria é aética, mas cria fatos, a cada ligação.

A lógica impõe à campanha Dilma Rousseff a construção de alguns fatos. No caso da propaganda de televisão o fato traduz-se em um esperado discurso do presidente Lula, denunciando o boi e mostrando o resto da boiada, inclusive os bois-bombas.

Em Salvador, a repetição de um discurso de Lula, na televisão, em que o presidente alardeava que ACM Neto, descrito por Lula como “nanico”, cogitou bater no presidente, foi crucial para transportar o democrata da liderança absoluta para a terceira colocação, na disputa pela prefeitura da capital baiana.

Ou Lula derruba o boi, na propaganda eleitoral, ou será pisoteado pela boiada.

Entretanto, tem muita gente inteligente, estudada, preparada, prenhe de pesquisas e sabida, que discorda. Estas pessoas acreditam que isso fragilizaria a imagem de Dilma enquanto mulher preparada.

A campanha de Dilma entendeu que era preciso politizar o debate, e isso fez bem à petista.

Agora, a campanha de Dilma só precisa das imagens de Lula no programa eleitoral, extraídas no ardor de um palanque, dizendo textualmente quem é Serra e denunciando como está sendo feita a campanha do PSDB. Entretanto, a campanha de Dilma não o faz, criando um dos maiores mistérios desta eleição.

Muitas vezes, o problema do marketing reside na busca incessante pela criatividade, quando na verdade, o momento pede objetividade.

Que os marketeiros não vejam isso, eu posso entender. Mas e Lula?

Por Charles Carmo


Breaking Bad: 1,6 mi de telespectadores na TV paga norte-americana

Por Ubiracy de Souza Braga, sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em ciências (DSc.) junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

“A vergonha de ser um homem: haverá razão melhor para escrever?”.

Gilles Deleuze, Crítica e Clínica. São Paulo: Ed. 34, 1997, p. 11.

Ator Bryan Cranston no papel-título: Breaking Bad

O canal pago americano AMC renovou “Breaking Bad”, uma de suas séries mais premiadas e aclamadas pela crítica, para sua 4ª temporada. “´Breaking Bad’ é um dos dramas mais intensos da televisão atual”, disse Joel Stillerman, vice-presidente de programação original do canal AMC. “A aclamação da crítica e o crescimento da audiência que vimos na terceira temporada reforçam que este é o tipo de história original e excepcional que a AMC quer fornecer para sua audiência”. Com 1,6 milhão de telespectadores, a audiência do final da 3ª temporada foi 18% superior ao final da temporada anterior entre o público geral, além de um crescimento de 22% entre os adultos de faixa etária entre 18-49 anos.

A renovação da série foi confirmada apenas após uma longa negociação entre o canal AMC e a produtora Sony Pictures Television. Um dos motivos que ameaçam a continuidade da série era o seu alto custo de produção, estimados em US$ 3 milhões por episódio, o que faz dela “uma das séries mais caras da TV paga americana”. Estrelada por Bryan Cranston, que levou dois prêmios Emmy de Melhor Ator (cf. Aslan, 1994) série drama como um professor de química de uma escola americana que se transforma em “produtor de metanfetamina” após ser diagnosticado com câncer, “Breaking Bad” também foi indicado ao Emmy de Melhor série drama no ano passado.

A metanfetamina (MA) é uma droga estimulante do sistema nervoso central (SNC), muito potente e altamente viciante, cujos efeitos se manifestam no sistema nervoso central e periférico. A metanfetamina tem-se vulgarizado como “droga de abuso”, revelada como “transparência do mal”, na expressão de Jean Beaudrillard, devido aos seus “efeitos agradáveis intensos tais como a euforia, aumento do estado de alerta, da autoestima, do apetite sexual, da percepção das sensações e pela intensificação de emoções”. Por outro lado, diminui o apetite, a fadiga e a necessidade de dormir. Existem algumas indicações terapêuticas para a MA, nomeadamente “narcolepsia, déficit de atenção hiperativa em crianças, obesidade mórbida e descongestionante nasal (l -metanfetamina)”. Contudo, esta droga manifesta um grande potencial de dependência e a sua utilização crônica “pode conduzir ao aparecimento de comportamentos psicóticos e violentos, em consequência dos danos que pode causar ao SNC” (cf. a respeito as análises de Deleuze & Guattari, 1973).

A atriz Lindsay Lohan, por exemplo, presa no final de junho próximo passado, por ter descumprido os termos de sua liberdade condicional ao faltar a sessões de orientação sobre o alcoolismo, fará tratamento em uma clínica de habilitação para “cuidar do seu vício em metanfetamina”. As informações são do site especializado na cobertura de celebridades TMZ. A atriz foi encaminhada a uma clínica em Newport, Califórnia. A internação será de 90 dias e ela também será medicada por sofrer de “transtorno bipolar”. Desde que chegou a prisão, Lohan tem acesso a drogas receitadas. Ela conseguiu um farmacêutico para lhe receitar remédios, como Adderoll, um psicoestimulante para tratar déficit de atenção e hiperatividade. Lohan foi sentenciada a pena de 90 dias no dia 6 de julho por ter descumprido os termos de sua liberdade condicional ao faltar a sessões de orientação sobre o alcoolismo. De acordo com a juíza, ela podia ser liberada por bom comportamento quando cumprisse 25% de sua sentença – 23 dias.

De fato, last but not least, o seriado americano coloca em xeque, através de um continuun de palavras e expressões a própria boutade da palavra: breaking bad. Queremos dizer com isso que pode ser analisada etimologicamente falando da seguinte forma:  “começando mal”, “empezando mal”, volviendose mal”, “cayendo bajo”, ou, “echándose a perder”, no sentido em que uma pessoa normal toma o caminho muito turbulento, ilícito e se deixa a perder a si mesmo, no sentido que emprega Adorno (1965) sobre a personalidade. Mal comparando, lembramos que T. P. Wilson e D. H. Zimmerman dão o exemplo da palavra enigmática, rosebud, conforme Coulon (1995:34), pronunciada por Kane em seu leito de morte, no filme Citizen Kane, dirigido por Orson Wells (EUA, 1941). Leia mais »


Diretas já no Vaticano

A ala mais conservadora da Igreja Católica resolveu se intrometer na campanha eleitoral brasileira e espalhar a tática do medo. A outra ala católica, moderna e ligada aos ideais da Teoria da Libertação, condena os conservadores e reprova a estratégia.

Dissemos aqui que a escalada anti-Dilma começou depois da visita do chefão do Opus Dei ao Brasil.

O fato é que se o Vaticano pode dar palpites sobre o Brasil, os brasileiros também podem opinar sobre o Vaticano.

O Vaticano, como se sabe, é uma das últimas teocracias do mundo. No Vaticano ainda impera o absolutismo monárquico.

O Vaticano é contra o aborto. Entretanto, é também contra o uso de preservativos, inclusive na África, aonde a AIDS mata milhares de pessoas todos os anos.

O Vaticano, entretanto, não tem a mesma sanha em condenar, por exemplo, os padres e bispos acusados de pedofilia. Muito menos os escândalos financeiros em que se meteu recentemente, sobretudo os que envolvem o Instituto para as Obras de Religião (IOR), o banco do Vaticano, cujo presidente Ettore Gotti Tedeschi teve que depor na justiça italiana sobre as acusações de lavagem de dinheiro.

Eu, pessoalmente, aceitaria de bom grado todos os ditames do Vaticano, inclusive a proibição do uso de camisinha, mas com uma singela condição: eu quero eleger o Papa. O que não dá é obedecer sem participar. Os Bispos conservadores gostam tanto de política, deveriam concordar comigo. Se minha proposta prosperar eles também poderão votar e escolher, democraticamente, o Chefe de Estado do Vaticano.

Diretas já no Vaticano!

Por Charles Carmo

 


O valor do pluralismo. Por Eugênio Bucci

Em artigo no Estadão, após a psicanalista Maria Rita Kehl ser demitida depois de ter escrito, no último sábado (2), artigo sobre a desqualificação dos votos dos pobres, o jornalista Eugênio Bucci defende o pluralismo e convoca os jornalistas à reflexão: uma opinião que precisa silenciar outra para se afirmar corrói a si mesma, diz Eugênio Bucci.

Eugênio Bucci – O Estado de S.Paulo

Os recentes ataques contra os jornais disparados dos mais altos gabinetes da República – ataques devidamente rechaçados por jornalistas e empresas de comunicação – talvez nos façam perder de vista que há, sim, problemas graves na imprensa brasileira. É natural que, sob agressão de autoridades, editores e repórteres se unam para se defender e reafirmar sua liberdade. É natural, compreensível e até mesmo necessário. Isso não significa, porém, que os órgãos de imprensa não estejam, permanentemente, sob exame implacável – não do poder, mas do público. E que não tenham defeitos. Todos os dias o trabalho dos jornalistas passa pelo crivo da sociedade, que os julga sem coleguismo nem condescendência. Todos os dias surgem sinais de desconfiança, aqui e ali. Prestemos atenção a isso. Muito se diz que sem imprensa livre não há democracia, mas será que a nossa imprensa, hoje, está à altura dos desafios que pesam sobre a nossa democracia?

Jornalistas deveriam fazer-se essa pergunta diariamente. Principalmente agora, quando caminhamos para o segundo turno. Aliás, essa pergunta deveria ser afixada, em letras de mármore, em néon, em reluzentes letras garrafais, nas paredes de todas as redações. Em corpo menor, logo abaixo, poderiam vir outras indagações.

A imprensa tem sido capaz de esclarecer os pontos que interessam no debate eleitoral? Ela investiga, escuta, apura e checa as propostas de cada candidato com independência e honestidade? Ela compara? Ela ajuda o eleitor a comparar? Ela está a serviço de que o cidadão forme livremente o seu ponto de vista ou se move apenas com o propósito de doutriná-lo a favor de um ou outro lado? Quando assumem uma posição, as publicações deixam claras as razões que as levaram a isso? Ou apenas disfarçam de informação objetiva as suas opiniões subjetivas? Lendo o noticiário, os artigos de opinião e os editoriais, o cidadão percebe que há boa-fé ou pressente agendas ocultas, não declaradas, que o deixam inseguro e desconfortável?

O diagnóstico da qualidade editorial de cada órgão de imprensa depende, entre outras, das respostas que se seguem a cada uma dessas interrogações. E aqui chegamos ao ponto. Essas respostas serão mais (ou menos) positivas quanto mais (ou menos) cada redação cultivar o valor do pluralismo.

A palavra anda em desuso, é verdade, mas sem pluralismo não há democracia – e muito menos imprensa. Por certo, nenhum jornal pode assumir o dever de publicar igualmente todas as opiniões e todos os pontos de vista de todas as pessoas. Isso seria loucura – ou hipocrisia. Uma fórmula editorial é sempre um corte, uma escolha arbitrária, e não há nada de errado nisso. Porém, mesmo dentro do seu corte, da sua escolha editorial, um órgão de imprensa há de saber que sua credibilidade decorre justamente do respeito que reserva às opiniões divergentes. Uma opinião que precisa silenciar outra para se afirmar corrói a si mesma. Já temos história suficiente para saber que o vício da intolerância não consegue apagar o intolerado – apenas desacredita o intolerante. É ele, não sua vítima, que perde autoridade. Leia mais »


Cureau, a censora. Por Mino Carta

Cureau, a censora

24 de setembro de 2010

Conta-se aqui uma história insolitamente verdadeira de uma tentativa de assalto à liberdade de imprensa. Vale insistir: esta é autêntica.

Por Mino Carta, na CartaCapital

Permito-me sugerir à doutora Sandra Cureau, vice-procuradora-geral da Justiça Eleitoral, que volte a se debruçar sobre os alfarrábios do seu tempo de faculdade, livros e apostilas, sem esquecer de manter à mão os códigos, obras de juristas consagrados e, sobretudo, a Constituição da República. O erro que cometeu ao exigir de CartaCapital, no prazo de cinco dias, a entrega da documentação completa do nosso relacionamento publicitário com o governo federal nos leva a duvidar do acerto de quem a escolheu para cargo tão importante.

Refiro-me, em primeiro lugar, ao erro, digamos assim, técnico. Aceitou uma denúncia anônima para proceder contra a revista e sua editora. Diz ela conhecer a identidade do denunciante, acoberta-o, porém, sob o manto do sigilo condenado pelo texto constitucional e por decisões do Supremo Tribunal Federal. Protege quem, pessoa física ou jurídica, condiciona a denúncia ao silêncio sobre seu nome. Ou seja, a vice-procuradora comete uma clamorosa ilegalidade.

Há outro erro, ideológico. Quem deveria zelar pela lisura do embate eleitoral endossa a caluniosa afronta que há tempo é cometida até por colegas jornalistas ardorosamente empenhados na campanha do candidato tucano à Presidência. A ilação desfraldada a partir do apoio declarado, e fartamente explicado por CartaCapital, à candidatura- de Dilma Rousseff revela a consistência moral e ética, democrática e republicana dos acusadores, ou por outra, a total inconsistência. A tigrada não concebe adesão a uma candidatura sem a contrapartida em florins, libras, dracmas. Reais justificados por abundante publicidade governista.

Sabemos ser inútil repetir que a publicidade governista premia mais fartamente outras publicações. Sabemos que José Serra, ainda governador, mas de mira posta na Presidência, assinou belos contratos de compra de assinaturas com todas as maiores empresas jornalísticas do País, com exceção, obviamente, da editora de CartaCapital. Sabemos que não é o caso de esperar pela solidariedade- dos patrões da mídia e dos seus empregados, bem como das chamadas entidades de classe, sem falar da patética Sociedade Interamericana de Imprensa. Estas, aliás, se apressam a apoiar a campanha midiática que aponta em Lula o perigo público número 1 para a democracia e a liberdade de imprensa.

Nem todos os casos denunciados pela mídia nativa merecem as manchetes de primeira página, um e outro nem mesmo um pálido registro. É inegável, contudo, que dentro do PT há uma lamentável margem de manobra para aloprados de extrações diversas. CartaCapital tem dado o devido destaque a crimes como a quebra de sigilo fiscal e a deploráveis fenômenos de nepotismo e clientelismo, embora não deixe de apontar a ausência das provas sofregamente buscadas pelos perdigueiros da informação, em vão até o momento, de ligações com a campanha de Dilma Rousseff.

Vale, porém, discutir as implicações da liberdade de imprensa, e de expressão em geral. É do conhecimento até do mundo mineral que a liberdade de informar encontra seus limites no Código Penal. Se o jornalista acusa, tem de provar a acusação. E informar significa relatar fatos. Corretamente. Quanto à opinião, cada um tem direito à sua.
Muito me agrada que o Estadão e o Globo em editoriais e, se não me engano,- um colunista tenham aproveitado a sugestão feita por mim na semana passada. Por que não comparar Lula a Luís XIV, além de Mussolini e Hitler? Compararam, para ampliar o espectro da evocação. De ditadores de extrema-direita a um monarca por direito divino, aprazível passeio pela história. Volto à carga: sinto a falta de Stalin, talvez fosse personagem mais afinada com a personalidade de Lula, aquele que ia transformar o Brasil em república socialista. Quem sabe, a tarefa fique para a guerrilheira terrorista, assassina de criancinhas.
Espero ter sido útil, com uma contribuição aos delírios de quem percebe o poder a lhe escorrer entre os dedos. A campanha midiática a favor do candidato tucano não é digna do país que o Brasil merece ser, e sim adequada ao manicômio. Aumenta o clamor de grupelhos de inconformados de uma velha-guarda que não dispensa militares de pijama, todos protagonistas de um espetáculo que fica entre a ópera-bufa e o antigo Pinel. Que tem a ver com liberdade de imprensa acusar Lula e Dilma de pretenderem “mexicanizar”, ou “venezuelizar” o Brasil? Ou enterrar a democracia?

Mesmo que o presidente não pronuncie sempre palavras irretocáveis, onde estão as provas desse terrificante projeto? Temos, isto sim, as provas em sentido contrário: os golpistas arvoram-se a paladinos de uma legalidade que eles somente ameaçam. A união da mídia já produziu alguns entre os piores momentos da história brasileira. A morte de Getúlio Vargas, presidente eleito, a resistência a Juscelino, o golpe de 1964 e suas consequências 21 anos a fio, sem contar com a oposição à campanha das Diretas Já. Ou com o apoio maciço à candidatura de Fernando Collor, à reeleição de Fernando Henrique, às privatizações vergonhosamente manipuladas.

É possível perceber agora que este congraçamento nunca foi tão compacto. Surpreende-me, por exemplo, o aproveitamento que o Estadão faz das reportagens de Veja, citada com todas as letras. Em outros tempos não seria assim, a família Mesquita tachava os Civita de “argentários” em editoriais da terceira página. As relações entre os mesmos Mesquita, os Frias e os Marinho não eram também das melhores. Hoje não, hoje estão mais unidos do que nunca. Pelo desespero, creio eu.

A união, apesar das divergências, sempre os trouxe à mesma frente quando o risco foi comum. Ameaça ardilosamente elevada à enésima potência para justificar o revide pronto e imediato. E exorbitante. A aliança destes dias tem uma peculiaridade porque o risco temido por eles é real, a figurar uma situação muito pior do que aquela imaginada até o começo de 2010. Desespero rima com conselheiro, mas como tal é péssimo. De sorte que estão a se mover para mais uma Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade. A derradeira, esperamos. Não nos iludamos, no entanto. São capazes de coisas piores.

Otimista em relação ao futuro, na minha visão vivemos os estertores de um sistema, mudança essencial ao sabor de um confronto social em andamento, sem violência, sem sangue. Diria natural, gerado pelo desenvolvimento, pelo crescimento. Donde, por mais sombrios que sejam os propósitos dos verdadeiros inimigos da democracia, eles, desta vez, no pasaran. Eles próprios se expõem a risco até ontem inimaginável. Se houver chance para uma tentativa golpista, desta vez haverá reação popular, com consequências imprevisíveis.

Episódio representativo da situação, conquanto não o mais assombroso, longe disso, é a demanda da vice-procuradora da Justiça Eleitoral para averiguar se vendemos, ou não, a nossa alma. Falo em nome de uma pequena redação que não desiste há 16 anos na prática do jornalismo honesto, pasma por estar sob suspeita ao apoiar às claras a candidatura Dilma.

Sugiro à doutora Sandra que, de mão na massa, verifique também se a revista IstoÉ recebeu lauta compensação do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema quando o acima assinado em companhia do repórter Bernardo Lerer, escreveu uma reveladora, ouso dizer, reportagem sobre Luiz Inácio da Silva, melhor conhecido como Lula, publicada em fevereiro de 1978. Ou se acomodou-se em uma espécie de mensalão ao publicar oito capas a respeito da ação de Lula à frente de uma sequência de greves entre 1978 e 1980. Ou se me locupletei pessoalmente por ter estado ao lado dele na noite de sua prisão, e da sua saída da cadeia, quando enquadrado pela ditadura na Lei de Segurança Nacional, bem como nas suas campanhas como candidato à Presidência da República. Desde o dia em que conheci o atual presidente da República, pensei: este é o cara.


A Estapafúrdia Visão de Joseph Ratzinger. Por Ubiracy de Souza Braga

Ubiracy de Souza Braga - Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências (USP). Professor da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (uece).

O papa Bento XVI chega na missa em memória do papa João Paulo II. Foto: Reuters

Joseph Ratzinger nasceu em Marktl am Inn, uma pequena vila na Baviaria, na Alemanha. Criado em um ambiente antissocialista, Ratzinger iniciou sua carreira no catolicismo em 29 de junho de 1951, quando ele e seu irmão Georg Ratzinger foram ordenados sacerdotes pelo cardeal Faulhber de Munique. Em 25 de março de 1977 ascendeu ao cargo de Arcebispo de Munique e Freising. Apenas três meses depois (no dia 27 de junho) é ordenado Cardeal do consistório, data essa em que recebeu o título presbiteral de “Santa Maria da Consolação no Tiburtino”. Foi a partir dessa data que Ratzinger angariou novos cargos e prestígios na cúria romana, como apresentamos a seguir: Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (antiga Suprema e Sacra Congregação do Santo Ofício); Cardeal-bispo da Sé Episcopal de Velettri-Segni (1993); Decano do colégio Cardinalício (2002); Papa (2005).

Contudo, importa-nos descrever e explicar as linhas do pano de fundo ideológico que antecedem à sua formação ao catolicismo nos começos do século. Heinrich Finke havia obtido uma cátedra de História na Universidade de Friburgo no final do século passado. Suas posições respaldadas em vasto trabalho de arquivo sobre a história da Igreja da Idade Média caracterizavam-se por um engajamento irrestrito a favor de um Estado nacional: a fundação do Reich por Bismarck, em 1870-1871, parecia-lhe um acontecimento de proporções colossais. Finke, que só concebia o Estado moderno como herdeiro do imperium medieval, festejava, por conseguinte o “imperialismo mundial” como a mais elevada obra dos “povos germânicos” que, ao reintegrar o princípio nacional à história universal, realizam uma missão de grandeza incomparável. Finke era um membro do Partido Católico, o Zentrum. Leia mais »


A mídia comercial em guerra contra Lula e Dilma. Por Leonardo Boff

O que está ocorrendo já não é um enfrentamento de idéias e de interpretações e o uso legítimo da liberdade da imprensa. Está havendo um abuso da liberdade de imprensa que, na previsão de uma derrota eleitoral, decidiu mover uma guerra acirrada contra o Presidente Lula e a candidata Dilma Rousseff. Nessa guerra vale tudo: o factóide, a ocultação de fatos, a distorção e a mentira direta. Precisamos dar o nome a esta mídia comercial. São famílias que, quando vêem seus interesses comerciais e ideológicos contrariados, se comportam como “famiglia” mafiosa. O artigo é de Leonardo Boff.

Por Leonardo Boff na Carta Maior

Sou profundamente pela liberdade de expressão em nome da qual fui punido com o “silêncio obsequioso”pelas autoridades do Vaticano. Sob risco de ser preso e torturado, ajudei a editora Vozes a publicar corajosamente o “Brasil Nunca Mais” onde se denunciavam as torturas, usando exclusivamente fontes militares, o que acelerou a queda do regime autoritário.

Esta história de vida, me avaliza para fazer as críticas que ora faço ao atual enfrentamento entre o Presidente Lula e a midia comercial que reclama ser tolhida em sua liberdade. O que está ocorrendo já não é um enfrentamento de idéias e de interpretações e o uso legítimo da liberdade da imprensa. Está havendo um abuso da liberdade de imprensa que, na previsão de uma derrota eleitoral, decidiu mover uma guerra acirrada contra o Presidente Lula e a candidata Dilma Rousseff. Nessa guerra vale tudo: o factóide, a ocultação de fatos, a distorção e a mentira direta.

Precisamos dar o nome a esta mídia comercial. São famílias que, quando vêem seus interesses comerciais e ideológicos contrariados, se comportam como “famiglia” mafiosa. São donos privados que pretendem falar para todo Brasil e manter sob tutela a assim chamada opinião pública. São os donos do Estado de São Paulo, da Folha de São Paulo, de O Globo, da revista Veja na qual se instalou a razão cínica e o que há de mais falso e chulo da imprensa brasileira. Estes estão a serviço de um bloco histórico, assentado sobre o capital que sempre explorou o povo e que não aceita um Presidente que vem deste povo. Mais que informar e fornecer material para a discussão pública, pois essa é a missão da imprensa, esta mídia empresarial se comporta como um feroz partido de oposição. Leia mais »


A última luta contra a ditadura. Por Miguel do Rosário

por Miguel do Rosário, no Óleo do Diabo

A julgar pelos editoriais, a imprensa brasileira se acha uma vítima trêmula e indefesa, pronta para ser devorada pelo bicho papão totalitário. Claro que há o constrangimento de ter apoiado a ditadura, contra o mesmo bicho papão, mas se ele (o papão) não existia antes e mesmo assim justificou-se um golpe de Estado, não é tão difícil inventar novamente o mesmo inimigo; dessa vez não exatamente para dar um golpe, mas algo mais fácil, como queimar um candidato e eleger outro. Considerando que esses jornais transformaram-se em poderosos conglomerados econômicos à sombra do regime militar, pode-se especular que nossa batalha contra os desmandos desses grupos consiste na última luta dos brasileiros contra o fascismo que pendurou nossa liberdade e nossas esperanças, por vinte longos anos, num pau de arara.

Como empresas privadas, os jornais têm liberdade para defender ou atacar seja quem for, mas a Constituição ficaria grata se evitassem desrespeitar o direito dos indivíduos à honra e à privacidade e, sobretudo, se se esforçassem em conter seus ódios pessoais e tratassem as instituições democráticas e seus representantes com um mínimo de decoro e respeito. Não pedimos isenção. Ao contrário, pedimos honestidade em declarar sua preferência partidária, como fazem os jornais norte-americanos, o que ajudaria os leitores a separar notícia de opinião e entender melhor o que estão lendo. Leia mais »


A crise do poder de subjetividades!

Clodoaldo Almeida da Paixão, professor do Departamento de Ciências Humanas e Filosofia (DCHF) da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Mestre em Sociologia (UFPB) e Doutorando em Família na Sociedade Contemporânea (UCSAL).


A Política mudou e está operando uma derrota fantástica às forças políticas conservadoras. É o que tem sido demonstrado pelas pesquisas eleitorais desde o último pleito para eleição de prefeito. Trata-se, ao que tudo indica, da emergência de nova cultura política. O fenômeno, de ponto de vista analítico, é muito mais profundo.

Três históricas instituições conquistaram o poder de subjetivação social, política e moral. A Ciência, o Estado e a Igreja passaram a subjetivar a sociedade, inscrevendo-lhe uma identidade: científica, jurídica e moral. Cada um à sua maneira, como requer o Estado laico. Sendo essa, aliás – pelo menos em tese, a grande novidade presente no pensamento político moderno.

A primeira, a Ciência, reteve a função de subjetivar todos os processos sociais a partir de categorias de pensamento (conceito), cabendo-lhe o papel explicativo a partir de uma racionalidade científica. O antropocentrismo significou mais do que o deslocamento de Deus para o Homem como centro do mundo. Sim, representou o mundo sob o olhar da razão humana, inclusive Deus. Essa a denúncia fundamental presente na obra de René Descartes, entre outros. Razão pela qual, aliás, Michel Foucault declara o nascimento do homem, porque a partir de então objeto do discurso científico.

Outro foi o Estado que se impôs desde que foi criado como principal racionalidade normativa da vida social. O Direito, seu instrumento político fundamental, opera o processo de enquadramento social coletivo em todos os âmbitos. A tentativa (bem sucedida até certo ponto) de representar juridicamente o máximo de acontecimentos da vida social e não por acaso, quer queiramos ou não, quer saibamos ou não, somos uma representação também jurídica. É a vida humana sob a orientação e a lógica da racionalidade jurídica, tendo o Estado como único demandador positivo, como primeiramente indicou Thomas Hobbes em sua obra Leviatã para o posterior acabamento e consolidação por Hans Kelsen. O que significou dizer que só ao Estado é dado o direito de demandar o Direito, poder legitimamente (como quer Max Weber in A Burocracia) estabelecer napara sociedade o que é legal ou ilegal. Leia mais »


A UFRB e o progresso da ciência

De 14 a 17 de setembro deste ano a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia sediará a Reunião Regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Fundada em 1948, à época com 265 sócios, a SBPC foi criada nos moldes de outras sociedades afins, já existentes em outros lugares do mundo. Mais de sessenta anos de passaram desde a gestação desta sociedade. Hoje a SBPC é uma das mais respeitáveis e produtivas instituições de fomento à ciência no Brasil.

Em Cruz das Almas, cidade que sedia a Reitoria da UFRB, serão realizadas 12 conferências, 13 mesas-redondas e 68 minicursos durante o encontro da SBPC. Alegra-nos saber que quase 12 mil pessoas estão inscritas nestas atividades, o que, sem sobra de dúvidas, atesta o sucesso da iniciativa. Este é um recorde de público nas reuniões regionais da entidade.

A realização de eventos deste porte no Recôncavo Baiano somente é possível devido à outra grande obra da ciência nacional: a criação, cinco anos atrás, da UFRB, a federal do Recôncavo.

Muitas vezes não nos damos conta do real significado do processo de interiorização do ensino federal superior, retomado pujantemente pelo presidente Luis Inácio Lula da Silva. A realização da SBPC no Recôncavo Baiano nos dá a oportunidade de refletir sobre o real significado da criação de uma universidade federal no interior do Brasil e, ainda mais, sobre o grande processo civilizatório que esta criação acarreta.

A criação da UFRB, embora complexa, parte de um pressuposto simples: não somos menores que ninguém. Foi esta certeza que impulsionou a comunidade do Recôncavo Baiano a se organizar e conquistar uma universidade federal em nosso território. O povo do Recôncavo atuou de forma a exigir a retomada do pacto federativo no ensino superior federal. Após quase cinqüenta reuniões e audiências públicas, nossa comunidade triunfou e a UFRB agora é uma realidade.

A realização da Reunião Regional da SBPC no Recôncavo Baiano é prova indubitável do papel da UFRB para o desenvolvimento da ciência em nosso Estado. As mais de 7.600 inscrições nas atividades direcionadas ao ensino básico e as mais de 4.500 inscrições nas atividades acadêmicas da SBPC são demonstrações cabais de que o povo quer e precisa de atividades científicas.

O fato da SBPC ser realizada em nossa federal do Recôncavo, por sua vez, é prova inconteste de que a UFRB está cumprindo a função de “devolver ao homem a dignidade que lhe foi furtada”, como nos ensinou o mestre Miguel Arroyo.

O Recôncavo Baiano é também a terra da ciência.

Por Charles Carmo


Consolidar a ruptura histórica operada pelo PT. Por Leonardo Boff

Mas essa derrota infligida às elites excludentes e anti-povo, deve ser consolidada nesta eleição por uma vitória convincente para que se configure um "não retorno definitivo" e elas percam a vergonha de se sentirem povo brasileiro assim como é e não como gostariam que fosse. Terminou o longo amanhecer. Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor. Autor de, entre outros livros, Depois de 500 anos: que Brasil queremos (Editora Vozes).

Do Adital

Para mim o significado maior desta eleição é consolidar a ruptura que Lula e o PT instauraram na história política brasileira. Derrotaram as elites econômico-financeiras e seu braço ideológico, a grande imprensa comercial. Notoriamente, elas sempre mantiveram o povo à margem da cidadania, feito, na dura linguagem de nosso maior historiador mulato, Capistrano de Abreu, “capado e recapado, sangrado e ressangrado”. Elas estiveram montadas no poder por quase 500 anos. Organizaram o Estado de tal forma que seus privilégios ficassem sempre salvaguradados. Por isso, segundo dados do Banco Mundial, são aquelas que, proporcionalmente, mais acumulam no mundo e se contam, política e socialmente, entre as mais atrasadas e insensíveis. São vinte mil famílias que, mais ou menos, controlam 46% de toda a riqueza nacional, sendo que 1% delas possui 44% de todas as terras. Não admira que estejamos entre os países mais desiguais do mundo, o que equivale dizer, um dos mais injustos e perversos do planeta.

Até a vitória de um filho da pobreza, Lula, a casa grande e a senzala constituíam os gonzos que sustentavam o mundo social das elites. A casa grande não permitia que a senzala descobrisse que a riqueza das elites fora construída com seu trabalho superexplorado, com seu sangue e suas vidas, feitas carvão no processo produtivo. Com alianças espertas, embaralhavam diferentemente as cartas para manter sempre o mesmo jogo e, gozadores, repetiam: “façamos nós a revolução antes que o povo a faça”. E a revolução consistia em mudar um pouco para ficar tudo como antes. Destarte, abortavam a emergência de outro sujeito histórico de poder, capaz de ocupar a cena e inaugurar um tempo moderno e menos excludente. Entretanto, contra sua vontade, irromperam redes de movimentos sociais de resistência e de autonomia. Esse poder social se canalizou em poder político até conquistar o poder de Estado. Leia mais »


Jefferson atira em Serra: barata voa! Por Rodrigo Vianna

Do Escrevinhador

Pintou o “barata voa”* na campanha de Serra. Cada um corre pra um lado tentando se salvar. É debandada geral. Talvez sobre o Ali Kamel (o suposto jornalista, não o ator), Frias Filho e a turma dos Civita. E olhe lá!

Alckmin precisa manter a fortaleza em São Paulo. Beto Richa talvez consiga no Paraná. Tá difícil do Aécio emplacar o Anastasia em Minas – mas ainda tem jeito. E o melhor caminho pra salvar alguma coisa no terreno da oposição parece ser abandonar o Serra.

Serra caminha para repetir o Cristiano Machado, 60 anos mais tarde. Era o candidato do PSD em 1950 – abandonado pelo partido, que preferiu apoiar Vargas. Sobre isso, escrevi aqui.

Quem deu a senha pro barata voa hoje foi o Roberto Jefferson (aquele que detonou o tal “mensalão”). Vejam o que ele andou escrevendo no twitter, segundo o relato do Brizola Neto:

“O twitter de Roberto Jefferson virou um mural de imprecações contra José Serra. Até copiei a tela, para o caso de pressões irresistiveis “destuitarem” o que Jefferson diz.  Alguns pequenos exemplos do elevado nivel de solidariedade moral entre o presidente do (não confundir com o de Vargas) PTB, que há um mês e meio, ilegalmente, cedeu o programa em rede de seu partido para o “coiso”.

1 – Nem conheço o Serra

“Eu apoio Serra a pedido do Geraldo Alckmin. Sou Geraldo, não conheço o Serra. Só de ouvir falar.”

“Eu encontrei com o Serra duas vezes. Uma na convenção do PTB. Outra na casa do Geraldo Alckmin.”

“Quando chego a São Paulo encontro o Sergio Guerra, o Eduardo Jorge e o Marcio Fortes. E para aí. Nunca conversei com o Serra.”

2 – Serra é uma bobagem

“Serra é responsável pela nossa dispersão. Nunca nos reuniu.”

“Se o Gonzalez ouvisse um pouco os políticos, não poria no ar uma favela fake, nem o bobajol do Zé.”

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*Em 1997 eu era um paulista recém chegado ao Rio; tive o prazer de conhecer o cinegrafista (e filósofo popular) Carlos Trinta. Entre outras pérolas do carioquês, ele me ensinou o que era “barata voa” (a expressão, naquele época, ainda era mais usada em alguns nichos do subúrbio, não tinha chegado à zona sul). Foi numa reportagem em que íamos acompanhar a visita do (então) governador Marcelo Allencar à Cidade de Deus. O Trinta vira pra mim e diz: “maluco, quando o Velho Barreiro chegar vai ser uma barata voa do c…” Não deu outra. Marcelo chegou, meio cambaleante, e deu-se o barata voa generalizado. Como agora, na campanha de Serra.


O suicídio da velha mídia. Por Luis Nassif

Uma hora o PIG terá que encarar o beco sem saída em que se meteu. Foto: Google

Em 2006 já falava aqui no suicídio da mídia,quando decidiu transformar a queda (ou derrota) de Lula em guerra santa.

O que houve ontem, no Jornal Nacional, mostra que a insensatez não tem limites. A entrevista de Serra não mudará o panorama eleitoral. Dilma continua favorita.

Mas suponhamos que a armação desse resultados, invertesse o jogo e colocasse Serra como favorito. O que ocorreria com a opinião pública? Haveria apenas críticas, a bonomia do governo, Dilma convidando o casal para jantar? Claro que não: haveria comoção popular, uma guerra sem quartel.

Há muito a velha mídia atravessou o Rubicão da prudência.

O que está em jogo, da parte dela, é a montagem de uma barricada para impedir a invasão estrangeira do setor por empresas de telecomunicações e grupos de mídia.

No começo, havia a estratégia clara (e imprudente) de tentar derrubar Lula – ou fazê-lo sangrar – e apoiar um candidato que viesse lhe comer à mão e ajudasse a barrar a invasão estrangeira.

Apostou e perdeu. Nem com todo apoio, o campeão branco, José Serra, logrará vencer.

Passadas as eleições, a velha mídia terá que encarar seus demônios. E é evidente, depois de ter avançado ainda mais no pântano da interferência política, que o objetivo maior do próximo governo será acabar com os privilégios, com o monopólio da informação. Ou seja, acabando com o último cartório da economia.

E quem vai apoiá-la?

Essa postura arrogante, quase golpista, rompeu qualquer laço de solidariedade com setores nacionais. A velha mídia era temida por muitos setores empresariais da economia real. Hoje é desprezada.

Não haverá apoio de grandes grupos econômicos, porque a guerra não é deles. E são grupos que já aprenderam a montar grandes parcerias com empresas internacionais. Uma coisa é inventar fantasmas de Farcs, Moralez, Fidel, essas bobagens sem fim. Outra é convencer os aliados de hoje que Telefonica, grupos portugueses, Pisa e outros que estão entrando representam interesses do Foro São Paulo.

Das multi? Só faltava as multinacionais, que na Constituinte conseguiram equiparação com as nacionais no setor real da economia, ampararem qualquer tentativa de criar cartórios na mídia.

Para os políticos, há muito a velha mídia é fator de risco. Sabem que elogios ou acusações estão submetidos a jogos de interesses empresariais. Preferem o diabo a uma imprensa cartelizada e exercendo o poder de forma ilimitada, como foi nas últimas duas décadas.

Para o mercado financeiro, nem pensar. No máximo acenam com possibilidades futuras de parcerias, mas de olho em apenas um ativo da velha mídia: o poder de influenciar mercado e governos. E esse ativo está sendo gasto rapidamente com a perda de qualidade e de influência dos jornais, o envolvimento permanente com factóides e o descolamento da parcela majoritária de opinião pública.

Por acaso pensam que investidores técnicos irão investir em setores com baixa governança corporativa e baixa rentabilidade?

As manifestações de Otávio Frias Filho – citando Rupert Murdoch como exemplo -, a associação da Abril com a Napster, mostram que tentou-se aqui, tardiamente, a mesma fórmula empregada em outros países. Trata-se de utilizar o poder político da mídia, antes que acabe, para pavimentar a transição para a nova etapa tecnológica.

A questão é que, com exceção da Globo, nenhum grupo tem condições de ser dominante na nova etapa, porque nenhum grupo pensou estrategicamente na travessia, mas apenas em barrar futuros competidores.

É fácil prever o futuro desses grupos nos próximos anos.

A Folha será salva pela UOL, mas como grupo econômico. Jamais a UOL conseguirá um décimo do poder político que a Folha deteve nos anos 90 e 2000.

A Abril não tem plano de vôo. Queimou a ponte quando abriu mão da BOL e da TVA.

Sabe que seu carro-chefe – a Veja impressa – está em queda livre. O mercado estima uma tiragem real de 780 mil exemplares – contra os 1,1 milhão apregoados pela mídia. Quando os clientes de publicidade exigirem um ajuste nos valores cobrados, proporcional à queda real das vendas, a Abril entra em sinuca.

Para enfrentar os novos tempos, fez investimentos maciços no portal Veja, que é um equívoco sem tamanho. Ora, a editora sempre teve a cultura da publicação semanal, quinzenal ou mensal. Jamais trabalhou sequer com a informação diária. Sei na prática o choque cultural que é passar do padrão semanal para o diário. Agora, ela quer do nada criar um portal com notícias online, sem prática e entrando em um mercado em que já existem serviços online consolidados, como o G1, UOL, Terra, IG. Não será sequer mais um. Será menos um.

A compra do Anglo com recursos pessoais dos Civita mostra claramente que, cada vez mais, deixará a operação midiática para os sul-africanos e se salvará em novos negócios – como os da educação – onde o poder de fogo da revista permita ganhos indiretos junto ao poder público.

O Estadão tem a melhor estratégia multimídia (depois da Globo), mas é um grupo à venda e sem fôlego financeiro, definitivamente preso aos conflitos familiares. Manterá um jornalismo de nicho, bem construído, trabalhando seu público mais conservador e de bom nível. Mas sem grandes vôos e sem influência política.

Nesse quadro, restará apenas a Globo, cercada de inimigos por todos os lados e perdendo a cada dia legitimidade e alianças.

É um pessoal bom de jornalismo. Com exceção do inacreditável O Globo, tem jornalismo de primeira na CBN, na Globonews, no G1 e posição dominante na TV aberta, apesar de toda a parcialidade do grupo de Kamel.

Mas, graças à miopia dos sucessores e às loucuras de Ali Kamel, será cada vez mais alvo das invasões bárbaras, seja da Record, seja grupos de fora, seja de todos os inimigos que acumulou nesses anos de arrogância cega.

O jogo acabou. Agora começam as apostas para o novo jogo que virá pela frente.


Por que persiste a Igreja-poder? Por Leonardo Boff

Instituições autoritárias possuem uma mesma lógica de autoreprodução. Não é diferente com a Igreja-instituição. Este exercício de poder não tem nada de divino. Era o que Jesus exatamente não queria. Ele queria a "hierodulia" (sagrado serviço) e não a "hierarquia" (sagrado poder).

Da Carta Maior

Vou abordar um tema incômodo, mas incontornável: como pode a instituição-Igreja, como a descrevi num artigo anterior, com características autoritárias, absolutistas e excludentes se perpetuar na história? A ideologia dominante responde: “só porque é divina”. Na verdade, este exercício de poder não tem nada de divino. Era o que Jesus exatamente não queria. Ele queria a hierodulia (sagrado serviço) e não a hierarquia(sagrado poder). Mas esta se impôs através dos tempos.

Instituições autoritárias possuem uma mesma lógica de autoreprodução. Não é diferente com a Igreja-instituição. Em primeiro lugar, ela se julga a única verdadeira e tira o título de “igreja” a todas as demais. Em seguida cria-se um rigoroso enquadramento: um pensamento único, uma única dogmática, um único catecismo, um único direito canônico, uma única forma de liturgia. Não se tolera a crítica nem a criatividade, vistas como negação ou denunciadas como criadoras de uma Igreja paralela ou de um outro magistério.

Em segundo lugar, se usa a violência simbólica do controle, da repressão e da punição, não raro à custa dos direitos humanos. Facilmente o questionador é marginalizado, nega-se-lhe o direito de pregar, de escrever e de atuar na comunidade. O então Card. Joseph Ratzinger, Presidente da Congregação para a Doutrina da Fé, em seu mandato, puniu mais de cem teólogos. Nesta mesma lógica, pecados e crimes dos sacerdotes pedófilos ou outros delitos, como os financeiros, são mantidos ocultos para não prejudicar o bom nome da Igreja, sem o menor sentido de justiça para com as vítimas inocentes.

Em terceiro lugar, mitificam-se e quase idolatram-se as autoridades eclesiásticas principalmente o Papa que é o “doce Cristo na Terra”. Penso eu lá com meus botões: que doce Cristo representava o Papa Sérgio (904), assassino de seus dois predecessores ou o Papa João XII (955), eleito com a idade de 20 anos, adúltero e morto pelo marido traído ou, pior, o Papa Bento IX (1033), eleito com 15 anos de idade, um dos mais criminosos e indignos da história do papado, chegando a vender a dignidade papal por 1000 liras de prata?

Em quarto lugar, canonizam-se figuras cujas virtudes se enquadram no sistema, como a obediência cega, a contínua exaltação das autoridades e o “sentir com a Igreja (hierarquia)”, bem no estilo fascista segundo o qual “o chefe (o ducce, o Führer) sempre tem razão”.

Em quinto lugar, há pessoas e cristãos com natureza autoritária, que acima de tudo apreciam a ordem, a lei e o princípio de autoridade em detrimento da lógica complexa da vida que tem surpresas e exige tolerância e adaptações. Estes secundam esse tipo de Igreja bem como regimes políticos autoritários e ditatoriais. Aliás, há uma estreita afinidade entre os regimes ditatoriais e a Igreja-poder como se viu com os ditadores Franco, Salazar, Mussolini, Pinochet e outros. Padres conservadores são facilmente feitos bispos e bispos fidelíssimos a Roma são promovidos, fomentando a subserviência. Esse bloco histórico-social-religioso se cristalizou e garantiu a continuidade a este tipo de Igreja.

Em sexto lugar, a Igreja-poder sabe do valor dos ritos e símbolos pois reforçam identidades conservadoras, pouco zelando por seus conteúdos, contanto que sejam mantidos inalteráveis e estritamente observados.
Em razão desta rigidez dogmática e canônica, a Igreja-instituição não é vivida como lar espiritual. Muitos emigram. Dizem sim ao cristianismo e não à Igreja-poder com a qual não se identificam. Dão-se conta das distorções feitas à herança de Jesus que pregou a liberdade e exaltou o amor incondicional.

Não obstante estas patologias, possuímos figuras como o Papa João XXIII, Dom Helder Câmara, Dom Pedro Casaldáliga, Dom Luiz Flávio Cappio e outros que não reproduzem o estilo autoritário, nem apresentam-se como autoridades eclesiásticas mas como pastores no meio do Povo de Deus. Apesar destas contradições, há um mérito que importa reconhecer: esse tipo autoritário de Igreja nunca deixou de nos legar os evangelhos, mesmo negando-os na prática, e assim permitindo-nos o acesso à mensagem revolucionária do Nazareno. Ela prega a libertação mas geralmente são outros que libertam.

Leonardo Boff é teólogo e escritor.


“Violência Enquadrada”: Lei Maria da Penha? Por Ubiracy de Souza Braga

Ubiracy de Souza Braga é sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em comunicação social (USP) e professor da coordenação do curso de ciências sociais da UECE – Universidade Estadual do Ceará.

Talvez a expressão utilizada por Slavoj Žižek: “violência enquadrada”, seja precisamente porque, “talvez, hoje, Jô seja o herói apropriado: aquele que se recusa a buscar um significado mais profundo” (2008: 452). Em verdade ele quer retratar a “visão em paralaxe”: medida da mudança de posição aparente de um objeto em relação a um segundo plano mais distante, quando esse objeto é visto a partir de ângulos diferentes. Esse fenômeno óptico, relativamente simples, torna-se método e guia para seu livro, The Paralaxe View (2008), uma das mais ousadas aventuras filosófico-psicanalíticas de nosso tempo. E não devemos esquecer que a metáfora do fenômeno óptico surge também como instrumento crítico contra “as falsas formas do universal”, como é o caso do conservadorismo, no campo da política, com a exclusão do espaço político propriamente dito e a redução do potencial subversivo da noção de liberdade, seja individual, seja no plano coletivo das massas rurais e urbanas.

Note bem: o conservadorismo é um fenômeno universal para toda a espécie humana, mas é também um novo produto das condições históricas e sociais desta época, no que podemos dizer que há dois tipos de conservadorismo. Há o tipo que é mais ou menos universal, e outro definitivamente moderno que é produto de circunstâncias históricas e sociais particulares e que tem suas tradições, forma e estrutura próprias e particulares. Poderíamos chamar o primeiro tipo de “conservadorismo natural” e o segundo de “conservadorismo moderno”, se a palavra “natural” não estivesse já carregada de diversos significados e matizes desde o debate eurocêntrico a respeito no âmbito da filosofia como de resto nas ciências sociais em geral. Leia mais »


Serra comprova: a ira é imperialista

Moe Howard, o hilário pateta mau humorado. Na política não teria graça.

Quando a cólera domina o homem, passa a controlar o seu corpo, seus gestos, sua feição, suas palavras, tudo. A ira é imperialista. Pergunto aqui: qual de vocês, leitores sensatos, não reconhece um rosto de um homem com ódio? Quem não detecta uma fala irada?

Não sou especialista no assunto, mais creio que o reconhecimento destes códigos corporais é uma herança atávica, importante para a sobrevivência dos indivíduos e as relações sociais dos grupos. Aprendemos a reconhecê-los e reagimos de acordo com cada um deles, cada código causando uma reação diferente.

Isto posto, imagino os brasileiros que passam a ouvir e assistir, a cada dia, as entrevistas do candidato José Serra. E passam a olhar bem no fundo de seus olhos. E abrem os ouvidos para as palavras que saem da sua boca e, não raro, para o desequilíbrio com que são ditas.

Cada vez mais freqüente, os ataques do candidato José Serra aos profissionais de imprensa misturam-se aos ataques ao PT e são filtrados pelas lentes dos eleitores e vão, ataque a ataque, aumentando a rejeição do tucano.

O brasileiro, na qualidade de membro permanente da espécie humana, sabe reconhecer um candidato desesperado. Gestos públicos de arrogância e descontrole emocional não contribuirão em nada para mudar o quadro eleitoral.

Serra, um homo politicus, deveria saber disso. E sabe, mas a ira é imperialista.

Por Charles Carmo

Este último vídeo é mais antigo, entretanto, é relevante exemplo de quando um político deveria ter calado a boca.


Holanda: História, Política & Futebol. Por Ubiracy de Souza Braga

Ubiracy de Souza Braga é sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em comunicação social (USP) e professor da coordenação do curso de ciências sociais da UECE – Universidade Estadual do Ceará.

Fonte: Diário do Nordeste, Fortaleza - Ceará

Nossa autoestima como nação se apóia, sobretudo, na bola. Não ganhamos nenhum prêmio Nobel; nosso único santo, frei Galvão, ainda é pouco conhecido. Porém, somos o único país do mundo pentacampeão de futebol”.

Frei Betto

1 – História e Política: “capital legal do mudo”.

A gênese do capitalista industrial não se processou de um modo gradual como a do agricultor. É indiscutível para Marx e Engels, que muitos pequenos mestres de corporações e até pequenos artesãos mais independentes, ou mesmo trabalhadores assalariados, se transformaram em pequenos capitalistas e (através da extensão do trabalho assalariado e da correspondente acumulação) em capitalista. Na infância da produção capitalista, as coisas passaram em grande parte como na infância das cidades, onde a questão do saber qual dos servos evadidos devia ser o senhor e qual devia ser o servo foi muitas vezes decidida pela mais recente ou mais tardia de sua fuga. Para ambos, o passo de caracol deste método não correspondia de modo algum às exigências comerciais do novo mercado mundial que as grandes descobertas do fim do século XV tinham criado. Mas a Idade Média tinha deixado por herança duas formas distintas de capital, amadurecidas no interior das mais diversas formações econômicas, e que, antes do modo de produção capitalista, são consideradas de qualquer forma o capital usuário e o capital mercantil.

A descoberta do ouro e da prata na América, a extirpação, escravização e enterramento das populações autóctones nas minas, o começo da conquista e pilhagem nas Índias Orientais, a transformação da África numa espécie de coutada para a caçada comercial à peles-negras assinalavam o despontar da era capitalista. Estes processos idílicos são e representam, pois o ponto mais importante da acumulação primitiva. No seu seguimento, vem a guerra comercial das nações européias, que “tiene como teatro todo el globo terráqueo” (Marx, 1973: 731). Daí ser possível admitir Marx como o precursor da crítica analítica da idéia em sua progênie, hoje comum, da globalização. Ela começa com a revolta da Holanda contra a Espanha, assume dimensões gigantescas com a guerra anti-jacobina da Inglaterra e continua ainda com as guerras do ópio contra a China etc. Marx refere-se noutro lugar que a “razão desta erupção foi indiscutivelmente proporcionada pelo canhão inglês que lançou à força sobre a China essa droga soporífera chamada ópio” (Marx, 1973; 1978). Sobre este aspecto vejamos o que nos diz Burns (1967): Leia mais »


A velha mídia está derretendo. Por Antonio Lassance

Pesquisa aponta que quase 60% das pessoas acham que as notícias veiculadas pela imprensa brasileira são tendenciosas. Oito em cada dez brasileiros acreditam muito pouco ou não acreditam no que a imprensa veicula. Quanto maior o nível de renda e de escolaridade do brasileiro, maior o senso crítico em relação ao que a mídia veicula. Por Antonio Lassance.

Atentai PIG: estamos vencendo.

Por Charles Carmo

A velha mídia está derretendo

Por Antonio Lassance, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e professor de Ciência Política, na Carta Maior.

Como um iceberg a navegar em águas quentes e turbulentas, a velha mídia está derretendo. O mundo está mudando, o Brasil é outro e os brasileiros desenvolvem, aceleradamente, novos hábitos de informação.

Um retrato desse processo pode ser visto na recente pesquisa encomendada pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom-P.R.), destinada a descobrir o que o brasileiro lê, ouve, vê e como analisa os fatos e forma sua opinião.

A pesquisa revelou as dimensões que o iceberg ainda preserva. A televisão e o rádio permanecem como os meios de comunicação mais comuns aos brasileiros. A TV é assistida por 96,6% da população brasileira, e o rádio, por expressivos 80,3%. Os jornais e revistas ficam bem atrás. Cerca de 46% costumam ler jornais, e menos de 35%, revistas. Perto de apenas 11,5% são leitores diários dos jornais tradicionais.

Quanto à internet, os resultados, da forma como estão apresentados, preferiram escolher o lado cheio do copo. Avalia-se que a internet no Brasil segue a tendência de crescimento mundial e já é utilizada por 46,1% da população brasileira. No entanto, é preciso uma avaliação sobre o lado vazio do copo, ou seja, a constatação de que os 53,9% de pessoas que não têm qualquer acesso à internet ainda revelam um quadro de exclusão digital que precisa ser superado. Ponto para o Programa Nacional da Banda Larga, que representa a chance de uma mudança estrutural e definitiva na forma como os brasileiros se informam e comunicam-se.

A internet tem devorado a TV e o rádio com grande apetite. Os conectados já gastam, em média, mais tempo navegando do que em frente à TV ou ao rádio. Esse avanço relaciona-se não apenas a um novo hábito, mas ao crescimento da renda nacional e à incorporação de contingentes populacionais pobres à classe média, que passaram a ter condições de adquirir um computador conectado.

O processo em curso não levará ao desaparecimento da TV, do rádio e da mídia impressa. O que está havendo é que as velhas mídias estão sendo canibalizadas pela internet, que tornou-se a mídia das mídias, uma plataforma capaz de integrar os mais diversos meios e oferecer ao público alternativas flexíveis e novas opções de entretenimento, comunicação pessoal e “autocomunicação de massa”, como diz o espanhol Manuel Castells.

Ainda usando a analogia do iceberg, a internet tem o poder de diluir, para engolir, a velha mídia.

A pesquisa da Secom-P.R. dá uma boa pista sobre o grande sucesso das plataformas eletrônicas das redes sociais. A formação de opinião entre os brasileiros se dá, em grande medida, na interlocução com amigos (70,9%), família (57,7%), colegas de trabalho (27,3%) e de escola (6,9%), o namorado ou namorada (2,5%), a igreja (1,9%), os movimentos sociais (1,8%) e os sindicatos (0,8%). Alerta para movimentos sociais, sindicatos e igrejas: seu “sex appeal” anda mais baixo que o das(os) namoradas(os).

Estes números confirmam estudos de longa data que afirmam que as redes sociais influem mais na formação da opinião do que os meios de comunicação. Por isso, uma informação muitas vezes bombardeada pela mídia demora a cair nas graças ou desgraças da opinião pública: ela depende do filtro excercido pela rede de relações sociais que envolve a vida de qualquer pessoa. Explica também por que algo que a imprensa bombardeia como negativo pode ser visto pela maioria como positivo. A alta popularidade do Governo Lula, diante do longo e pesado cerco midiático, talvez seja o exemplo mais retumbante.

Em suma, o povo não engole tudo o que se despeja sobre ele: mastiga, deglute, digere e muitas vezes cospe conteúdos que não se encaixam em seus valores, sua percepção da realidade e diante de informações que ele consegue por meios próprios e muito mais confiáveis.

É aqui que mora o perigo para a velha mídia. Sua credibilidade está descendo ladeira abaixo. Segundo a citada pesquisa, quase 60% das pessoas acham que as notícias veiculadas pela imprensa são tendenciosas.

Um dado ainda mais grave: 8 em cada 10 brasileiros acreditam muito pouco ou não acreditam no que a imprensa veicula. Quanto maior o nível de renda e de escolaridade do brasileiro (que é o rumo da atual trajetória do país), maior o senso crítico em relação ao que a mídia veicula – ou “inocula”.

A velha mídia está se tornando cada vez mais salgada para o povo. Em dois sentidos: ela pode estar exagerando em conteúdos cada vez mais difíceis de engolir, e as pessoas estão cada vez menos dispostas a comprar conteúdos que podem conseguir de graça, de forma mais simples, e por canais diretos, mais interativos, confiáveis, simpáticos e prazerosos. Num momento em que tudo o que parece sólido se desmancha… na água, quem quiser sobreviver vai ter que trocar as lições de moral pelas explicações didáticas; vai ter que demitir os pit bulls e contratar mais explicadores, humoristas e chargistas. Terá que abandonar o cargo, em que se autoempossou, de superego da República.

Do contrário, obstinados na defesa de seus próprios interesses e na descarga ideológica coletiva de suas raivas particulares, alguns dos mais tradicionais veículos de comunicação serão vítimas de seu próprio veneno. Ao exagerarem no sal, apenas contribuirão para acelerar o processo de derretimento do impávido colosso iceberg que já não está em terra firme.


Valente: Lula e Wagner fazem, mas o prefeito soutista Ubaldino Amaral quer a fama

Por Maria Madalena Oliveira Firmo (Leninha) – Vereadora (PT/Valente), Líder da Bancada e Presidente da Comissão de Educação, Saúde, Obras e Serviços Públicos da Câmara de Vereadores de Valente.

As assessorias de comunicação surgiram para assegurar maior clareza e qualidade às informações divulgadas pelos governos e empresas, explicitando as concepções político-institucionais que estão por orientar as ações. O Informativo da Prefeitura de Valente (Ano 02, Edição 03), elaborado pela assessoria de comunicação e amplamente distribuído junto aos moradores da sede do município (3 mil exemplares), pretende, ao que parece, a mesma finalidade.

No entanto, o texto do editorial do Informativo é bastante impreciso, não conseguindo mostrar uma visão estratégica do governo, porque “diz” que “a cidade de Valente tem características próprias na área política como a eleição de líderes através de fatores bastante pessoais. Ideologias, objetivos sociais (como a busca pelo progresso e o crescimento do município) e outros diferenciados como o prestígio dos valores da terra e de se estar presente no dia a dia da cidade”. Quem merece essa confusão! Tudo isso só para querer ressaltar a festa de São João como prioridade política do governo.

Intitulado “governo de parcerias”, chama a atenção de quem manuseia o Informativo (com fotos!) o conjunto de ações que foram realizadas: 100 mil metros quadrados de calçamento (beneficiando ruas da sede e das comunidades rurais); uma padaria comunitária e uma casa do mel; a aquisição de 01 máquina motoniveladora (patrol); a construção de 10 praças públicas nos povoados; a reforma do aeroporto e o alargamento da pista de acesso à cidade; o acesso à água potável e eletrificação rural para diversas comunidades rurais; a construção de esgotamento sanitário; a reforma do Estádio Municipal, a construção da sede do INSS; a aquisição de 03 viaturas (polícias Civil e Militar), 02 ônibus escolares e mais 03 carros para saúde; a construção de 02 quadras poliesportivas; a construção de 180 casas populares; a construção de 05 Postos de Saúde da Família – PSF (Junco, Santa Rita de Cássia, Tanquinho, Valilândia e Juazeiro); a implantação dos CRAS, CREAS e CAPS; e a conclusão da construção do Colégio Estadual Luciberto Martins, tudo financiado pelos recursos públicos dos governos Lula e Wagner, mas sem serem citados – embora as placas impeçam a omissão. É essa a concepção de parceria do governo Ubaldino Amaral – os governos Lula e Wagner pagam, mas não podem aparecer! Mais uma vez ninguém merece! Leia mais »


Os Intelectuais e a Razão na História. Por Ubiracy de Souza Braga

Ubiracy de Souza Braga é sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em comunicação social (USP) e professor da coordenação do curso de ciências sociais da UECE – Universidade Estadual do Ceará

Ao amigo Clodoaldo Almeida da Paixão

Andy Singer - Rethinking Consumer Capitalism

Em 1975, sete anos após a morte de Jean Hyppolite, Michel Foucault enviará à viúva um exemplar de Surveiller et Punir com a seguinte dedicatória: “À Madame Hyppolite, como lembrança daquele a quem devo tudo”. De todo modo Hyppolite não foi o único responsável por essa reviravolta. Desde 1929 Jean Wahl chamara a atenção sobre o filósofo alemão ao publicar Le Malheur de la Conscience dans la Philosophie de Hegel em que apresentava um Hegel místico, segundo a expressão de Roland Cailois. Em 1938 Henri Lefebvre editou os Cadernos de Lenin sobre a dialética de Hegel. A vida e o pensamento de Alexandre Kojève confundem-se com os acontecimentos mais marcantes do século XX.

Etnobiograficamente falando, nascido no seio de uma família aristocrata na Rússia, ainda muito jovem A. Kojève foi preso com seus pais no calor dos acontecimentos políticos de outubro de 1917. Na prisão, começou a simpatizar com os revolucionários bolcheviques. Passada a tormenta, a família foi libertada e buscou exílio da Alemanha, onde o inquieto Kojève mergulhou profundamente no estudo da filosofia clássica. Deixou a Alemanha durante a ascensão do nazismo e aceitou suceder Alexandre Koyré em uma cátedra na École Pratique des Hautes Études, em Paris. Ali, de janeiro de 1933 a maio de 1939, tornou-se um dos mais importantes introdutores do pensamento de Hegel na França. Seu curso adquiriu fama insuperável. Por ele passaram Jean-Paul Sartre e Jacques Lacan, entre muitos outros intelectuais que nunca esconderam sua dívida de gratidão com o mestre. No segundo após-guerra, Kojève tornou-se conselheiro da Presidência da França e um dos mais influentes articuladores do projeto de uma Europa unificada, que hoje se concretiza. Morreu em 1968. Russo por nascimento, alemão por formação, francês por opção política, Kojève foi um intelectual brilhante, dotado de vastíssima erudição. Sempre envolvido em projetos ambiciosos, quase inacabáveis, publicou relativamente pouco. Vários de seus textos principais, geralmente muitos extensos como em todo grande homem, permaneceram incompletos e tiveram edições póstumas. Leia mais »


CNI/IBOPE: Serra é a fogueira que queima no São João

A boa notícia é que uma hora o combustível acaba e o fogo apaga. A ruim é que isso se chama derrota. Foto: Google

O processo eleitoral mal se iniciou e a candidatura de José Serra ameaça beijar a lona. Viram ruínas os últimos argumentos, ainda vigentes no bunker tucano, sobre o suposto papel da propaganda eleitoral na alavancagem da candidatura de Dilma Rousseff. Dilma, segundo os tucanos, crescia por conta das aparições na TV. A hora dos tucanos chegaria.

O horário de televisão tucano, ainda mais precioso em tempos de queda, não surtiu nenhum efeito sobre o eleitorado. Serra, por conta de uma discutível estratégia, preferiu disputar a atenção dos telespectadores com as vuvuzelas e a jabulani. Serra acreditava que ganhava de Maradona, Kaká e Luis Fabiano.

A nova pesquisa CNI/Ibope aponta o caminho do purgatório para a oposição. A sensação que se tem é que não importa mais quem vai ser o vice de Serra. Os números e o cacife eleitoral dos cotados apontam para a irrelevância eleitoral da escolha.

Dilma cresceu oito pontos percentuais deste março. Com 38,2% contra 32,3% de José Serra, Dilma abiu uma diferença de quase 6% sobre um adversário a cada dia mais fraco. Que jogada brilhante teria Serra para reverter este quadro durante a campanha?

Com ser oposição com 10% de crescimento da economia neste quadrimestre e uma projeção de mais de 7% ao ano? O que fazer quando Lulinha 85% entrar, em cada casa, por meio da telinha, de mão dadas com Dilma?

O crescimento de Dilma não é fruto da propaganda eleitoral petista, como é de amplo conhecimento. O crescimento de Dilma é o desejo de continuidade. O eleitor não deseja trocar o que ele conhece, que está dando certo, pelo imponderável de uma candidatura que não aponta nenhum projeto, nenhuma correção de rumo que pareça coerente ou justificável. Uma candidatura que não fala de nada.

Quando perguntado, no Roda Viva, o que faria no Banco Central, alvo de muitas críticas suas, Serra emendou: melhorar. A resposta, embora pareça simplesmente amadora, revela um desejo sem nenhuma base factível. Uma premissa que bóia no nada, eis a forma que se apresenta a candidatura tucana.

Se a oposição temia uma ultrapassagem de Dilma antes do começo do horário eleitoral, o medo agora é de uma derrota no primeiro turno. Dilma mostra musculatura para tornar isso possível, e este fato é mais que suficiente para propagar a insônia nos cardeais tucanos.

Serra, segundo a CNI/IBOPE, é a fogueira que queima no São João.

Por Charles Carmo


A guerra de espadas em Cruz das Almas: quem tem medo de bicho papão?

Até as crianças perderam o medo: em Cruz das Almas é tabu.

Um clima tensão ronda o município de Cruz das Almas, no Recôncavo Baiano. Nas barbearias, na feira, nas esquinas e bares, um assunto polêmico, inevitavelmente aparecerá: a repressão ao armazenamento clandestino e queima das espadas, artefato pirotécnico feito com pólvora socada com barro, em pedaços de bambu, amarrados em barbante.

A guerra de espada é uma das mais antigas e sedimentadas tradições do São João em Cruz das Almas. Com preços que variam de 50 a 100 reais a dúzia, a fabricação de espadas passou a ser uma alternativa de renda para centenas de pessoas no município, e um problema a ser administrado pelo poder público.

O Ministério Público e a justiça resolveram intervir e a apreensão de espadas e repressão aos “espadeiros” (como são chamados os fabricantes de espadas) gerou uma série de confrontos entre a polícia e estes que são os mantenedores desta tradição secular.

Há poucos dias, um lamentável episódio de violência foi deflagrado na Praça Senador Temístocles, no centro da cidade, quando espadeiros atiraram espadas contra um efetivo da Polícia Militar. Os policiais reagiram e acabou sobrando pancadas até para quem não tinha nada a ver com o episódio, em um excesso de vigor por parte da Polícia Militar imperdoável em uma democracia.  Leia mais »


Locomotiva do Nordeste. Por Yulo Oiticica

Yulo Oiticica é deputado estadual e presidente da Frente Parlamentar da Juventude e da Assistência Social.

A Bahia é a locomotiva do Nordeste. Apesar da oposição, volta e meia, torcer o nariz contra o desenvolvimento do estado, não perdemos o foco: o produto interno bruto (PIB) da Bahia cresceu 9,5% no 1º trimestre de 2010, em comparação ao mesmo período do ano anterior. Mas, ao contrário de outrora, não apostamos na fórmula crescer para distribuir. O presidente Lula ensinou para os gestores brasileiros que primeiro devemos distribuir para crescer. E na Bahia não é diferente.

Em março deste ano, da Jordânia, o governador Jaques Wagner celebrou com o presidente Lula, em missão ao Oriente Médio, os primeiros sinais de que a política de atração de investimentos do estado transformava o maremoto das elites conservadoras numa domesticada marolinha. A pesquisa do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), divulgada pelo Ministério do Trabalho, apontava que a Bahia respondeu por nada mais, nada menos, do que 99% do saldo de empregos de toda a região Nordeste no primeiro bimestre deste ano: 20.512 dos 20.543 novos postos de trabalho.

Gerar emprego é distribuir renda. O governo em pouco mais de 3 anos gerou 210 mil empregos de carteira assinada. Investir R$ 2 bilhões através do Programa Bolsa Família na Bahia é distribuir renda. O Bolsa Família representa 10% do orçamento do estado. A taxa da produção industrial baiana teve crescimento de 15,9%, no acumulado de janeiro a abril deste ano – num ritmo mais intenso que o registrado no último quadrimestre de 2009 (5%). Frente a abril do ano passado, cresceu 24% no indicador mensal, sétima taxa positiva consecutiva e a mais elevada desde novembro de 2004 (30%). Leia mais »


A face ocultada do futebol. Por Laurindo Lalo Leal Filho

A TV Brasil e a TV Câmara mostraram alguns aspectos da face do futebol que é ocultada pela TV comercial. Sócrates, o capitão da seleção brasileira de 1982 e o jornalista José Cruz, levantaram algumas pontas do véu que cobre, não apenas o futebol, mas grande parte de toda a estrutura esportiva existente no Brasil. Por Laurindo Lalo Leal Filho

Por Laurindo Lalo Leal Filho na Carta Maior.

Está no ar o maior espetáculo de televisão. Em audiência nada bate a Copa do Mundo. Na Alemanha, em 2006, os 64 jogos foram vistos por 26 bilhões de telespectadores, número que neste ano pode alcançar os 30 bilhões.

São 60 bilhões de olhos vendidos pela FIFA para as emissoras de TV comercializarem com os seus anunciantes. As cifras envolvidas em dinheiro são estratosféricas. Ganham a Federação internacional, as empresas de televisão e os anunciantes reforçando marcas e alavancando a venda de produtos e serviços.

Um ciclo perfeito, onde nada pode ser criticado. Normalmente, a TV no Brasil não critica os jogos transmitidos já que, dentro da lógica empresarial, seria um contrasenso mostrar defeitos do próprio produto. E o futebol, para a TV, nada mais é do que um dos seus produtos, assim como as novelas e os programas de auditório.

Dessa forma se todos ganham e não há criticas, o grande espetáculo do futebol, em sua dimensão máxima que é a Copa do Mundo, chegaria as raias da perfeição. Pelo menos é que mostra a TV.

Mas, e ainda bem que há um mas nessa história, a TV Brasil e a TV Câmara mostraram no programa VerTV alguns aspectos da face do futebol que é ocultada pela TV comercial. Sócrates, o capitão da seleção brasileira de 1982 e o jornalista José Cruz, levantaram algumas pontas do véu que cobre, não apenas o futebol, mas grande parte de toda a estrutura esportiva existente no Brasil.

Para começar não é verdade que todos ganham. Há quem perda, e são muitos. Por exemplo, os jovens que por força da TV associam desde cedo o sucesso esportivo com o consumo de cerveja. Ou desprezam o estudo, uma vez que seus ídolos não precisaram dele para alcançar a glória e a fama.

No programa, Sócrates foi enfático: “A TV vende o sonho do consumo. Vende atitude, aparência, comportamento, moda. Mas, é incapaz de vender educação. E vender esporte sem educação é um crime. Mostram ídolos do futebol que não estudam e são um péssimo exemplo para a sociedade. E não por culpa deles apenas. O sistema estimula que saiam da escola”.

Afirmação que desperta uma curiosidade. A mídia revela diariamente minúcias da vida dos jogadores. Onde vivem, que carros possuem, como são suas casas e suas famílias. Só não dizem até que ano estudaram, em quais escolas, como eram enquanto alunos. Por que será? Sócrates responde: “a ignorância dos jogadores é estimulada pelo sistema. A ele não interessam profissionais com possibilidade de critica”.

O jornalista José Cruz mostra outras perdas. De toda a sociedade. Por exemplo, com a irresponsabilidade dos dirigentes esportivos nos clubes, federações e confederações. Embora privadas, essas entidades recebem dinheiro público e, por isso, deveriam prestar contas publicamente. “As loterias esportivas repassam dinheiro para o futebol. A Timemania está hoje tapando o buraco das dívidas fiscais dos clubes produzidas por dirigentes irresponsáveis”.

E mostra outras perdas sociais. A do dinheiro público desperdiçado, por exemplo, nos Jogos Panamericanos do Rio, em 2007. Dá dois exemplos retirados do relatório do Tribunal de Contas da União: “a compra de 5 mil tochas para serem acesas no evento, das quais só chegaram 500 e, ainda assim apenas 380 foram aproveitadas e a descoberta, depois dos Jogos, pelos auditores do TCU, de 880 caixas contendo aparelhos de ar condicionado que sequer foram abertas. E tudo isso segue impune”.

Tanto Sócrates, como José Cruz, alertam para o fato da seleção nacional e dos seus jogos serem eventos públicos que, no entanto, estão totalmente privatizados. “A seleção brasileira – que usa as cores, o hino e a bandeira do nosso pais – deveria ter parte de suas receitas revertidas para o futebol brasileiro, muito pobre em várias regiões do Brasil”, diz o jornalista.

Sócrates lamenta o volume de recursos jogados fora pela falta de uma política esportiva de Estado. Para ele “o esporte deveria ser um braço da saúde e da educação. Se não ele fica solto” e aponta a deficiência dos cursos de Educação Física: “não há um que trate o esporte com viés comunitário. É tudo individualista”.

E há mais. Quem quiser saber basta entrar no site da TV Câmara, clicar em “conhecer os programas” e depois no VerTV. Lá revela-se um pouco do que a TV comercial teima em ocultar.


A Dupla Face das Relações futebol versus política na Copa Africana. Por Ubiracy de Souza Braga

Ubiracy de Souza Braga é sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em comunicação social (USP) e professor da coordenação do curso de ciências sociais da UECE – Universidade Estadual do Ceará.

“A ortodoxia é a militarização da cultura”.
Eduardo Portella
Para Jamille, com ad-miração.

A epígrafe supracitada alude à seguinte questão: as dimensões políticas do discurso econômico sobre a Copa do Mundo na África do Sul (2010) e as dimensões econômicas do discurso político no âmbito do processo eleitoral, com vistas às eleições presidenciais no Brasil, em primeiro lugar, apontam para as seguintes teses: a) não é um truísmo afirmar que a Copa do Mundo e as eleições presidenciais dividem as atenções da “marginalidade de massa”: os consumidores, disciplinando-os, segundo a expressão de Michel de Certeau (1974; 1975; 1980); b) o debate político como repetição na recente história da República brasileira, lembra-nos o brilhantismo do jogador “Dadá maravilha” que para ratificar as ditas “jogadas aéreas” tinha como marketing a expressão: “só três coisas param no ar: beija-flor, helicóptero e Dada”, levam-nos, b) a escolha do seleto grupo de brasileiros sofreu influências que ficaram marcadas na história.
Historicamente falando, entre os agentes sociais dessa influência, além da comissão técnica, do grupo de jogadores e da “opinião pública” (cf. Thiollent, 1982), estava o governo-militar golpista, na figura do general-presidente Emílio Garrastazu Médici. Sabemos que o presidente exigiu a escalação de determinados jogadores, fato que causou, meses antes da Copa, a troca do jornalista-treinador comunista João Saldanha por Zagallo no comando da equipe.

Em 1974, os jogadores brasileiros, respaldados pela vitória em 1970 e insatisfeitos com as “críticas nevrálgicas” ou o papel de “cão de guarda” (watchdoge role, como tem sido recorrente) da imprensa, assinaram um Manifesto em que prometiam não falar mais com os jornalistas, episódio que ficou conhecido como o Manifesto de Glascow. Hoje são os técnicos brasileiros que têm verdadeiro horror da imprensa e daqueles que os tornam primus inter pares: os torcedores. Existe também uma simetria simbólica entre Copa do Mundo e eleições que se estende à própria dinâmica de disputa. Ambas funcionam como representação social da finitude de um processo, se já não é um truísmo, encerramento e inicio de um ciclo cujos rumos serão definidos pelo resultado das duas competições, a saber: a disputa presidencial e dos demais cargos num pleito eleitoral replicam os embates emocionais de um jogo com estratégias, dramas e, por fim, o confronto direto nos debates. Impedidos de decretarem vitória, os protagonistas transferem para o público o sentimento da responsabilidade da decisão, o que, paradoxalmente, confere ao ritual no espaço antrópico com idêntico grau de imprevisibilidade de uma partida.

Em nosso entendimento configura-se aí o que o filósofo Ernest Jünger, denominou um “estado de mobilização total” (Jünger, 1990), ou seja, para o trabalhador – a mobilização técnica – é total (totale Mobilmachung). Da mesma maneira que a figura é um todo metafísico, “a mobilização é total na medida em que concerne ao planeta inteiro, às ações, ao corpo, ao espírito”. A expressão – mobilização total – é introduzida pela primeira vez por Jünger, originalmente no ensaio Die Totale Mobilmaching (1930), não por acaso, editado originalmente em naquele ano. Nele indica o que de essencial se lhe revelou na Primeira Grande Guerra (1914-18), aquilo que a tornou possível: a ligação da guerra ao trabalho por intermédio de uma mobilização que converte toda a existência em energia: “L’exploitation totale de toute l’énergie potentielle (…) et cette réquisition radicale fait de la guerre mondiale un événement historique qui dépasse en importance la Révolution Française”. Leia mais »


O Ceará socialista, notas e comentários. Ubiracy de Souza Braga

Ubiracy de Souza Braga é sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em comunicação social (USP) e professor da coordenação do curso de ciências sociais da UECE – Universidade Estadual do Ceará.

Durante o período de formação do pensamento político burguês, concomitante ao surgimento do movimento operário (cf. Ferreira, 1978; 1990), em particular de 1860 a 1869, apareceram, no Brasil, 20 publicações operárias, número este que aumentou para 46, no decênio seguinte. Os títulos, que se repetem muitas vezes denotam como vemos positivamente a tendência político-ideológica dos jornais, a saber: O Operário, O Trabalho, O Proletário, O Socialista, O Brado da Miséria, O Grito dos Pobres. Havia alguns, porém, de corte anarco-comunista como O Anarquista Fluminense, O Anarquista, O Comunista, O Incendiário e O Carbonário, entre outros, que procuravam satirizar a sociedade da época, de cunho humorístico, ou apenas possuíam um caráter de liberalidade. O jornalismo não é uma atividade como qualquer outra, pois “a produção jornalística e o conjunto da imprensa podem injetar fatos nesse contínuo amorfo mediático produzindo, enquanto um sistema de alarme, reformulações, recomposições, releituras da política e da sociedade” (Marcondes Filho, 2009: 11).

O marxismo tem como parti pris que a república democrática é o regime político ideal, nas condições do capitalismo, para que se leve adiante o processo de acumulação de forças do proletariado com vistas à revolução socialista. Ao mesmo tempo sempre denunciou seu caráter enganoso e todas as suas limitações, enquanto invólucro de um Estado cuja função é assegurar a dominação de uma classe, “o comitê executivo da classe dominante”, exploradora minoritária, a burguesia. Para o que nos interessa, no sentido clássico do termo, o partido proletário marxista se opõe à negação reacionária da democracia burguesa; e é, simultaneamente, a favor da democracia proletária, que encarne a dominação da maioria trabalhadora.

Historicamente falando em todo o século passado (e, em alguns países, até o nosso século – na Espanha, por exemplo, até a instauração da república, em 1931), a negação reacionária fora representada principalmente pelos partidários do ancien regime monáquico-aristocrático, com os quais a burguesia liberal já tendia para a conciliação política. No século XX, o que passa a predominar é a negação reacionária da chamada democracia burguesa. Por temor das crescentes conquistas políticas e dos direitos civis do proletariado, a burguesia enjeita sua filha; mas a ferrovia é a “sua filha branca de mãe preta” (cf. El-Kareh, 1982) e, do ângulo da disciplinarização do capital (cf. Rago, 1985), chega a fazê-lo de modo radical sob a forma de fascismo/nazismo ou de ditadura militar. No passado recente, as formas novas, burguesas, de reação, agiram muitas vezes em combinação com as formas antigas: a aliança dos marginais nazistas com a velha aristocracia prussiana que dirigia o exército alemão foi um exemplo. Mas após a II Guerra Mundial, o que caracteriza a reação antidemocrática, além do seu caráter em geral burguês, é o apoio que recebe, em toda parte, do imperialismo originário de alguns países sendo o mais liberal os Estados Unidos da América. Este liberalismo político anticomunista par excellence, tem dado uma contribuição decisiva para a morte da democracia em várias partes do mundo intermitentemente.

O jornalista Nereu Rangel Pestana refere-se à existência de um periódico – O Socialista – que, por volta de 1839, dez anos antes do Manifesto Comunista de Marx e Engels, pregava no Rio de Janeiro, uma organização que estabelecesse a cidadania universal. A partir de 1840, o médico Benoît-Jules Mure e o engenheiro Louis Leger Vauthier propagaram, no Brasil, o socialismo de Charles Fourier. Benoît-Jules Mure tentou fundir uma “colônia societária e seu respectivo falanstério no Saí” (cf. Hardman & Leonardi, 1982), localidade próxima a São Francisco do Sul (Santa Catarina). Ali permaneceu de janeiro de 1842 a setembro de 1843, quando regressou ao Rio de Janeiro. Louis Leger Vauthier, contratado para a execução de obras públicas pelo Governo de Pernambuco, atuou na cidade de Recife. Ambos formaram grupos de intelectuais e contribuíram para o lançamento de publicações socialistas no Brasil. Assim é que, em 1° de agosto de 1845, Manuel Gaspar de Siqueira rego começou a editar, em Niterói, O Socialista da Província do Rio de Janeiro, no qual “colaboraram Benoît-Jules Mure, João Vicente Martins e Edmond Tiberghein, enquanto, em julho de 1846, Antonio Pedro de Figueiredo lançava a revista O Progresso, que existiu até setembro de 1848, ou, o tablóide O Socialista da Província do Rio de Janeiro, que circulava três vezes por semana, encerrou suas edições em agosto de 1847” (Bandeira, 1980: 14). Leia mais »


Ampliação da Residência Médica na Bahia. Por Jorge Solla

Jorge Solla é médico e Secretário de Saude do Estado da Bahia.

O Governador Jaques Wagner definiu a Saúde como uma de suas prioridades de governo e vem ampliando a capacidade instalada da rede pública nas diversas regiões do estado e nos vários níveis de atenção. É de longe o maior investimento já feito em toda a história da Bahia com este objetivo. São mais de 400 novos postos de saúde para equipes de saúde da família, cerca de 1.100 novos leitos em hospitais públicos estaduais, dos quais metade já estão em atividade, 5 grandes hospitais públicos regionais (Irecê, Juazeiro e Santo Antonio de Jesus em funcionamento e o Hospital Estadual da Criança em Feira de Santana e o Hospital do Subúrbio em Salvador a serem entregues em 2010). Já foram ampliados os leitos de UTI pelo SUS em 45% em relação ao total existente em 2006 e até final de 2010 este aumento chegar a 80%.

Das unidades públicas estaduais anteriormente existentes, a maioria delas encontrada sucateada na sua estrutura física, faltando equipamentos, sem a devida manutenção e com grandes carências de recursos humanos, a quase totalidade passaram e estão passando por reformas e ampliações, além de reposição dos equipamentos médico-hospitalares e contratação em três anos de mais de 11.000 postos de trabalho para recompor o quadro destes hospitais. O número de Centros de Atenção Psico-Social (CAPS) quase dobrou em três anos e o de Centros de Especialidades Odontológicas (CEO) triplicou.

A produção ambulatorial nas unidades públicas estaduais aumentou em 44% em apenas três anos. Já estão em funcionamento ou em fase avançada de implantação serviços de alta complexidade (neurocirurgia, cardiologia, oncologia, terapia intensiva, entre outros) e centrais de regulação nos principais pólos regionais do estado.

Para dar conta deste desafio é imprescindível ampliar e qualificar a formação de novos profissionais de saúde. Estamos enfrentando este desafio! Entre as metas colocadas pelo Governo Wagner está ampliar as vagas de Residência Médica na Bahia e abrir programas em especialidades que até então não existiam em nosso estado, como é o caso da neurocirurgia. Os resultados alcançados são extremamente positivos. O número de vagas novas anuais em Programas de Residência Médica (RM) aumentou de 359 para 525 (+46,2%), com 166 novas vagas anuais abertas comparando 2010 com 2006; o número de Programas de RM passou de 102 para 146, com a criação de 44 novos programas (+43,1%); o número de vagas para novos residentes em Anestesiologia saiu de 12 para 31, sendo criadas 19 vagas novas (+158,3%); Cirurgia Geral aumentou o número de novas vagas anuais em 22,5%, Clínica Médica em 27,1%, Pediatria em 17,0% e Ortopedia/Traumatologia em 14,3%; foram criados os primeiros programas de RM em Neurocirurgia (2 programas com 3 vagas) e Medicina de Urgência (10 vagas) na Bahia; Neurologia ampliou em 50% o número de vagas, Nefrologia também em 50% e Medicina Intensiva (UTI adulto) em 72,7%; foram abertos dois novos programas em Medicina de Família e Comunidade, aumentando de 10 para 26 vagas (+160%), com destaque para o Programa criado pela Escola Estadual de Saúde Pública (EESP) com 14 vagas; as vagas de R3 em Pediatria (voltadas principalmente para preparar Neonatologistas) sairam de 19 para 40 anuais (+110,5%); R3 em Cirurgia Geral que tinha apenas uma vaga passou a contar com 9 (+800%); foram criados os primeiros Programas de RM em Barreiras (Clínica Médica e Pediatria) e Juazeiro (Clínica Médica e Cirurgia), sendo que este último abriu seus programas com menos de um ano de funcionamento do novo Hospital Regional de Juazeiro; os oito hospitais que concentram cerca de 83% das vagas de RM na Bahia – HUPES (Hospital das Clínicas da UFBA) (123), Hospital Roberto Santos (77), Hospital Santo Antonio (72), Hospital Santa Isabel (55), Hospital São Rafael (43), Hospital Ana Neri (31), Hospital da Cidade (21) e Hospital Geral Clériston Andrade (14), somados aumentaram em 46,8% o número de vagas oferecidas; cabe destacar a parceria com o Hospital da Cidade, o qual saiu de 3 vagas para 21 novas vagas de RM oferecidas (+600%), com o Hospital Ana Neri que passou de 14 para 31 (+121%) e o Hospital Santa Isabel que aumentou de 26 para 55 (+112%); foram criados novos programas em várias especialidades, entre elas os programas pioneiros em Angioradiologia (Hospital Roberto Santos) e Acupuntura (Hospital da Cidade) e dos primeiros programas de RM em Mastologia na Bahia (Hospital Santo Antonio, Hospital Aristides Maltez e Hospital São Rafael).

Com este investimento o Governo da Bahia dá uma grande contribuição para a capacidade de atender mais e melhor nossa população na área de saúde.


Don’t use USA. Por Sitônio Pinto

Sitônio Pinto é jornalista, escritor, publicitário e criador do "Lula lá" e de "Onde o sol nasce primeiro", slogan da Paraíba.

Dois daqueles caras-pálidas que faziam a propaganda de Marlboro Country já morreram de câncer no pulmão – o popular câncer, o câncer nosso de cada dia, o câncer de todos nós. Os nomes dos caras, nas lápides lá deles: David McLean e Wayne McLaren. Eles morreram na terra de Marlboro, a terra onde está o sabor de aventura e liberdade, como dizia a propaganda que você já viu. Essa propaganda é muitas vezes enganosa, a começar da referência à terra de Marlboro: o câncer nasceu na Inglaterra, em Londres, onde Seu Philip Morris abriu a matriz, em 1847, na Marlborough Street.

Mas não é só Marlboro que dá câncer. A concorrência também dá. E não é só o fumo que dá câncer. A pólvora que os fabricantes usam para o cigarro não se apagar e queimar mais depressa também dá câncer; a cola usada para o fumo não cair do rolinho de papel também dá, o papel queimado dá também, o fungicida usado para não dar mofo nem bicho no cigarro também dá câncer, o preço do vício dá câncer no bolso e metástase na pessoa e na personalidade.

Qual o cigarro que dá mais câncer? O cigarro americano, pois ele é o mais difundido no mundo, como qualquer produto ianque. Só Marlboro é vendido em 180 países. Haja câncer, haja lucro para Marlboro Country. Leia mais »


Hillary é mesmo hilária. Por Sitônio Pinto

Hoje, o estado terrorista de Israel é um enclave atômico no Oriente Médio, onde ataca os navios da humanidade que ousem passar ao largo de sua bucana. Na sua bandeira, a estrela de Judá substituiu a caveira e as tíbias cruzadas da “Jully Roger” e a suástica que tremulava nos campos de extermínio nazistas. Tudo sob os olhos e a gargalhada da hilária senhora Clinton, a poderosa secretária do cara-pálida Obama. Sitônio Pinto é Jornalista, escritor, publicitário e criador do "Lula lá".

Yasin AlkhalilCharge de Yasin Al khalil

Israel aprendeu a lição da Segunda Guerra Mundial. Teve professores eficientes nas pessoas dos carrascos nazistas. O curso foi difícil, as provas foram pesadas: seis milhões de pessoas não passaram nos testes de sobrevivência. Agora, Israel está aplicando na pele dos povos árabes o que aprendeu nos campos de concentração alemães. As forças de Israel são muitas e múltiplas: elas atacam por terra, mar e ar. Nesta semana, assaltaram a flotilha de solidariedade que navegava em águas internacionais rumo à Faixa de Gaza, levando remédios e víveres; mataram nove pessoas de sua comitiva, feriram meia centena, aprisionaram quase um milhar e apreenderam a carga vital para os palestinos isolados no gueto do Crescente Fértil.

A ONU aprovou uma investigação sobre a operação corsária. A palavra exata para definir o atentado é esta: a surtida corsária, da marinha armada que tinha carta de corso para atacar navios mercantes de bandeira inimiga, apropriar-se das embarcações, sua carga, e escravizar ou descartar seus passageiros e tripulantes. Essa bandidagem oficial nasceu no Mediterrâneo, na Idade Média, durante as guerras permanentes que fizeram a História da Europa. Leia mais »


Mau exemplo de Serra. Por Sitônio Pinto

Sitônio Pinto é Jornalista, escritor, publicitário e o criador do "Lula lá".

O que terá levado o bibliotecário William Rodrigues Marques a se fantasiar de estudante de Medicina, e, assim caracterizado, deambular pelos jardins da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre? Ele estava vestido com a bata dos cirurgiões, e passeava por onde não devia: o lado de fora, área de acesso vedado às equipes de cirurgia em uniforme de campanha, devidamente esterilizadas para suas intervenções.

Que dizer: William foi pego não porque entrou, mas porque teria saído. Os cirurgiões não podem sair, e William queria sair fantasiado de cirurgião nesse período pré-carnavalesco que antecede a Copa dos Mundos. Ele veio de longe, desde Manaus, para ser preso em Porto Alegre, onde estuda biblioteconomia. Não se contentava em ser um aprendiz da gerência dos livros. Ele queria ser médico, ou acadêmico de Medicina, profissão preferencial da maioria dos jovens brasileiros — que não se contentam em ser técnicos ou bacharéis noutros ramos do conhecimento menos prestigiados pela sociedade.

O falso brilho dos anéis seduz o jovem que não se conforma em ser operário, comerciário, agricultor, num país onde não se dá valor às profissões trabalhadoras. Quase todos querem ser doutor, mesmo que a pedra do anel tenha o brilho pobre das crisólitas. Não se dão conta que os atuais Presidente e Vice-Presidente da República não tenham títulos e anéis, e conduzido bem o País. Na primeira vez em que foi diplomado Presidente, o operário Luiz Inácio disse que aquele era o primeiro diploma que recebia na vida.

Poucos jovens se lembram disso, ou eram meninos quando o Presidente disse isso, soluçando, as lágrimas molhando o papel. Preferem seguir o exemplo de um certo Serra, ex-governador de São Paulo, que também galgou esse alto posto sem bacharelado: mesmo gestor do estado mais rico do Brasil, Serra não se conformava em não ter um diploma de bacharel e propalava, aos quatro ventos dos sete mares, que era economista e engenheiro. Podia até ter dito mais, pois foi ministro da Saúde sem ser médico, como William queria ser. Leia mais »